perspectivas

Segunda-feira, 31 Maio 2010

Isabel Leal e a “teoria queer”

A psicologia — tal como a economia, e as ciências sociais em geral — não é uma ciência exacta porque não é passível, em termos gerais, de uma verificação das suas teorias à luz do “princípio da falsicabilidade” de Karl Popper (também conhecido como o “princípio da refutabilidade”). E a principal razão porque a psicologia e a economia não são — nem nunca serão — ciências exactas, é porque têm como objecto o ser humano.

Por isso, podemos ver dois economistas como César das Neves e Francisco Louçã defenderem teses económicas radicalmente opostas, o que seria impensável entre dois físicos ou dois químicos. Por exemplo, quando o conhecido bioquímico americano, Michael Behe, faz uma crítica ao neodarwinismo através do seu livro “A Caixa Negra de Darwin”, não o fez colocando em causa todo o paradigma darwinista, mas apenas alguns aspectos muitos específicos do neodarwinismo. O mesmo não acontece necessariamente em economia ou na psicologia, que são ciências muitíssimo permeáveis à ideologia e às religiões políticas.

A psicóloga Isabel Leal escreveu um artigo no suplemento do Jornal de Notícias do dia 30 de Maio de 2010, que pode ser lido aqui na íntegra em ficheiro PDF.

  1. Karl Popper defendeu a ideia de que a experiência [aplicada à ciência] deve ser compreendida não como um mundo de dados, mas como um método — o método de verificação ou controlo dos diversos sistemas teóricos logicamente possíveis, concluindo daqui a necessidade da refutação pela experiência.

    O grande problema dos psicólogos em geral (como de alguns economistas) é que partem muitas vezes do princípio — ou demonstram partir desse princípio — de que lidam com uma ciência exacta no sentido definido por Karl Popper quando na realidade não é disto que se trata, mas que essa “exactidão científica” acaba sendo determinada pela ideologia política. É o caso da Isabel Leal. Não se trata de ciência, mas de cientismo, na medida em que a manipulação política é evidente.

  2. No seu texto, a Isabel Leal diz que a “teoria queer” dos anos 90, tinha como intenção demonstrar que o “heterossexismo” (para utilizar a terminologia gayzista) ou a preponderância heterossexual no ser humano e na sociedade, era apenas “uma perspectiva não validada pela experiência”.

    O que é que isto quer dizer? Quer isto dizer que, na opinião da psicóloga, (e da “teoria queer” que ela defende), o género humano com 2 milhões de anos de existência, e a espécie humana com 130 mil anos de vida, não tiveram tempo suficiente para fundamentar qualquer experiência na área da sexualidade.

  3. Mas o absurdo não fica por aqui.

  4. Depois de dizer que a experiência humana não existe na área da sexualidade, ao mesmo tempo que fundamentava esta opinião em uma mera “teoria queer” não susceptível de verificação científica, ela parte para uma espécie de “progressismo genético da espécie humana”, segundo o qual o heterossexismo ou normatividade sexual foi, ao longo de milénios, uma preocupação meramente baseada no “controlo social das populações”.

    O que quer isto dizer? Quer dizer que, na opinião da psicóloga, a normatividade heterossexual — e desde o homo habilis aos dias de hoje — foi um “instrumento de controlo político e social”, ou seja, já no tempo do homo erectus (há cerca de 400 mil anos) “as preocupações de controlo político e social” impuseram o “heterossexismo” que herdamos hoje.

  5. A ideia da psicóloga segundo a qual um membro de uma “minoria sexual” (que ela não especificou qual minoria), que o é por oposição à “normatividade sexual”, pode ser uma “criatura encantadora”, é absolutamente extraordinária! E eu, que sempre pensei, ao longo de mais de 20 anos, que o Carlos Cruz era uma criatura extraordinária! Isto, vindo de uma psicóloga, dá-nos a ideia clara do que é o enviesamento político da ciência — e pior, a abertura que estas visões cientificistas têm nos me®dia.
  6. Finalmente, no ponto 3., a psicóloga, sem querer, reconheceu uma evidência: que o conceito de “orientação sexual” não é um conceito natural, mas um produto de engenharias sociais — que ela classifica como “construções sociais”. Podemos fazer um paralelismo ideológico entre a noção de “orientação sexual” e de “sexualidade natural”, aludindo ao direito positivo e ao direito natural. A construção humana do direito positivo pode ser de tal forma “artificial” que se afaste irremediavelmente do direito natural, ou seja, reduzindo a norma ao facto, abrindo uma caixa de Pandora com consequências imprevisíveis.

    A Isabel Leal faz uma confusão enorme entre “construções sociais”, que são produto de uma História de 2 milhões de anos, com “engenharias sociais”, de origem nas religiões politicas que pretendem alterar a natureza fundamental da realidade. Ademais, ela esquivou-se a falar no problema da identidade gay. Em alternativa, dá-me ideia que os psicólogos e psiquiatras não estão satisfeitos com a quantidade da clientela e andam a investir no negócio a ver se os cifrões sobem — da mesma forma que um advogado pode ser a favor de um Estado policial.

    A partir do momento, por imperativos ideológico-políticos, que a homossexualidade foi retirada da lista das parafilias por parte da APA (Associação Americana de Psicologia), o conceito de “orientação sexual” passou a ser absolutamente necessário, e por isso, esse conceito foi criado pela psicologia politicamente orientada. Contudo, ficamos agora sem perceber o que distingue uma parafilia — como a pedofilia — de uma “orientação sexual”, porque o conceito político de “orientação sexual” abriu as portas à redução da norma ao facto.

Em conclusão: é lamentável que uma psicóloga em evidente delírio interpretativo (ver Paul Sérieux) se afirme desta forma nos me®dia. A psicologia parece precisar de um urgente tratamento psiquiátrico.

1 Comentário »

  1. […] de Psicologia Anti-Édipo. Basta ouvirmos o psiquiatra Júlio Machado Vaz (ou Daniel Sampaio; ou a Isabel Leal) na RDP1 para percebermos de onde vêm as teorias do seu discurso Anti-Édipo: vêm direitinhas da […]

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    Pingback por A construção do totalitarismo politicamente correcto tendo como base a instituição da noção cultural de “pai invasor” « perspectivas — Segunda-feira, 28 Fevereiro 2011 @ 2:43 am | Responder


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