perspectivas

Quinta-feira, 20 Maio 2010

Os fãs de Bruna Real no Facebook

Quando, no Facebook, me convidaram para apoiar a causa da professora Bruna Real, pensei que fosse brincadeira. Com o tempo de calor que tem feito ultimamente, o alcatrão que tenho no cocoruto da cabeça foi derretendo, e só então, a pouco e pouco, os miolos foram funcionando e me fui apercebendo que a coisa era mesmo séria.

A professora Bruna

Juntaram-se um bando de maduros para apoiar a atitude de uma professora primária que posou nua para a revista Playboy (ver fotos com muito photoshop), e que foi suspensa pelo ministério da educação do contacto com crianças e incumbida apenas de serviços de secretaria.

Uma das características da sociedade moderna é a possibilidade de coexistência de personalidades, de tipo “Dr. Jekyll, Mr. Hyde”, em que uma pessoa é uma coisa de manhã e outra coisa totalmente diferente — e mesmo oposta e em flagrante contradição — da parte de tarde, e ainda outra à noite pelo soleno das sombras. E de tal forma assim é, que as pessoas em geral não se dão conta das incongruências das diferentes personalidades assumidas pelo cidadão — neste caso uma cidadã — na sua vida social.

Vamos colocar a questão em uma forma mais extrema: imaginemos que, em vez de a Bruna Real tirar uma fotografias nua para uma revista de adultos, fazia serviço num bordel nas horas vagas e quando não estava a educar as criancinhas. Haveria daí mal ao mundo? Claramente que não. O facto de alguém dar, nas horas vagas, meia dúzia de cambalhotas na cama com homens que nunca tinha visto antes e a troco de dinheiro, de modo nenhum interferiria com o seu papel de pedagoga. E são esses mesmos cabrões do “Clube Bruna Real” no Facebook, que apoiam a entrada da polícia nas escolas por causa do bullying entre crianças de 6 ou 7 anos, e a politização da escola pública.

As pessoas hoje esquecem que a educação não é só ensinar as crianças; a educação é educar as crianças. Ou então mudem o nome do “ministério da educação” para “ministério do ensino”.

Eu não tenho nada contra o facto de Bruna posar nua; posso não concordar com o comportamento dela, mas não tenho que fazer uma cruzada contra ela porque ela não me é absolutamente nada. Coisa diferente é eu tomar conhecimento de que a minha neta era aluna dela.

Poderão argumentar: “Se calhar há muitas professoras primárias que fazem pior na sua vida privada e ninguém toma conhecimento”.

A minha resposta é simples: a cultura é composta por símbolos; a partir de um momento em que um determinado símbolo é aceite culturalmente, já não é preciso esconder nada sobre aquilo que ele (o símbolo) significa, e das implicações que esse símbolo cultural possa ter na sociedade. E quando uma professora de crianças até aos 12 anos não sente necessidade de esconder que tira umas fotos nua para uma revista de punheteiros, o que é que a impede, do ponto de vista moral e ético, de fazer uma sessão de fotografias com crianças ou torná-las “famosas” em um late night show ?

10 comentários »

  1. As pessoas não se tocam, caramba!

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    Comentar por Henrique Sousa — Quinta-feira, 20 Maio 2010 @ 11:48 am | Responder

  2. […] Os fãs de Bruna Real no Facebook « perspectivas […]

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    Pingback por Leituras para hoje, May 20, 2010 – hora absurda 7 — Quinta-feira, 20 Maio 2010 @ 3:31 pm | Responder

  3. Deveras complicado este assunto…, uma boa professora ou uma professora boa? Ao que tenho visto no ensino, este será um problema menor, comparado com a verdadeira rebaldaria que por lá se passa! Já agora, e mais uma vez, onde andam as mães de Bragança, neste caso, de Mirandela, quando os seus meninos compram revistas para maiores de 18 anos?

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    Comentar por daniel rosa — Quinta-feira, 20 Maio 2010 @ 5:22 pm | Responder

  4. […e que foi suspensa pelo ministério da educação do contacto com crianças e incumbida apenas de serviços de secretaria.]
    Ainda bem que alguém percebeu correctamente! Porque ler por aí que tinha sido promovida (sim! promovida, porque não tem habilitações para tal)a Bibliotecária… é dose!!!

