perspectivas

Segunda-feira, 31 Maio 2010

Como seria a educação das crianças na pré-história ?

Entre a tribo dos macuas de Moçambique, não havia “construções sociais” em relação a “papéis de género”; este conceito só cabe na cabeça do selvagem moderno europeu e ocidental.

Ao ler este texto no blogue “Reflexões Masculinas”, lembrei-me da ideia recorrente segundo a qual não só os “papéis de género” (como está na moda dizer-se) mas também as diferenças na manifestação e na exteriorização das emoções, entre homem e a mulher, se devem a “construções sociais”. Hoje é politicamente correcto, em abono da “neutralidade de género” (outro palavrão correcto), dizer-se que a mulher é feminina e o homem é masculino por uma questão de “construção social” e/ou educação. Mas será só uma questão cultural e de educação ?

Eu vivi em África, entre a tribo dos macuas. Convivi com eles no tempo em que ainda havia a canga do administrador colonial, comi com eles a Xima com peixe do rio, sem garfo nem colher. Em princípios dos anos 60 do século passado, existiam ainda aldeias dos macuas de Moçambique onde a língua portuguesa era totalmente desconhecida, a religião era animista e não conheciam qualquer outra religião. A transmissão de conhecimentos intergeracional era oral porque não havia escrita. Só a partir de meados dos anos sessenta, com a nova política ultramarina do ministro Adriano Moreira, entrou nas aldeias dos macuas a burocracia do Estado Novo; e com a expansão missionária católica, o animismo foi sendo misturado com o catolicismo. E eu conheci de perto essa cultura. Recordando-a hoje e à luz do que aprendi entretanto, diria que ao entrar nela entrávamos na Era do Calcolítico superior e na cultura do Mana e do Tabu — coisa idêntica do que aconteceu na Médio Oriente antes de 3.500 a.C., e seguramente muito depois dessa data, na Europa.

Posso assegurar, por experiência própria, que os meninos e as meninas dos macuas eram diferentes entre si, independentemente da cultura matriarcal da tribo. E era matriarcal a cultura dos macuas porque obedecia a um padrão cultural de religiosidade ctónica que era característica daquele nível de diferenciação cultural — como era matriarcal a cultura do paleolítico superior e do neolítico na Europa (e não vai muito tempo). O fim do matriarcado e o surgimento do patriarcado aconteceu quando o ser humano deixou de olhar a Terra e o seu conteúdo como sendo sagrados, e passou a olhar o céu — em alguns casos, a cultura Megalítica, por exemplo a de Stonehenge em Inglaterra, ou de Silbury Hill, foram numa primeira fase relacionados com o culto da fertilidade (culto do feminino), mas mais tarde os mesmos locais foram utilizados no “novo culto do céu” (culto dos astros e a ordem do cosmos, ciclo solar e lunar, ano solar e ano lunar e observação solsticial) que se diferenciou do culto anterior. Os macuas ainda estavam no tempo do culto da fertilidade feminina, e a mulher assumia um papel primordial na sociedade. Daí o matriarcado.

As meninas dos macuas não eram educadas de forma diferente dos meninos — até porque não havia roupa azul para eles, e rosa para elas; a seminudez face ao calor tropical era uma necessidade para todos — e nem por isso os meninos deixavam de se tornar, quando adultos, os caçadores e os guerreiros da tribo, e as meninas as responsáveis pela casa e as guardiãs da arte da agricultura de subsistência. E os rituais de passagem, nas várias fases da vida e nos dois sexos, eram simultaneamente idênticos (na forma) e diferentes (no conteúdo).

As “construções sociais” são as que resultam das engenharias sociais do politicamente correcto e do marxismo cultural. Entre a tribo dos macuas de Moçambique, não havia “construções sociais” em relação a “papéis de género”; este conceito só cabe na cabeça do selvagem moderno europeu e ocidental.

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2 Comentários »

  1. Realmente o neo-selvagem é o homem ocidental europeu, deixou de entender as mais elementares regras imutáveis da mãe natureza, como ainda tem a presunção utópica de acreditar e querer mudá-las a seu belo prazer, acreditando ser um deus chegando ao fim da evolução e da história. Tristes caminhos da auto-destruição que a civilização europeia ocidental vai trilhando.

    Comentário por Luis Ribeiro — Terça-feira, 1 Junho 2010 @ 12:40 am | Responder

  2. [...] Como seria a educação das crianças na pré-história ? « perspectivas [...]

    Pingback por Leituras para hoje, June 1, 2010 – hora absurda 7 — Terça-feira, 1 Junho 2010 @ 3:38 pm | Responder


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