perspectivas

Domingo, 9 Maio 2010

O novo totalitarismo português suave

A estratégia política da esquerda é a de “libertar” o indivíduo para o poder, depois, oprimir sem resistência. Esta estratégia é mais visível no Bloco de Esquerda e no Partido Socialista do que no Partido Comunista que segue uma linha mais ortodoxa e não tanto libertária. Mas se virmos com atenção, podemos ver no Partido Social Democrata de Passos Coelho alguns tiques deste libertarismo inserido em uma estratégia política que coloca o indivíduo sozinho e isolado contra ou face ao Estado.

O sonho da Razão cria monstros (Goya)

Enquanto que o Partido Comunista não engana ninguém sobre a sua descarada intenção de construção de um Estado totalitário, os “novos libertários” actuam em constante contradição embora não a assumindo perante o povo; escondem a contradição que sabem que existe e é propositada; a contradição ideológica interna tende a manipular as massas e faz parte da própria estratégia política dos “novos libertários”.

Podemos identificar uma linha política de pensamento que começa em Platão, é parcialmente resgatada em Hobbes, plenamente assumida em Rousseau, segue directamente para Karl Marx, é recauchutada pelo marxismo cultural da escola de Francoforte (Adorno, Marcuse, etc.) com a mistura de Marx com Freud, é fundamentada por Heidegger (na recusa da transcendência cristã e nos fundamentos da “desconstrução da realidade”), é refinada por Sartre (com o conceito de “facticidade” ou “liberdade determinística”), e finalmente dogmatizada por Derrida. Portanto, aquilo que começou com Platão como uma teoria, e depois de ser uma doutrina em Rousseau, já se transformou em dogma; a abstrusidade desse dogma é a de que “a liberdade do indivíduo deve ser conseguida à custa e em sacrifício da … liberdade do indivíduo !”. É esta a contradição dos novos libertários.

Para conseguirem oprimir o indivíduo ao mesmo tempo que clamam pela sua liberdade individual, os novos libertários combatem ferozmente as diferentes comunidades da sociedade civil que não comunguem das suas ideias políticas totalitárias — umas mais do que outras, conforme a prioridade imposta pela estratégia política. Normalmente, o cidadão não se dá conta da acção política do novo totalitarismo, porque ela é subtil e apresenta-se sempre em nome da liberdade.

Por exemplo, quando a magistrada Maria José Morgado (ex-MRPP e simpatizante assumida do Partido Socialista de José Sócrates) recentemente defendeu a criação de bases de dados de ADN, em que os portugueses passariam a estar fichados à boa maneira da polícia política, ela defendeu esta ideia em nome da “liberdade e da segurança dos portugueses” (para o bem dos portugueses).

Quando o marido de Maria José Morgado, o fiscalista Saldanha Sanches (outro ex-radical do MRPP) defendeu que as associações de bombeiros voluntários deveriam ser extintas, sendo — segundo ele — substituídas por bombeiros profissionais pagos e dependentes do Estado, o que ele defendeu foi a ideia de que o associativismo (que é o fundamento das comunidades da sociedade civil) deveria ser preterido — através de uma desculpa economicista que contradiz a essência da mundividência de esquerda — em favor do reforço do Poder do Estado.
Esta sanha contra as comunidades da sociedade civil vem directamente de Rousseau, que sofrendo influência de Platão, também influenciou Karl Marx.

Quando organizações ligadas a partidos políticos de esquerda se manifestam contra a visita do Papa a Portugal, o alvo desta contestação é a comunidade da nossa sociedade que é a Igreja, e que não é só composta por clérigos mas essencialmente por milhões de crentes que pertencem ao povo.

Rousseau defendeu a ideia de que as comunidades da sociedade civil (por exemplo, a Igreja, as universidades, as associações profissionais, os sindicatos independentes, as associações de beneficência, etc) restringiam a liberdade do indivíduo. Partindo desta premissa, Rousseau defendeu a ideia de que o indivíduo deveria ser libertado das restrições das comunidades da sociedade civil através do reforço do Poder do Estado, segundo o conceito abstruso e indefinido de “Vontade Geral”. É daqui que nasce a contradição dos novos libertários: dizem eles — na esteira de Rousseau — que para sermos livres temos que ser oprimidos pelo Estado.

Naturalmente que vemos nos me®dia o Bloco de Esquerda a defender as liberdades; mas se repararmos bem, a defesa esquerdista das liberdades enquadra-se sempre em uma estratégia política de reforço despótico e nepotista do Poder do Estado, o que é uma contradição flagrante e óbvia.

Como é que o indivíduo pode ser livre face à arbitrariedade política de um Estado todo-poderoso? Se o Estado nos protege, quem nos protege do Estado? Será esta protecção protagonizada pela Justiça condicionada e controlada pela política correcta e totalitarizante, que todos constatamos a olho nu?

O novo libertarismo do Bloco de Esquerda e do actual Partido Socialista, não defende a liberdade, mas antes uma nova forma de totalitarismo. Trata-se de um totalitarismo suave, que se insinua em nome da defesa da liberdade, que adormece as consciências e penetra na sociedade de uma forma aparentemente inócua, anestesiando-a progressivamente. Depois da sociedade se encontrar suficientemente anestesiada, e sempre em nome da defesa das liberdades, inicia-se o processo de concentração do Poder político por parte de uma elite de iluminados, com a mensagem profética e gnóstica segundo a qual essa concentração de Poder político é absolutamente indispensável para “mudar o mundo” e alterar radicalmente natureza fundamental da realidade. O que a elite gnóstica de iluminados nos diz é que a única forma de sermos livres é fazermos exactamente o que eles querem que nós façamos. Segundo essa elite gnóstica, a opressão do Estado existe para nosso bem, porque no fundo somos todos os “bons selvagens” de Rousseau, e devemos ser protegidos pelo Estado Absoluto da coerção das comunidades organizadas da sociedade civil.

Este novo totalitarismo é extremamente perigoso porque se oculta por detrás da defesa das liberdades. É um totalitarismo cínico, hipócrita, que se assume através de conceitos e gadgets de política correcta e pensamento único. A melhor forma de o combatermos é através do reforço das comunidades e instituições da sociedade civil (que inclui a Igreja Católica) e do seu papel político.

1 Comentário »

  1. […] → escrito neste blogue em 9 de Maio de 2010 […]

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    Pingback por Portugal está a “cubanizar-se”, e António Costa é o responsável | perspectivas — Segunda-feira, 25 Abril 2016 @ 11:58 am | Responder


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