perspectivas

Terça-feira, 18 Maio 2010

O nominalismo e os universais

A Querela dos Universais, que se arrastou desde a antiga Grécia até ao modernismo, está essencialmente ligada à ausência de uma noção de “consciência” na História da Filosofia até depois de Descartes. Na proposição de Sócrates “conhece-te a ti mesmo” podemos notar uma alusão à consciência, mas de uma forma que não é suficientemente clara e inequívoca. Santo Agostinho teve também alguns conceitos de que podemos extrapolar a noção de consciência, mas só depois de Descartes esta foi plenamente desenvolvida.

Imagem 1

Tradicionalmente, confunde-se consciência com conhecimento (seja empírico e/ou dedutivo), ou consciência com o pensamento, e outra vezes com a alma e espírito. Na ausência de uma noção de consciência, a querela dos universais era inevitável. Só a partir de Husserl a consciência ganhou contornos claros como conceito autónomo do conhecimento formal, do pensamento, e da alma conforme entendida pelos gregos e grande parte dos escolásticos.

O escritor e poeta francês Paul Valery descreveu o “Eu Puro” dizendo dele que “entendo como o absoluto da consciência, que é a operação única e uniforme de se desligar automaticamente de tudo, e neste tudo, figura a nossa própria pessoa, com as suas próprias complacências”. convém reter aqui a ideia de “absoluto da consciência”.

Husserl fala em Ego Transcendental ou “redução transcendental”, através da qual a consciência engloba tanto as essências, como os objectos e os fenómenos; a redução transcendental é conseguida através do Epoché ou suspensão do juízo. Mas antes de mais delongas, convém dar uma ideia do que é a “querela dos universais”.


Na sequência da filosofia do orfismo e dos pitagóricos que influenciou grande parte dos filósofos pré-socráticos, Platão referiu-se à teoria das Ideias ou das Formas a que faz referência, nomeadamente, na Alegoria da Caverna da última parte da “República”. Segundo ele, os objectos individuais ou particulares do mundo sensível pertencem, na sua multiplicidade, a um género que os integra em uma Forma ou Ideia de origem divina ou — se quiserem evitar uma linguagem metafísica tradicional — com origem no Além-espaço-tempo. Não só eu partilho desta teoria de Platão, como a teoria quântica moderna lhe dá alguma razão, como adiante será demonstrado.

Imagem 2

A essas formas ou ideias, Platão chamou de “universais” que eram anteriores (ou a causa) às coisas individuais. Aristóteles tem duas concepções diferentes sobre esta matéria: uma quando ele próprio pensa a sua filosofia, e outra quando critica Platão.

A oposição a Platão começou com os Cínicos quando diziam a Platão que “eu vejo um cavalo, e não a cavalidade”. Mais tarde, Roscelino (o primeiro filósofo da escolástica medieval) dizia que os universais eram flatus vocis (sopros da voz) porque era apenas nomes (e daí o termo “nominalismo”) e etiquetas graças às quais podemos representar as classes de coisas individuais. Secundado por Guilherme de Occam, defendia que as ideias gerais não têm um objecto geral, mas antes são abstracções obtidas por intermédio da linguagem. Portanto, para os nominalista não existia a cavalidade, mas apenas cavalos diferentes e entendidos de forma individual.

Este conceito foi mais tarde corroborado por Leibniz na teoria da “identidade dos indescerníveis”, segundo a qual é impossível que duas coisas sejam totalmente iguais — o que é falso; a teoria quântica demonstra que duas ondas quânticas são de facto idênticas, ou seja, as ondas quânticas que são a base da “construção” da matéria — a onda quântica é a pré-matéria — não se distinguem, de modo nenhum, umas das outras.

