perspectivas

Terça-feira, 11 Maio 2010

A menina que parou no tempo

Brooke Greenberg é uma menina de 17 anos (à esquerda, na foto, na companhia da sua irmã Carly, com 13 anos e à direita). Com 17 anos, estaria perto da maioridade mas ainda gatinha e não fala, ou seja, tem a idade real de 1 ano. Ver a notícia no Times. Os cientistas não têm certezas sobre a causa do não-envelhecimento de Brooke, atribuindo possíveis e hipotéticas causas à estrutura do ADN; de facto, Brooke manteve-se 17 anos com idade de 1 ano, e com um envelhecimento seja extremamente lento. Ela parou no tempo.

A condição de Brooke leva-nos ao tema recorrente do Tempo. Embora os cientistas digam que a causa da paragem de Brooke no tempo esteja na estrutura do ADN, a verdade é que essa tese não passa de uma mera conjectura, tão válida como uma outra qualquer. Não é pelo facto de a ciência positiva dizer que “talvez seja isso ou aquilo” que podemos assumir imediatamente que “é isso ou aquilo”.

Em termos reais, podemos dizer que Brooke passa pelo tempo mas não envelhece — ou pelo menos envelhece a um ritmo muitíssimo lento. Portanto, o tempo para ela é diferente do tempo de uma outra pessoa, tratando-se esta de uma pessoa dita “normal”. E aqui não temos dúvidas de que o tempo é subjectivo, independentemente de sabermos ou não a causas que determinam essa evolução lenta no tempo. E aqui vou recorrer à teoria do tempo de Santo Agostinho.

Santo Agostinho partiu do princípio da criação bíblica, em oposição ao comummente aceite pela intelectualidade do seu tempo que dizia que o universo não tinha aparecido ex nihilo (a partir do nada). Essa intelectualidade grega e romana raciocinava em termos da filosofia grega que não admitia a possibilidade do universo ex nihilo — e aqui incluo Platão e Aristóteles; é neste sentido que podemos dizer que estes dois filósofos se moviam na imanência, porque o Deus de Platão e Aristóteles era um demiurgo ou arquitecto do universo que deu forma ao Ápeiron (o Ápeiron de Anaximandro era um corpo material infinito, era a substância eterna e incriada) ou matéria informe existente eternamente. Segundo os gregos, Deus não criou o universo e só lhe deu a forma a partir da matéria informe e caótica. Esta visão do universo, que descambou no panteísmo, não distingue Deus do mundo e considera todas as coisas do mundo como sendo parte de Deus (ver Espinoza).

Contudo, Santo Agostinho acabou ter razão, ou melhor, o princípio bíblico da criação ex nihilo é hoje aceite pela ciência. A teoria do Big Bang, aceite por uma esmagadora maioria de cientistas, corrobora a ideia de um universo ex nihilo. Portanto, a visão panteísta pertence tanto ao passado das teorias contestadas pela realidade como o sistema de Ptolomeu. Quem defende hoje uma visão panteísta do universo simplesmente ignora a ciência, embora actue muitas vezes e paradoxalmente em nome da ciência.

Santo Agostinho parte de uma pergunta e resposta: « Por que não foi o mundo criado mais cedo? Porque não havia “mais cedo” ». O tempo surgiu com o mundo, escreveu o Santo. Deus é o eterno presente porque está isento de relação temporal — e continuo a traduzir o seu pensamento. Para Deus, todo o tempo é presente. Além disso, Deus não precedeu a criação do tempo porque isso implicaria a Sua estada no tempo. “O que é então o tempo ?” — pergunta Santo Agostinho no Livro XI das “Confissões”. “Se ninguém me pergunta, sei. Se quero explicar, não sei.” Nem o passado nem o futuro são, mas só e verdadeiramente o presente é. O presente é um momento e o tempo só pode ser medido enquanto passa, embora existam realmente passado e futuro. Para tornear esta contradição, Santo Agostinho diz que o passado e futuro só podem ser pensados como sendo um presente: o passado identifica-se com a memória e o futuro com a expectativa — e uma e outra são factos presentes.

“Há três tempos: um presente de coisas passadas, um presente de coisas presentes, e um presente de coisas futuras” — diz Santo Agostinho. O primeiro é a memória; o segundo, a vista; o terceiro a expectativa (Confissões, Liv. XI, cap. XX). Por isso, dizer que há passado, presente e futuro é um modo indefinido de traduzir a realidade.

Para Brooke Greenberg, o tempo é subjectivo. Provavelmente ela ainda não tem a noção de tempo porque tem uma idade mental de 1 ano, mas também é provável que quando tiver 30 anos de idade no tempo Real (e 3 ou 4 anos no Tempo Subjectivo) ela passe a ter a noção ou consciência do tempo de uma forma subjectiva. Quando ela tiver 30 anos, a sua irmã Carly (à direita na foto) terá 26.

Para além de constatarmos os “três tempos” de Santo Agostinho, verificamos também que o tempo é subjectivo, por um lado, e real, por outro. E finalmente, temos o conceito quântico de tempo que se prende com interrelação entre as duas grandes forças imanentes à matéria : a função ondulatória quântica (ou genericamente, o mundo quântico) e a gravidade. Quanto mais massa tiver um corpo, mais denso é o tempo para esse corpo e para os outros corpos sujeitos à sua gravidade; quanto mais etéreo e “leve” (do ponto de vista da sua massa) é um corpo, mais desprendido está este corpo em relação à passagem do tempo. Para a onda quântica, o fenómeno da não-localidade demonstra que a onda quântica ou não tem massa, ou se a tem é de uma densidade mínima, e por isso é que a onda quântica pode estar aqui e agora, e a milhares de milhões de anos luz daqui, e a um segundo do nosso tempo.

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2 comentários »

  1. A propósito de “cientistas”, os “de-rerum-naturados” falam de democracia directa:
    http://dererummundi.blogspot.com/2010/05/boa-e-ma-demagogia.html

    Gostar

    Comentar por Henrique Sousa — Terça-feira, 11 Maio 2010 @ 11:13 am | Responder


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