perspectivas

Sábado, 8 Maio 2010

Plotino e quântica (2)

Parte I

Hoje, uma pessoa ignorante é aquela que acredita que o mundo é só conforme o que percepciona através dos sentidos. Com o advento do positivismo, a crença de que a realidade se limitava à Matéria e ao mundo sensível ganhou a exclusividade do bom-senso intelectual e elitista, enquanto que as massas, em geral, continuaram a respeitar os conceitos oriundos da filosofia cristã. Hoje, é essa elite positivista que está em causa e podemos afirmar com toda a certeza que ela é ignorante.

A afirmação dogmática do método positivista teve como corolário a impiedade sobre os novos heréticos que ousavam desafiar a nova nomenclatura de bata branca que substituiu a sotaina. Até há muito pouco tempo, alguém que admitisse como verosímil — mesmo de forma inconsciente — a teoria de Plotino, era considerado pela elite positivista como sendo ignorante; hoje, a física quântica demonstrou não só que é essa elite positivista que é ignorante — e embotada espiritualmente — como até deu pistas que nos permitem afirmar que Plotino, na ingenuidade normal característica do seu tempo, tinha alguma razão e lógica nas suas ideias.

É comummente aceite o facto de que a trindade cristã (Pai, Filho e Espírito Santo) teve origem na teoria de Plotino, mas a verdade é que Plotino defendeu uma quaternidade: o Uno, o Nous, a Alma e a Matéria. Para Plotino, a Matéria não era uma coisa essencialmente má e negativa, como depois a Igreja Católica veio a defender em alguns sectores ideológicos da escolástica medieval marcados pelo gnosticismo e mesmo pela influência estóica. Ao contrário do que alguns católicos ultra-zelosos possam pensar, Plotino não era gnóstico e combateu até o gnosticismo: o mundo visível é belo, morada de espíritos bem-aventurados, e é apenas menos bom do que o mundo do Intelecto (Nous). Catorze séculos depois de Plotino, Leibniz seguiu-lhe a ideia segundo a qual “vivemos no melhor dos mundos possíveis” (Teodiceia).

Os estóicos defendiam a identificação total de Deus com a natureza (panteísmo). Alguns teóricos quânticos ainda colocam essa possibilidade quando ignoram propositada e ostensivamente a teoria de John Wheeler e o seu conceito de “espuma quântica”. Para Plotino, a natureza (ou mundo sensível) é emanada da Alma (ou seja, da função ondulatória quântica) quando esta se esquece de contemplar o Nous.

Segundo Plotino, a natureza é bela e deve a sua beleza a uma cadeia de processos de emanação que teve origem primeira no Uno, estendendo-se posteriormente ao Nous, deste à Alma, e finalmente é esta última que actua, de uma forma essencial, na criação da Matéria. Para Plotino, a beleza da natureza e os prazeres correlativos não são essencialmente maus ou diabólicos — conforme propalado mais tarde pelo ascetismo da igreja medieval e pelos puritanos gnósticos protestantes — desde que a própria natureza e as suas leis sejam respeitadas. A Alma criou o mundo da natureza por memória do Divino, e não por erro; a beleza das coisas sensíveis é feita à imagem do Divino. A Matéria, que é criação da Alma, não tem uma realidade independente.

A Alma de Plotino é imanente, enquanto que o Nous e o Uno pertencem à transcendência. A Alma é fruto do Intelecto Divino que abrange o Nous; a Alma é autora de todas as coisas vivas e da Matéria. A Alma é “dupla”: é interna enquanto atenta ao Nous de que é inferior, e externa enquanto atenta ao exterior criando assim a Matéria, a natureza, o mundo sensível e a vida orgânica.

A teoria quântica tem uma concepção da realidade semelhante a esta, quando estabelece o limite do conhecimento no conceito de “Além-espaço-tempo” — que é a “transcendência” segundo Plotino, composta pelo Uno e pelo Nous. Como o Uno de Plotino, o Além-espaço-tempo quântico é indizível e não susceptível de ser descrito, nem por palavras nem mesmo pela linguagem formal da matemática. No Além-espaço-tempo quântico (na transcendência de Plotino), todas as leis da ciência se tornam obsoletas e impraticáveis: a realidade científica, tal qual a concebemos, deixa simplesmente de ser possível e de existir.

