perspectivas

Segunda-feira, 24 Maio 2010

A aniquilação socratina da vontade popular

José Pacheco Pereira fala aqui de duas realidades humanas que coexistem invariavelmente: a acédia e o nepotismo.

O envolvimento do Partido Socialista de José Sócrates no “caso TVI” não é evidente: é auto-evidente. A auto-evidência tem a característica do axioma: a gente sabe que existe, mas não sabemos exactamente como e por quê. A gente sabe que E=mc^2, e que num triângulo recto, a^2=b^2 + c^2, porque constatamos a realidade do axioma na sua manifestação prática e empírica, mas não conseguimos saber o por quê da sua existência. O axioma existe simplesmente, e nós limitamo-nos a constatar essa existência.

De modo semelhante, o nepotismo do Partido Socialista de José Sócrates é como que “axiomático”: ele existe simplesmente, embora a verdade e as causas da sua existência estejam ocultas, como oculto é o poder que o sustenta; ele apresenta um carácter elementar — que toda a gente compreende que existe mas que não é passível ou susceptível de demonstração.

Se “nenhum facto pode ser verdadeiro ou real, ou nenhum juízo pode ser correcto, sem uma razão suficiente” (Leibniz), o problema do “caso TVI”, como o problema do axioma de Leibniz, é que a gente sabe dos factos através do contacto com a realidade — sabemos que existe uma razão suficiente, mas não sabemos exactamente qual é essa razão.

Porém, o problema da acédia surge com a negação do axioma. Se nos disserem, utilizando uma autoridade de direito, que, afinal, a soma dos ângulos de um triângulo não é de 180 graus — apesar de nós constatarmos in loco a verdade do axioma —, entramos em estado de confusão que resulta na dissonância cognitiva (segundo o psicólogo Leon Festinger: se o objecto do temor e da compaixão é o mesmo, e neste caso esse objecto é a autoridade de direito, perante a negação das evidências por parte desta última, o povo entra em um estado de dissonância cognitiva e de acédia que é a condição da sua submissão canina — como diz o povo, “passamos a não saber se defecamos ou damos corda ao relógio”).

Afinal, existe alguém com uma autoridade de direito que nos diz que aquilo que compreendemos intuitivamente não é verdadeiro — como a rábula do Groucho Marx: “acreditas no que eu te digo, ou naquilo que os teus olhos vêem ?!” Ficamos em dúvida sobre se acreditamos naquilo que a autoridade de direito nos diz ou se acreditamos naquilo que os nossos olhos vêem. E desta dúvida nasce a acédia, que é fruto da dissonância cognitiva que é propositada e faz parte da estratégia política socratina.

1 Comentário »

  1. JPP está a melhorar. Gostei!

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    Comentar por Henrique Sousa — Segunda-feira, 24 Maio 2010 @ 8:49 am | Responder


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