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    Comentar por Ana Caldeira — Quinta-feira, 20 Maio 2010 @ 5:47 pm | Responder

  5. Só uma correcção: ela é “professora” de Actividades de Enriquecimento Curricular (AEC) e não professora primária ou do 1º ciclo. Ou seja, não tem vínculo nenhum ao Ministério da Educação. Pertence a um grupo de explorados, contratados a recibo verde, sem direito a férias ou subsídios correspondentes, que recebem 9 meses por ano, nem sempre a tempo e horas, entre os 5 e os 12 euros, contratados pela Autarquia ou por empresas criadas/adaptadas para o efeito. Foi a Câmara local que a retirou da escola, a “pedido” da Direcção da mesma, para outro serviço (Biblioteca?).
    As AEC são «aquela coisa» do Inglês, Música (acho que era o caso dela), Actividade Física ou Expressão Plástica, com que se salpica o horário das crianças entre os e os 10 anos (mais, quando não têm aproveitamento) para as obrigar a permanecer na mesma sala das 9 às 5 e meia.

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    Comentar por cap — Quinta-feira, 20 Maio 2010 @ 7:49 pm | Responder

  6. @ Cap:

    Obrigado pela informação, mas para o caso é irrelevante. Ela lidava com crianças, e uma delas poderia ser a minha neta. Gosto de pensar que alguém que lide com a minha neta seja uma pessoa normal — já não peço que seja uma pessoa com uma moral excepcional!

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    Comentar por O. Braga — Quinta-feira, 20 Maio 2010 @ 11:45 pm | Responder

  7. Caro O. Braga,

    Giro, essa coisa da “pessoa normal”. O que considera ser uma “pessoa normal”? Um professor tem de ser feio, gordo, doido, cheirar mal da boca e vestir-se como o joão baião? Preocupa-se com os outros “stores” ou “profs” da sua neta? Sabe o que fazem na vida privada? Vossa excelência tem as contas e os impostos em dia? Cuidado que as pedras às vezes voltam atrás!!!

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    Comentar por daniel rosa — Sexta-feira, 21 Maio 2010 @ 12:16 am | Responder

    • @ Daniel Rosa:

      Parece que quando falei em pessoa “normal”, você ressentiu-se. Não se preocupe. Uma pessoa normal é aquela que não é anormal 🙂 , e vice-versa. Se o problema é saber o que é a “normalidade”, então teremos que saber se não confundimos, em nossa casa, uma panela com o penico — em caso de uma confusão destas, a coisa não seria normal. Você já imaginou a anormalidade que é a confusão entre uma panela e um penico ?

      Portanto, a normalidade é objecto do senso-comum e não é nada de extraordinário.

      Por outro lado, a normalidade não é só ter os impostos em dia. Pergunte ao Vale e Azevedo se ele não tem os seus impostos em dia em Inglaterra. Se calhar, você é dos que pensa que o Vale e Azevedo — e outros como ele — é “normal”; e no entanto, ele paga religiosamente os seus impostos quando convém que sejam pagos. Esta coisa de reduzir a ética à economia não lembra a um aborígene…!

      Quanto à vida privada dos professores, já respondi no postal. Você tem que se habituar a ler o que se escreve antes de comentar — dá-me uma trabalheira estar a repetir-me.

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      Comentar por O. Braga — Sexta-feira, 21 Maio 2010 @ 6:23 am | Responder

  8. Ressalvo que, do que afirmei acima, o aspecto económico não surgiu com o intuito de servir de justificação ou atenuante para o caso. Apenas para enquadrar o contexto de modo mais exacto. O perfil da mulher de César continua a aplicar-se.

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    Comentar por cap — Sexta-feira, 21 Maio 2010 @ 12:41 am | Responder

  9. Isto de nu artístico não tem nada.

    São nitidamente com conotação sexual e esta em particular a tocar na homossexualidade.

    Essa Bruna certamente é alguém vaidosa que quer dar nas vistas a qualquer preço.

    Parabens! Já deu. Agora aguente as consequências.

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    Comentar por Anonimo — Quarta-feira, 26 Maio 2010 @ 12:38 am | Responder


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