Para Plotino, a Alma quando atenta ao exterior, actua através de uma espécie de instinto ou desejo sexual; é nesta desconexão da Alma em relação à lógica e à razão que reside a sua liberdade; trata-se de uma liberdade caótica quando a Alma se exterioriza e não olha o Nous, e de uma liberdade condicionada ou mesmo dirigida pela razão e pelo intelecto, quando a Alma está atenta ao Nous. Esse instinto, liberto, da Alma, é muitas vezes coordenado, na sua acção, pelo Nous, quando a Alma está atenta ao Nous.

O Nous de Plotino é ligeiramente diferente do Logos católico e do Verbo de Filón. Podemos dizer que o Nous de Plotino é a consciência individualmente concebida, que não existe na Alma, enquanto que o Uno é a consciência absoluta e sem partes que, por emanação, deu origem ao Nous. Porém, segundo Plotino, o Uno não é o Todo, porque o Uno transcende o Ser embora esteja em todas as coisas. Podemos falar aqui de uma dupla transcendência e de uma imanência: a imanência da Alma (Alma dimensão quântica) em relação à matéria e à natureza, a transcendência do Nous em relação à Alma e à matéria, e a transcendência absoluta do Uno em relação a todas as coisas (incluindo o Nous), embora o Uno esteja em tudo através do processo das diferentes emanações (o Uno está no Nous, na Alma e na Matéria, por via das emanações que provêem Dele e Nele têm origem).

A consciência individual do Nous pertence ao Intelecto; a sua acção é condicionada pela razão, pela lógica-matemática; é o mundo das ideias puras.

Na teoria quântica, a Alma de Plotino é o mundo imanente da complementaridade quântica (ou dualismo quântico da onda/partícula), em que a onda quântica não é “alguma coisa”, ou seja, não é matéria. O não-determinismo do mundo quântico, que se rege pela possibilidade de eventos, é a liberdade instintiva da Alma de Plotino. Através do conceito de “espuma quântica” de John Wheeler, a Alma de Plotino está atenta ao Nous, através do fluxo contínuo e bidireccional de ondas quânticas entre o Além-espaço-tempo e o nosso espaço-tempo. Através da acção da espuma quântica — ou da Alma atenta ao Nous — a Alma é observada pela consciência que permite assim uma coordenação das possibilidades de eventos proporcionada pela acção da função ondulatória quântica (a Alma que cria a matéria e a possibilidade de eventos). Portanto, a liberdade existe essencialmente na Alma (ou no mundo quântico das possibilidades de eventos), e se existe alguma espécie de determinismo, este é racional, não-compulsório e ditado pelo intelecto (Nous) ou pela consciência da recta razão.

A Alma de Plotino tem como característica a não-localidade da onda quântica, característica essa que a aproxima do Nous que é por sua natureza não-local, na medida em que está ausente do espaço e do tempo. Contudo, dentro da dimensão do Nous existem diferentes graus de consciência, e quanto mais elevado é o grau de consciência individual mais longe esta está da dimensão da Alma — e por isso, mais longe da influência do espaço-tempo.

Segundo Plotino, “se a Alma não existisse, a Matéria desapareceria instantaneamente”, o que é uma verdade insofismável: a matéria depende da função ondulatória quântica e, consequentemente da onda quântica que não é matéria. Sem a onda quântica que depende do fluxo bidireccional com o Além-espaço-tempo (Nous), o universo deixaria de existir instantaneamente, porque a Matéria deixaria de ser observada pela consciência — aqui entendida como a dimensão do Nous e pela interpenetração do Uno em todas as coisas e em todas as dimensões, desde o Nous à Matéria. Segundo a teoria quântica, um átomo pode desaparecer no olvido se não for observado pelo Nous (que engloba também as consciências individuais de todos os seres humanos), embora esse processo de dissolução atómico pudesse demorar alguns milhões de anos do nosso tempo.

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