perspectivas

Segunda-feira, 3 Maio 2010

A Guerra Cultural

«Qualquer pessoa com uma mente informada e reflectiva que viva no século XX a partir do fim da primeira guerra mundial ― como é o meu caso ― acaba por se se sentir cercada, senão oprimida, por todos os lados por uma inundação da linguagem ideológica.

Essa pessoa não consegue lidar com os utilizadores da linguagem ideológica como parceiros de uma discussão, mas terá antes que fazer destes o objecto de investigação.

Não existe uma comunidade de linguagem entre os representantes das ideologias dominantes. Por isso, a comunidade da linguagem que essa pessoa pretende usar para criticar os utilizadores da linguagem ideológica deve ser, em primeiro lugar, descoberta e, se necessário, estabelecida.»

― Eric Voegelin

Na sequência deste postal sobre António Sardinha, em que lhe reconheço a razão sobre o diagnóstico da modernidade, é importante que a não-esquerda — que é, por definição genérica, o conjunto abrangente do pensamento político não contaminado pelo marxismo nas suas diversas vertentes — tenha a noção da importância da linguagem. Por exemplo, quando eu escrevo sobre o “casamento” gay, o termo “casamento” vem sempre entre aspas, o que significa que eu não aceito a definição de “casamento” proposta pelo marxismo cultural. Quando eu escrevo sobre o aborto, nunca me refiro à “interrupção voluntária da gravidez” ou “IVG” sem a colocação de aspas, o que significa que recuso a linguagem imposta pelo marxismo cultural. E por aí fora. Assim procedendo, e através do recurso à linguagem do senso-comum — a linguagem que não complica o que é simples e lógico — a não-esquerda reserva para si mesma o poder de declarar os termos do discurso, ou seja, de contribuir para a criação da comunidade da linguagem de que nos fala Eric Voegelin.

No mercado das ideias, o controlo dos termos do discurso é fundamental, e equivale ao controlo dos meios de produção no marxismo económico clássico. Se repararmos bem, os marxistas — partido comunista, bloco de esquerda, e parte do partido socialista — pretendem discutir os assuntos dos valores presentes na sociedade impondo, à partida, a utilização de categorias, termos e definições da sua autoria, ou seja, pretendem que toda a gente aceite os seus termos de discurso ou a sua linguagem. Quando alguém, que pensa de si próprio como não sendo marxista, utiliza a linguagem imposta pelo marxismo cultural, aceitou já discutir os valores da sociedade segundo as condições do discurso impostas pelo inimigo político, o que significa que já perdeu o debate.

Este é o principal problema da chamada “direita liberal” ou “neoliberal”(ou mesmo de uma outra direita dita “revolucionária”) : já perdeu a batalha política. É uma questão de tempo para seja neutralizada pelo marxismo cultural. Essa “direita”, que é produto directo do Iluminismo (ou seja, faz parte do problema), parte do princípio positivista (que por sua vez é transposto directamente do epicurismo) de que o importante são os factos e não os conceitos e valores.

Por exemplo, é muito comum vermos, nas nossas televisões, eminentes “politólogos” preocupados em sublinhar, a cada passo e nas suas declarações, que não estão a fazer “juízos de valor”; esta expressão (“não fazer juízos de valor”) significa que a pessoa em questão separa os factos, dos seus valores, o que implica a noção absolutista de que os valores são sempre subjectivos e, por isso, não pertencem à esfera da “realidade”.

A dicotomia entre o facto e o valor, imposta a partir do Iluminismo, teve consequências absurdas e erradas na “definição” de ciência de que não vou falar aqui porque o assunto é extenso. Contudo, a argumentação dicotómica entre o facto e o valor tem sido usada não só pela esquerda marxista como até por ilustres pensadores conservadores (mea culpa). Uma das consequências importantes do pensamento positivista, no que respeita à guerra cultural contemporânea, é a chamada “falácia naturalista” que nos diz que não devemos deduzir valores a partir de factos. Este conceito de “falácia naturalista” é um “pau de dois bicos” porque pode ser sempre acomodado por forma a servir uma ou outra mundividência.

Por exemplo, quando o movimento político gay vem dizer que existem “comportamentos homossexuais” nos animais irracionais que, segundo esta perspectiva, legitimariam o comportamento (e consequentemente, a moral) sodomita, a direita conservadora vem dizer que “não podemos retirar conclusões morais a partir de factos” — ou seja, a direita conservadora utiliza um argumento positivista e iluminista na sua linguagem e argumentação. De modo semelhante, a esquerda marxista e a direita liberal ou libertária vêm dizer que, na medida em que “não podemos deduzir valores morais a partir de factos”, o comportamento sodomita é tão bom como outro qualquer — é uma questão de preferência, escolha pessoal e subjectiva, ou “orientação sexual”. Como podem verificar, instalou-se a confusão da linguagem e do discurso, o que convém ao novo epicurismo.

