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Sábado, 1 Maio 2010

A perversidade do Euro para a economia portuguesa

Filed under: Europa,Política — orlando braga @ 8:22 am
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  1. Os países do Euro não podem ter taxas alfandegárias em relação a importações de outros países da zona Euro. E mesmo em relação a importações de países terceiros — ou seja, países de fora da zona Euro — as taxas alfandegárias são decididas em Bruxelas e os governos de cada país da zona Euro só pode tentar influenciar a decisão a tomar em relação a imposição de taxas. Foi assim que Portugal foi “comido de cebolada” com o Acordo Multifibras entre a União Europeia e países terceiros (China, Indonésia, etc.) que rebentou, em poucos anos, com a indústria têxtil portuguesa.
  2. Por outro lado, a impossibilidade de Portugal cobrar taxas alfandegárias de produtos importados, por exemplo, da Alemanha, traz para Portugal a concorrência de empresas alemãs que já dispunham de um mercado interno (o alemão) muito maior em termos de consumidores. Sabemos que uma empresa alemã que, por ter um maior mercado natural, produz um milhão de unidades, em princípio tem a capacidade de vender mais barato do que uma outra empresa portuguesa do mesmo ramo de produto que produz apenas cem mil unidades, ou seja, a empresa alemã torna-se muito mais competitiva no mercado português, e muitas vezes sem maior qualidade do produto acabado.
  3. Devido a este enviesamento do mercado, a indústria portuguesa tem sido desmantelada nos últimos 10 anos — desde a entrada no Euro — porque a União Europeia e o Euro não permitem a Portugal a protecção da sua indústria através da imposição de taxas alfandegárias.
  4. Em consequência da falência em catadupa das empresas portuguesas de pequena e média dimensão devido a uma concorrência externa insuperável, e não tendo a possibilidade de proteger a sua indústria, Portugal passa a comprar cada vez mais lá fora o que antes era produzido dentro do país, ou seja, passa a importar mais e a diminuir o potencial de exportação da economia. Ora isto traz consigo o agravamento do endividamento externo endémico do país, que já existia antes da entrada de Portugal no Euro embora em menor escala de grandeza — deixamos de exportar e passamos a importar. Porém, esta importação não é só de produtos transaccionáveis: passamos a importar o desemprego dos outros países europeus que têm um maior mercado natural.
  5. Temos, então, que a consequência lógica do desmantelamento da nossa indústria é o aumento da dívida externa, uma vez que temos de comprar lá fora o que dantes produzíamos cá dentro. Não fosse a Auto-Europa Wolksvagen que entretanto entrou em Portugal e que equivale, só essa empresa, a mais de 1% do nosso PIB e que exporta praticamente a totalidade da sua produção em Portugal, e outras poucas empresas do género, Portugal estaria ainda mais endividado do que está hoje.
  6. No entanto, o paradoxo do Euro é que por um lado impõe uma concorrência aberta, como se de um mercado de um mesmo e só país se tratasse (o mercado interno europeu), ao mesmo tempo que impõe que a dívida externa de um país não pode exceder os 60%.

    Isto significa que, e decorrendo da política do Euro e do consequente desmantelamento da indústria nacional, se a dívida nacional externa não crescesse nestes últimos 10 anos, os portugueses passariam a viver pior do que viviam no tempo de Salazar, porque não poderiam comprar produtos portugueses que já não existem devido à falência das empresas portuguesas em concorrência com as alemãs. Não resta aos portugueses outra opção senão comprar lá fora o que não existe produzido cá dentro, e com isso aumenta a dívida externa do país.

