perspectivas

Quinta-feira, 13 Maio 2010

Agostinho da Silva, a Europa e Portugal

« A Comunidade económica Europeia encontra-se, continuamente, em desacordo consigo própria pois trata-se de pequenas nações provincianas a tratarem agregar-se numa Nação grande.

Nós [os portugueses] que fizemos o Brasil, sabemos o que isso é há muito tempo, há centenas de anos. Além do mais, a CEE não é Europa, como se costuma erradamente dizer, mas apenas o departamento económico da Europa. Qualquer departamento económico deve ser, sempre, secundário porque o que devemos ter é uma Europa cultural onde a economia seja sustento mas nunca o objectivo. »

— Agostinho da Silva – Novembro de 1994, “Conversas com Agostinho da Silva”, de Victor Mendanha

Agostinho da Silva era um optimista acerca da construção da Europa das Nações, embora não fosse um federalista; ele não apoiava a ideia de uma Federação Europeia. No mesmo livro dizia ele que “vamos ser médicos e enfermeiros da Europa ou não seremos nada”. Desde logo, Agostinho parte de um princípio de que a Europa está doente, o que é uma grande verdade; mas depois coloca Portugal entre o tudo ou o nada. Talvez se Agostinho da Silva vivesse hoje dissesse que este “nada” teria que ser o “tudo”, porque o estado comatoso da Europa indicia claramente a sua morte civilizacional. Esta Europa precisa de morfina e não já de penicilina.

« Do português há a esperar tudo e haver um povo no Mundo do qual tudo há a esperar parece-me ser uma coisa extraordinária. Pegando num tema de moda, nós diríamos que o extraordinário de Fernando Pessoa não foi ele ter feito poesia sendo Álvaro de Campos ou sendo Caeiro ou, ainda, outros sujeitos bem diferentes. O extraordinário de Fernando Pessoa foi o facto de se tratar de um indivíduo imprevisível.

Gostaria muito que o Povo português se especializasse no imprevisível. »

— Ibidem


A especialização do português no imprevisível passa pela intuição acerca de uma Europa que entrou já em processo de auto-destruição. Existem alguns paralelismos entre a actual situação europeia e a situação dos séculos que se seguiram ao saque de Roma pelos Godos em 410, até ao fim do primeiro milénio.


A nação é o lugar onde a crise económica faz inexoravelmente parte da tua vida — e da forma como a crise faz parte da tua vida. Esta crise veio provar que a União Europeia do Euro e, consequentemente, a Europa federada politicamente, é uma utopia, porque é de facto a forma como a crise económica e financeira é sentida em cada lugar da Europa que define a nação. Podem existir, entre europeus de diferentes nações, interesses comuns, mas não existem — pelo menos até hoje — destinos comuns.

Um português sente que o seu destino é diferente de o de um grego, embora possam existir interesses comuns entre os portugueses e gregos, como podem existir interesses comuns entre os portugueses e japoneses. Mais: os portugueses sentem que existem mais interesses comuns — e mesmo um fado universal comum — entre portugueses e angolanos ou brasileiros, do que interesses comuns entre portugueses e finlandeses.

O destino comum que caracteriza uma nação implica a existência de uma tradição, de uma língua e de uma cultura. A situação portuguesa é ainda mais peculiar do que o da a maioria dos países da União Europeia, porque o nacionalismo português é muito anterior ao Iluminismo e à revolução francesa — um e outra impulsionaram os nacionalismos de algumas potências europeias (Alemanha e França); criaram novos Estados com diferentes nações (como é o caso da Bélgica e dos ducados independentes da Europa); e uniram nações desavindas e desunidas (como foi o caso de Garibaldi e da união da Itália dividida e Bismarck na Alemanha).


A actual visita do Papa Bento XVI ao nosso país (à nossa nação e ao nosso fado) fez-me interrogar que talvez o cristianismo fosse um elemento de união entre as diferentes nações europeias e respectivas culturas, tendo em vista a tecelagem de uma estrutura cultural comum. Porém, o próprio Papa está preocupado com esta Europa; acontece hoje na Europa o absurdo cultural de o próprio cristianismo estar a ser perseguido em nome de estreitas visões políticas de curto prazo — como acontece já hoje em Inglaterra em particular e nos países do norte em geral.

Por outro lado, a invasão da imigração islâmica e as políticas de aborto dirigidas expressamente às populações europeias autóctones, irão talvez manter a influência cultural do cristianismo restrita ao sul da Europa. No norte, tudo aponta para o retorno à origem bárbara de onde saíram os gentios aquando da acção do Papa Gregório Magno e de S. Bonifácio no século VIII.

Não tenho muitas dúvidas quanto à re-barbarização do norte e centro da Europa, em uma espécie de retorno ao século X, em que a desordem e a fraqueza da Europa era de tal modo que a cristandade correu perigo de destruição — tal como acontece hoje. O imperador bizantino e o rei de França (os supra-poderes seculares de então) não eram capazes de dominar a anarquia dos senhores feudais — comparáveis à plutocracia moderna — que eram, suposta e nominalmente seus vassalos. Hoje temos a imigração sem controlo; e no século X tínhamos os húngaros a investir em surtidas constantes no norte de Itália, os normandos a invadir a costa francesa, e os sarracenos, inconvertíveis à comunhão cristã e à cultura da Europa, a desestabilizar a política europeia e o próprio clero católico que entrou em licenciosidade. Os paralelismos históricos com o século X são muitos mas não há aqui espaço para maior minúcia descritiva.

O cristianismo seria um dos principais motores da construção da União Europeia porque partiria de uma base cultural comum — já precária em si mesma desde há trinta anos para cá, mas uma das poucas que ainda existiam. Contudo, a elite política europeia (na sua maioria de esquerda neomarxista, ou de direita hayekiana e libertária) baniu a raiz cristã da constituição europeia que não foi referendada pelos povos da Europa (senão pela Irlanda), e que deu origem ao Tratado de Lisboa. A matriz cultural cristã da Europa que substituiu o império romano e dele recebeu a sua herança de união na Europa, foi rejeitada pelos arquitectos do Tratado de Lisboa. E é essa mesma elite política que se encontra hoje perplexa perante as suas próprias contradições ideológicas, quando se vê confrontada com os nacionalismos exacerbados gerados pela crise financeira e pelos “monstros que a sua razão sonhou” (Goya).


A Europa falhou quando a sua elite política desuniu os povos em vez de os unir aproveitando as potencialidades culturais existentes no terreno e na realidade europeia. Agora é tarde demais. Agostinho da Silva diria hoje, talvez, que fosse necessário repensarmos os “progressismos da História” e os “amanhãs maçónicos que cantam” que nos levam a um beco sem saída :

« (…) existem dois tipos de conservador: o conservador de lata e o conservador da sardinha (…)

Temos muita coisa a conservar em Portugal e penso que se alguém defendesse a necessidade de se repensar toda a Idade Média portuguesa, o que seria bastante útil, seria tido como um conservador — um conservador não da lata, mas da sardinha. »

— Ibidem

A missão de Portugal na Europa, agora, já não é aquela de promover a utopia maçónica da união política, mas é antes tentar evitar os ultra-nacionalismos da primeira metade do século XX e a indiferença anti-nacionalista do império dos Habsburgos. É evitar os excessos mantendo as alianças que são por definição sistemas de relação de cooperação entre Estados soberanos.

É esta a realidade pura e dura.

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