perspectivas

Quinta-feira, 3 Junho 2010

A privatização do Bem

« A civilização [ocidental] pode, de facto, avançar e declinar em simultaneidade ― mas não para sempre. Existe um limite em relação ao qual se dirige este ambíguo processo; o limite é alcançado quando uma seita activista que representa a verdade gnóstica, organiza a civilização em forma de um império sob seu controlo. O totalitarismo, definido como o governo existencial dos activistas gnósticos, é a forma final da civilização progressista. »
— Eric Voegelin

A estratégia política da esquerda ao privatizar o Bem, tem como intenção diminuir a coesão social por via da diluição da homogeneidade cultural mínima e necessária à sociedade, tendo em vista, numa primeira fase, a imposição de um totalitarismo suave regido pela arbitrariedade de uma elite gnóstica de auto-iluminados.

A esquerda portuguesa — e mesmo alguns sectores do Partido Social Democrata — trabalha activamente para a privatização do Bem. No caso do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista, a ironia da situação revela-se através de um ideário político colectivista na economia, e da privatização do Bem na ética e na cultura.

Quando a esquerda fez a provar a lei do “casamento” gay, pretende fazer aprovar a adopção de crianças por duplas de gays, pretende fazer aprovar uma lei que permite a mudança de sexo no Bilhete de Identidade mantendo-se a barba e o pénis, pretende legislar em matéria de eutanásia, etc., o que a esquerda está a fazer é privatizar o Bem.

O entendimento que a esquerda faz de Bem é o de que este tem como característica a prioridade absoluta e inquestionável (privada e pública) da autonomia individual, desde que essa autonomia na concepção individual de Bem (alegadamente) não signifique a sua imposição aos outros. A partir desta concepção de Bem, todos os estilos de vida e todas as preferências individuais devem ter o mesmo valor de ponderação ética e merecer o mesmo respeito, independentemente das suas características.

Para o esquerdalho, a ideia de que possa existir um Bem comum e público, é perigosa e uma espécie de “herança do fascismo” ou ideia de “extrema-direita”. Tornar pública a noção de Bem é, para os progressistas, uma coisa “medieval”. A ideia segundo a qual a ética deve ser universal (transcendendo as preferências pessoais), fundamentada racionalmente, ter uma validade intemporal, ser identificável nas suas características principais, e ter uma relevância pública e política — esta noção de ética é, para a esquerda, atentatória dos “direitos” individuais, reaccionária e “clerical”.

Para a esquerda, o Bem é o que cada um quiser e lhe der na real gana. As preferências sexuais, por exemplo, passam a ser comparadas com outras idiossincrasias, como as preferências na maneira de vestir, ou com o tipo de música preferida. A ideia é esta : “uns são gays, outros gostam de sexo com animais, outros gostam de amarelo, outros são sado-masoquistas, outros gostam de ir ao futebol, e outros ainda gostam de música clássica. É tudo eticamente normal e moralmente aceitável.”

Esta noção de Bem como algo privado parte do princípio da validação da “neutralidade moral”. Porém, esta neutralidade moral é impossível, porque não pode existir uma neutralidade entre a neutralidade e a não-neutralidade. O conceito de “neutralidade” moral impõe automaticamente uma não-neutralidade porque privilegia uma determinada opinião politicamente correcta acerca da moral em detrimento de outras.

A partir do momento em que a ética passa a ser coisa privada, ela não pode ser fundamentada racionalmente (porque fica proibido o seu livre debate público), e por isso, terá que ser imposta pela esquerda (seja na oposição ou no poder) através da força bruta e da arbitrariedade política, ou seja, de uma forma irracional. E é aqui que chegamos ao “ponto” — à intenção política escondida — da estratégia da política da esquerda em matéria moral e dos costumes: a construção de uma tirania mais ou menos suave, sujeita à discricionariedade de uma elite de iluminados.

A estratégia política da esquerda ao privatizar o Bem, tem como intenção diminuir a coesão social por via da diluição da homogeneidade cultural mínima e necessária à sociedade, tendo em vista, numa primeira fase, a imposição de um totalitarismo suave regido pela arbitrariedade de uma elite gnóstica de auto-iluminados.

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