Porém, a “falácia naturalista” padece de uma grave contradição auto-referencial — ou seja, entra em um raciocínio circular. Se só as proposições capazes de fazer sentido (em termos da lógica) são as “proposições sintéticas” — para utilizar a terminologia de Kant: “proposições sintéticas” são as proposições decorrentes ou derivadas de factos observáveis, o que significa que uma proposição só tem significado “real” quando directamente confirmada pela experiência, ou quando redutível a tal confirmação directa — , este critério não é, em si mesmo, susceptível de confirmação empírica, o que significa que o critério da significação, nos próprios termos da definição da “falácia naturalista”, se torna absurdo e sem sentido.

A reivindicação positivista segundo a qual somente as declarações decorrentes de factos observáveis poderiam ter significado “real”, não era, ela própria (a reivindicação), passível de ser sujeita a observação empírica, e por isso, e nos termos da sua própria definição, a reivindicação não tem sentido. Seria como se eu dissesse que seria possível fechar uma gaveta à chave e simultaneamente meter a chave que fecha dentro da gaveta. Foi aqui que o positivismo e o novo epicurismo foi colocado em causa.

A morte da “falácia naturalista” significou que a guerra cultural já não se baseia hoje em critérios definidos pela ciência, mas na força da intersubjectividade da sociedade aglutinada em uma comunidade de linguagem ou discurso, nos termos referidos acima por Eric Voegelin. Essa força da intersubjectividade está directamente ligada à “ordem das coisas” (ou seja, ordem das coisas = natureza fundamental da realidade) transposta para a dimensão humana — ou seja, implica a distinção entre a dimensão humana da realidade (através da noção de autoconsciência) e as outras dimensões da realidade natural.

Em consequência da morte do positivismo, chegamos a um ponto da radicalização do discurso em que o marxismo cultural coloca o ser humano ao mesmo nível dos outros animais ou mesmo vegetais (ver o que diz o naturalismo ateísta moderno actual, nomeadamente através dos marxistas culturais Richard Dawkins, Christopher Hitchens, Peter Singer, etc. ), com o intuito de subverter a “ordem das coisas” que se refere, em linguagem do senso comum, à constatação axiomática das verdades auto-evidentes decorrentes de uma Ordem Cósmica, e que não deve ser confundida com a “justiça dos homens” ou direito positivo, ou mesmo com o jusnaturalismo; a “ordem das coisas” decorre da intuição presente no senso-comum — a que os franceses chamam de “bom senso” — que reconhece a primazia e a verdade dos “primeiros princípios”, e entre estes princípios está a distinção qualitativa entre o ser humano e os outros seres vivos que nos leva à noção de excepcionalidade da vida humana. Isto significa, por exemplo, que independentemente dos factos não é possível sustentar e apoiar o aborto.

A mínima tolerância em relação ao aborto é a negação da excepcionalidade da vida humana e, neste sentido, a negação da “ordem das coisas” ou a negação do princípio de uma natureza fundamental da realidade. O aborto, a eutanásia, o “casamento” gay, etc, são instrumentos de subversão da “ordem das coisas” que têm em vista, através do embotamento da intuição da maioria e da invalidação do senso-comum por via do condicionamento da linguagem, a concentraçao do poder político nas mãos de uma elite de iluminados, sob pretexto da alteração da natureza fundamental da realidade através de engenharias sociais.

Através da tentativa de subverter a “ordem das coisas”, a mente revolucionária e gnóstica em geral, e o marxismo cultural em particular, pretendem colocar em causa não só a intuição humana, levando assim o Homem ao embotamento espiritual e à estupidificação, como pretendem desvirtuar a lógica que preside à linguagem e ao discurso, ao mesmo tempo que pretendem substituir os critérios de liberdade e de livre-arbítrio em nome de um determinismo histórico que transforma o ser humano em um autómato.

Hoje, a guerra cultural trava-se entre aqueles que fazem da liberdade a consequência de um determinismo (a direita), e aqueles que fazem do determinismo a consequência da liberdade (os marxistas, travestidos de “libertários”).

Para a direita — seguindo a intuição e o senso comum milenares — o único determinismo que existe é a condição para a existência da liberdade, ou seja, essa condição para a existência da liberdade é a própria realidade nas suas múltiplas dimensões.

Para a esquerda, a liberdade é a expressão dos movimentos humanos, inúteis e vãos, realizados nos Passos Perdidos da realidade das sensações percepcionadas, e que, segundo os novos epicuristas, em nada alteram o alegado determinismo estabelecido pela natureza e pela História — determinismo este que já foi francamente colocado em causa pela teoria quântica e pela física moderna.

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