perspectivas

Sábado, 22 Maio 2010

A sociedade europeia em progresso para o paleolítico inferior

A condição do ser humano diferenciou-se da dos outros animais através de uma série de concepções religiosas e prática de determinados ritos. E de tal forma, que se um ateu moderno quisesse ser inteiramente consequente com as suas ideias, não iria a funerais dos outros e nem aos da sua própria família, porque o rito fúnebre tem claramente uma origem religiosa.

O ser humano genérico começou por ser vegetariano (Homo Rudolfensis, Homo Habilis) e não repartia o trabalho entre os sexos.

Homo Erectus

A partir do Homo Erectus — e principalmente a partir do neolítico e do Homo Faber —, passou a ser carnívoro e omnívoro e a dividir o trabalho entre os dois sexos.

Uma das razões por que o Homem de Neanderthal se extinguiu derivou da não-divisão do trabalho entre os dois sexos; o Neanderthal andava sistemicamente mal alimentado porque ninguém sabia bem quem ia caçar e quem fazia a culinária.

Hoje, o ser humano parece regredir um milhão de anos: passou a estar na moda ser vegetariano e a abolir a divisão de trabalho entre os dois sexos; parece que, na Europa actual, evoluímos do Homo Sapiens Sapiens — que migrou para este continente há cerca de 40 mil anos e que por cá permaneceu até aos anos 60 do século passado — para o Homo Sapiens Habilis actual. O problema é saber se isto é evolução.

A evolução pode ser positiva ou negativa. Para o Homem de Neanderthal, a evolução foi negativa porque ditou o seu desaparecimento, ao mesmo que para o Homo Sapiens Sapiens, a evolução tem sido positiva através de diferentes fases históricas de diferenciação sucessiva e progressiva. Como é que distinguimos “progresso”, da “decadência”, ou mesmo da “extinção”?

A divisão do trabalho entre os dois sexos apareceu simultaneamente com um nível de autoconsciência que se manifestou com o culto dos mortos.

Embora o túmulo mais antigo descoberto até hoje tenha cerca de 160 mil anos e seja de uma mulher de Neanderthal (em Israel), o culto dos mortos parece ter surgido com os nossos antepassados por volta de 500 mil a.C., o que significa que foi nessa altura que se deu uma evolução da espécie no sentido da plena autoconsciência (foi então que começou a evolução para o Homo Sapiens que deu lugar ao aparecimento, cerca de 130 mil a.C., na Etiópia, do “Homem Moderno” ou Homo Sapiens Sapiens).

O ser humano propriamente dito é o único ser vivo que sabe que tem de morrer; esta última característica é a que define verdadeiramente o ser humano no seu fundamento mais profundo: a compreensão da sua realidade ontológica.

Com a autoconsciência e consequente culto religioso do mortos, surgiram ao mesmo tempo os mecanismos do tabu através dos quais determinadas pessoas, objectos, situações ou locais passam a fazer parte de um sistema ontológico muito diferente (a diferenciação decorrente da evolução; ver Mircea Eliade), e por consequência, o contacto com essas pessoas, objectos, situações ou locais, provoca uma ruptura de nível ontológico. Com a autoconsciência, surgiu o sagrado e o profano.

Ora, na sociedade moderna actual, parece que o sagrado e o profano deixaram de existir, se não a nível individual, pelo menos a nível da sociedade. Hoje, pouca gente tem a capacidade de discernir o sagrado do profano, e a ruptura de nível ontológico que aconteceu há meio milhão de anos foi anulada; em termos práticos, só nos falta abandonar os cadáveres dos nossos mortos ao repasto das feras — como sugeriu, aliás, um político socialista espanhol.

Hoje não abandonamos os nossos mortos às feras, mas fazemos pior: defendemos a eutanásia, o aborto, o niilismo cultural, e abandonamos os nossos velhos vivos em hospitais e outras instituições. Será isto “progresso”? Será isto evolução positiva? Ou voltamos, em termos culturais, ao princípio do Paleolítico Inferior?

(bom fim-de-semana)

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