Imagem 3

Para Occam, “a compreensão é de coisas, não de formas produzidas pelo espírito”. Occam refere-se ao espírito, e não à consciência; o espírito é aqui entendido como a variante cristã da alma grega. Para ele, as formas não são “coisas”, no sentido em que comummente compreendemos as “coisas”, mas são antes as “coisas em si”, pelas quais as “coisas” se compreendem a si mesmas — vem daqui a origem da “coisa em si” de Kant.

Em resumo: os nominalistas dizem que aquilo que existe na realidade e que pode ser predicável, é o mundo sensível e as suas coisas ou objectos. Tudo o que não pertence ao mundo sensível é produto da lógica que por sua vez é gerada pela linguagem. “Um universal é apenas um sinal” — no sentido de símbolo ou signo — “de muitas coisas”, diz Occam. Quando dizemos “o Homem”, o substantivo colectivo é apenas o símbolo lógico e linguístico de todos os homens entendidos individualmente.

Fernando Pessoa ilustra bem a herança da cultura nominalista — o que vindo de um presumível místico, astrólogo e simpatizante da maçonaria, parece-me contraditório e até incoerente: «A primeira verdade da sociologia (…) é que a humanidade não existe. Existe, sim, a espécie humana, mas num sentido somente zoológico: há a espécie humana como há a espécie canina. (…) sociologicamente, não há humanidade, isto é, a humanidade não é um ente real. » (“Obras em Prosa”, “Sobre Portugal”, III Volume, Edição do Círculo dos Leitores, 1987, página 316).

Assim como o cínico Diógenes, enfiado numa pipa, dizia a Platão que não havia a “cavalidade”, Fernando Pessoa, enxofrado nos seus cinquenta cafés por dia, diz que não existe a “humanidade”.

Naturalmente que Fernando Pessoa invoca a sociologia, e fazendo-o invoca o positivismo e o neo-positivismo. Os neo-positivistas como os membros do círculo de Viena (onde se inclui Kelsen), Bertrand Russell, Wittgenstein e outros, transportaram a lógica nominalista para um tempo em que a teoria da relatividade geral já os colocava em causa.

É interessante o acordo entre Occam e Tomás de Aquino: ambos afirmam que há apenas “coisas individuais, almas individuais e actos de conhecimento”; tanto um como o outro admitem o universale ante rem (o universal antes das coisas) mas só para explicar o acto da Criação divina. Repare-se que ambos misturam na mesma proposição “coisas” (objectos sensíveis e construídos materialmente) com “almas”, o que revela a influência da noção da imanência material da alma de herança grega; para Platão e Aristóteles, a alma era material, e esta concepção da alma nunca deixou de se manter nos recônditos do pensamento escolástico.

O acto de conhecimento é reduzido ao empirismo, ou à dedução a partir do método de modus ponens, ou seja, a partir da crença na verdade empírica apresentada por outros ou por gerações anteriores. Explicando o conhecimento humano, Occam nunca admite que os universais sejam “coisas”. À excepção da lógica-matemática, todas as outras formas de inteligência humana são relegadas para um plano inferior ou mesmo anuladas (a inteligência pessoal, que é a capacidade de entender as outras pessoas; a inteligência física e cinestésica, que é a capacidade de se movimentar de forma coordenada; a inteligência linguística; a inteligência espacial, que é a capacidade de constituir e manipular mentalmente imagens de objectos; a inteligência musical; e mesmo a intuição ou inteligência espiritual, que é a forma suprema de inteligência).

Avicena terá sido, porventura, um dos mais hábeis a lidar com o problema dos universais. Dizia ele que “o pensamento produz a generalidade das formas”. Para Avicena, os universais (os géneros) são simultaneamente “antes das coisas, nas coisas, e depois das coisas”. São antes das coisas individuais no pensamento divino; são nas coisas nos objectos individuais; são depois das coisas no nosso pensamento. Reparem que, mais uma vez, se utiliza a noção de pensamento e não a de consciência.

