perspectivas

Quarta-feira, 26 Maio 2010

O “homo occidentalis” — a redução da realidade à economia

O homo occidentalis já não consegue compreender que não é possível uma economia florescente sem os pressupostos civilizacionais que a condicionam: a cultura — que abrange a ética e a complexidade da racionalidade filosófica, a arte, o sistema do tabu e a religião.

Embora cristão convicto e com fé, sou um céptico por natureza. Tenho muita dificuldade em aceitar qualquer tipo de dogma, e a minha posição face às doutrinas e teorias é sempre crítica. Porém, há dogmas que são comummente considerados como tais porque não se dá, normalmente, a devida atenção à complexidade (em geral), não só à da realidade como à da consciência humana, isto é, há dogmas que não o são tanto assim e apenas manifestações racionalizadas — por via do simbolismo — da complexidade. E, em alguns casos, é na medida em que esta complexidade é compreendida e racionalizada pelo ser humano através da experiência intersubjectiva que surge o simbolismo que traduz o que passa a ser considerado como “dogma”.

O que me surpreende no mundo moderno actual e a Ocidente, é a tendência obsessiva para a simplificação de conceitos, e a tentativa de eliminação da complexidade em nome do combate a putativos “dogmas”, transformando essa simplificação dos conceitos, em si mesma, em dogma — só que, neste caso, trata-se de um tipo de dogma característico dos antepassados do Homem remontando ao tempo do paleolítico inferior.

Talvez essa simplificação dogmática em relação à realidade se deva à complexidade da ciência que retira ao Homem a capacidade de pensar em outras estruturas da realidade que não sejam a da disciplina científica. Mas a verdade é que essa simplificação dogmática da elite moderna está a conduzir a sociedade ocidental a uma viagem de retorno ao passado, rumo a um tempo obscuro do paleolítico antigo de entre 1 milhão e 500 mil anos a.C., quando os hominídeos primeiro se utilizaram do fogo, e quando os antepassados do Homem Moderno não conseguiam ver mais nada senão aquilo que era constatado de uma forma imediata e sem uma consciência auto-reflexiva.

Enquanto que no paleolítico inferior, o homo erectus de há mais de 400 mil anos, pouco mais era do que um chimpanzé dos nossos dias, na nossa contemporaneidade o homo occidentalis parece ser conduzido (ou em evolução) para uma condição um pouco superior ao do homo erectus. Quando se fala em “decadência do ocidente”, é isto que se quer dizer.

A redução de todas as estruturas da realidade à economia é uma característica do homo occidentalis.

Enquanto que, seguramente, a partir do paleolítico médio (há cerca de 100 mil anos) — e talvez mesmo antes (o túmulo mais antigo descoberto até hoje, de uma mulher Neanderthal em Israel, é de cerca de há 160 mil anos) —, dizia eu que a partir do paleolítico médio, a espécie humanóide nunca se deu por satisfeita apenas com um agir orientado para um determinado fim — como as questões da sobrevivência ou com a preservação da espécie —; vivendo, ao invés, de um excesso de problemas e de questionamento de sentido, e confrontando-se repetidamente com experiências completamente quotidianas da “totalidade” e em uma “ruptura ontológica de nível” (ver Mircea Eliade) —, separando sistematicamente o sagrado do profano.

Com a entrada no paleolítico superior e no neolítico, e depois já na História, o processo de diferenciação da consciência humana atingiu níveis crescentes de complexidade em que a ética era — e sempre foi como característica da espécie — ontológica.

Desde o início da verbalização (linguagem complexa), a espécie humanóide criou os tabus que deveriam ser escrupulosamente respeitados. A partir do paleolítico médio até ao Iluminismo, as regras relativas ao tabu eram feitas pelos seres humanos e ultrapassavam o que o instinto mandava, sendo construídas não só em torno de contextos de culto religioso mas também de fenómenos de relevância social — o nascimento, a gravidez, a maternidade, a paternidade, a morte, a caça, etc..

Podemos encontrar na criação do sistema de tabu os primórdios de alternativas éticas e portanto, de normas que não são dadas — pelo menos de uma forma directa — pela natureza: as mulheres grávidas (e com a condição da gravidez da mulher, implicitamente o seu significado: o ser humano em gestação ou feto) , os recém-nascidos ou as crianças pequenas, foram sempre consideradas tabu e deveriam ser protegidas.

A partir do século XIX este processo de evolução parece ter sido invertido no ocidente, com uma espécie de mudança genética do homo sapiens sapiens para o homo occidentalis.

A obsessão com a economia, e a priorização absoluta dos problemas económicos em uma escala de valores sociais, estão na origem do retorno do ocidente, em termos culturais, ao paleolítico inferior, e a decadência ética conduz à decadência da própria economia europeia (e ocidental), que passou a ser o objecto praticamente único de valorização por parte do homo occidentalis.

O homo occidentalis já não consegue compreender que não é possível uma economia florescente sem os pressupostos civilizacionais que a condicionam: a cultura — que abrange, para além da economia, a ética e a complexidade da racionalidade filosófica, a arte, o sistema do tabu e a religião.

1 Comentário »

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