perspectivas

Domingo, 23 Maio 2010

O determinismo jugular

O artigo da Helena Matos com o título O género é que está a dar, sobre os militantes das questões género, é interessante pela comparação que faz com a obsessão do pecado da piedosa protagonista do romance “A Relíquia” de Eça de Queirós.

O termo “género” designa uma categoria de realidades (ou de ideias) cujos caracteres comuns essenciais autorizam reagrupar sob a mesma denominação geral. Porém, o termo “género” é utilizado em acepções muito amplas. Se podemos falar em “géneros masculino e feminino”, em linguagem ordinária podemos também falar em “género humano” (embora não seja correcto fazê-lo).

Porém, o sentido político os militantes de género dão ao termo “género” (por parte das tias jugulares) parece pretender ser biológico; na biologia existe o “género” e a “espécie” que lhe está imediatamente inferior na hierarquia de categorização. Parece que a ideia da “militância de género” é sustentar os géneros masculino e feminino e a partir deles criar espécies e subespécies baseados na sexualidade — homossexuais, pedófilos, necrófilos, zoófilos, sado-masoquistas, etc. A obsessão ideológica com o sexo é evidente.

A ideia que sustenta a ideia política de “género” é a importância da “espécie” que lhe está inferiormente adstrita, e que entendida sob o ponto de vista da biologia, implica um determinismo biológico: um homossexual ou um pedófilo são totalmente condicionados pela biologia, e portanto, não têm culpa de ser como são. Um pedófilo poderá argumentar, perante um juiz de direito, que a culpa dos seus actos é da biologia, e que ele está inocente porque não poderia proceder de outro modo. Este determinismo em relação aos actos humanos é uma característica da esquerda, e por mais estranho que possa parecer, é um produto da evolução ideológica e histórica a partir de algumas ideias de Santo Agostinho.


Os gnósticos acreditam na certeza do paraíso agostiniano na Terra

S. Tomás de Aquino entrou em “guerra” ideológica com Santo Agostinho por causa da questão da liberdade (ou do livre-arbítrio). A obsessão de este último com o pecado, e pela impossibilidade de o eliminar, levou-o a defender a ideia de que existem seres humanos predestinados por Deus à salvação, e independentemente do pecado; uma vez que o Homem estava condenado a pecar, dizia Santo Agostinho que a única solução para o problema do pecado seria a predestinação da salvação dos eleitos, decidida por Deus de forma arbitrária e discricionária. Esta ideia foi seguida, paradoxalmente, pelos protestantes da Reforma (e não pelo catolicismo da Contra-reforma), e pela escola de Port-Royal que deu lugar ao Jansenismo.

S. Tomás de Aquino defendia exactamente o contrário de Santo Agostinho, falando em “futuros contingentes”. Para S. Tomás, o Homem era livre e o futuro totalmente em aberto; a salvação dependia da acção do Homem, e não existiam, à partida, os eleitos e os condenados. Santo Agostinho não conseguiu fugir totalmente à influência do maniqueísmo gnóstico que professou durante grande parte da sua juventude, e essa influência reflectiu-se, de algum modo, nas suas ideias.

A ideia obsessiva do pecado e do determinismo gnóstico está subliminarmente presente na acção das tias jugulares (e quejandas), assim como esteve presente na concepção do mundo da tia do referido romance de Eça de Queirós — porém, com a novidade jugular e marxista cultural do acréscimo da introdução da componente biológica (como convém aos fiéis do Positivismo, que é determinístico por natureza). As tias jugulares vivem no passado, porque a quântica já demonstrou que a liberdade é uma característica da realidade.

O determinismo jugular é uma herança do gnosticismo cristão, seguido entre outros por Joaquim de Fiore: é dada como certa e pré-determinada uma desejada visão do futuro, porque esta é determinada por aquilo que se considera ser o determinismo histórico (o Eidos da História, ou a forma intencional da História). Por outro lado, e ao contrário do futuro que é absolutamente certo, o passado é incerto e passível de ser interpretado e desconstruído, mesmo contra as evidências dos factos históricos existentes.

O determinismo jugular é uma deriva religiosa gnóstica que pretende dar sentido à vida e à História sem recurso à transcendência e, sobretudo, sem reconhecer o valor da liberdade humana, porque esta vai contra a componente positivista entretanto acrescentada ao caldo ideológico, a partir do Iluminismo.

A componente maniqueísta e gnóstica está presente no determinismo jugular: a luta entre as forças do Bem e a do Mal, sendo que a do Bem é a que está do lado do determinismo jugular. Esta concepção da luta entre o Bem e do Mal não se apoia na filosofia, na lógica ou na ética; ela é arbitrária no sentido agostiniano do determinismo da História em função de uma ideia de futuro que é certo, e que discricionariamente e sem apelo nem agravo, salva uns e condena outros.

O Mal é tudo o que se opõe à marcha inexorável da História rumo à certeza do futuro cuja realidade já existe no presente e não pode, de modo nenhum, ser colocado em causa. Esse futuro é uma certeza absoluta.

A religião política jugular assusta, porque tem como componente essencial e sine qua non, a nível da filosofia política, a erradicação da liberdade humana. Eliminando a liberdade, o determinismo histórico jugular justifica o totalitarismo e a jubilação da elite dos predestinados ou eleitos, e a recusa da salvação aos previamente condenados ao inferno da existência.

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