A teoria quântica está basicamente em sintonia com Avicena, mas substitui o “pensamento” pela “consciência”; para a quântica, o pensamento é apenas um produto da interligação entre a consciência, por um lado, e a matéria construída tendo como base a função ondulatória quântica (o cérebro), por outro. Para que o pensamento — tal qual entendido pela esmagadora maioria dos filósofos ocidentais — possa existir, têm que se interligar três estruturas diferentes da realidade: a consciência que tem origem no Além-espaço-tempo ou transcendência, a função ondulatória quântica que pertence à imanência material, e o cérebro (no caso do ser humano) como construção material que pertence à realidade objectiva ou mundo sensível.


Imagem 4

A física quântica mostra-nos que aquilo que visualizamos é aquilo que vemos. Vem daqui a confusão do nominalismo. Até às descobertas da teoria quântica moderna deste século, acreditava-se que o universo e os nossos pensamentos sobre ele eram coisas totalmente diferentes. Ainda hoje existem pseudo-cientistas e filósofos que acreditam que o pensamento é um epifenómeno e que a consciência é apenas psicológica e material. A cadeira da imagem 1 é composta por átomos minúsculos e em constante rodopio e, na verdade, só depois de os começarmos a procurar é que podemos dizer que os átomos realmente existem. Porém, e paradoxalmente, quando procuramos revelar os contornos dos átomos que compõem a cadeira através de experiências científicas sofisticadas, essas experiências destroem efectivamente a cadeira.

A física quântica revelou-nos que nenhum objecto possui contornos bem definidos. Se conseguirmos imaginar a cadeira existindo independentemente de nós apenas por um momento, também os seus contornos se tornariam indistintos!

Assim como o tempo e o espaço não são absolutos (como originalmente se julgava),de modo semelhante, a verdade da ciência também não é absoluta. O cientista apenas pode conceber modelos que tentem descrever, predizer e explicar a experiência. A ciência é simplesmente um conjunto mágico de regras e atitudes que funciona em um determinado contexto da experiência.

Porém, o facto de o absoluto não existir no espaço-tempo e na dimensão humana, esse facto negativo dá-nos paradoxalmente a noção de absoluto e, de consciência absoluta de que nos falou Paul Valery, porque se nós concebemos racionalmente uma coisa que não existe (e aqui vamos a Anselmo de Aosta e à sua prova ontológica) é porque a possibilidade da sua existência é real.

Assim como a relatividade de Einstein criou o conceito dimensional de Espaço-tempo, a teoria e filosofia quânticas criaram a noção de Além-espaço-tempo (imagem 4) que se conecta com o nosso espaço-tempo por via do fluxo contínuo e bidireccional de ondas quânticas e através dos mini-buracos negros da “espuma quântica” (ver John Wheeler).

Concluímos que o que é, de facto, flatus vocis é o objecto conforme o vemos e percepcionamos; que a onda quântica não é matéria porque não tem massa, e que é considerada pelos físicos quânticos como sendo “pré-matéria”; que a consciência influi no comportamento da complementaridade onda/particula ou função ondulatória quântica (http://www.youtube.com/v/KPePLeSgYtU); que a consciência humana não é única e exclusiva no universo, e que existem vários graus de consciência; e que o relativo implica a dedução lógica do absoluto.

Santo Agostinho escreveu que “as coisas invisíveis de Deus, compreendidas por meio das que foram feitas, compreendem-se claramente desde a criação do mundo”. Hoje, a física quântica demonstra-nos que as “coisas invisíveis” do mundo quântico imanente que são indescerníveis umas das outras, podem ser compreendidas pela mente humana. Como é, então, possível continuar a apoiar, de forma unilateral e exclusivista, o nominalismo ?

Nota: cliquem nas imagens para as aumentar.

1 Comentário »

  1. Gostei muito de suas explicações. Me ajudaram batante.

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    Comentar por eDNA — Quarta-feira, 4 Agosto 2010 @ 8:54 pm | Responder


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