  7. Ora é isto que os nossos políticos, todos à procura do El Dorado em Bruxelas, não dizem ao povo português.
  8. Portugal ainda vai a tempo de se safar saindo do Euro, antes que a União Europeia nos leve à idade da pedra ou simplesmente compre e anexe o nosso país em leilão. O que está a acontecer na Grécia — e ainda o que mais vamos ver nesse país — é o sinal do que nos espera.
  9. Mesmo que o défice público português seja contido nos 3%, a dívida externa portuguesa continuará a aumentar, o que significa que serão sistematicamente aumentados os impostos para pagar a dívida externa, em uma espiral infernal que levará à miséria portuguesa.
    A construção do TGV e as outras obras públicas faraónicas socratinas são uma fuga para a frente: a ideia é mais ou menos esta: “entre mortos e feridos, alguém há-de escapar”; “enquanto o pau vai e vem, folgam as costas”; “vamos tratar a doença do cão com o pêlo do próprio cão”, aumentando ainda mais a dívida externa com importações massivas de bens transaccionáveis para as construções megalómanas socratinas; e se a Grécia foi salva pela União Europeia sem ir à falência, também Portugal pode continuar no fio da navalha.
  10. Se tivermos o IVA a 30%, o consumo dos portugueses diminui e assim contemos as importações e a dívida externa. Em vez de taxas alfandegárias que existiam antes do Euro, o governo tem agora só a possibilidade de aumentar o IVA e os impostos em geral. Só que a taxa alfandegária, para além de proteger a nossa indústria, era um imposto mais justo porque só incidia sobre alguns produtos importados. O IVA, dentro do contexto do Euro, é um imposto cego que penaliza tanto o que é importado como o que é produzido cá dentro.
  11. Com o IVA a 30% ou mais, vai haver portugueses a chorar baba e ranho. Este cenário não é tão absurdo como parece; a Grécia já subiu o IVA de 21% para 25%, e os alemães, não contentes com este aumento, impõem aos gregos uma revisão do PEC grego que será divulgado na próxima segunda-feira, e que dizem que prevê a subida do IVA para 30%. Os gregos vão-se ver gregos.

Sair do Euro é um imperativo nacional — a não ser que as regras do Euro sejam mudadas ou que Portugal acabe como país. O Euro só serve os alemães; até a França está com problemas com o Euro.

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8 Comentários »

  1. «No entanto, o paradoxo do Euro é que por um lado impõe uma concorrência aberta, como se de um mercado de um mesmo e só país se tratasse (o mercado interno europeu), ao mesmo tempo que impõe que a dívida externa de um país não pode exceder os 60%.»
    Isto é absurdo e abominável! Não havendo fronteiras à circulação de bens, não faz qualquer sentido falar-se sequer de dívida externa de um país isolado da Europa. Quer dizer, só é União para os ricos, para os outros é Casamento Gay. Devia chamar-se a Europa dos Porcos.

    Comentário por Henrique — Sábado, 1 Maio 2010 @ 9:52 am | Responder

  2. Este postal admite que Portugal tinha uma indústria pouco competitiva, que produzia mais caro e com menos qualidade e que só subsistia devido ao protecionismo do Estado através das taxas alfandegárias. Neste momento, como consumidores, temos produtos mais baratos e com melhor qualidade. Não vejo como isso possa ser negativo. Se as empresas alemãs produzem para um mercado interno maior e isso lhes facilita a exportação dos seus produtos pois mais facilmente atingem economias de escala, é impossível concorrermos com essas mesmas empresas (pelo menos em termos de preço). Temos de direccionar os nossos esforços para outro lado. Ou apostamos na qualidade ou então não estamos a apresentar nenhuma mais valia ao mercado.
    Continuo sem perceber esta má vontade contra o Euro. O problema de Portugal não é o Euro. Problemas em Portugal são o sistema de Justiça, as leis laborais, a fraquíssima qualidade do sistema educativo, tudo factores que nos distanciam cada vez mais dos países do centro e norte da Europa.
    Outra nota: se formos a ver quais são os países mais afectados por esta crise económica (pelo menos na visão de todos os agentes económicos excepto José Sócrates, que continua a congratular-se com o facto de Portugal ter sido o país europeu menos afectado pela crise e o que mais rapidamente inverteu a situação de recessão), verificamos que são a Républica da Irlanda, Portugal, Espanha, Grécia e Estónia. Será coincidência serem todos países periféricos? Não será o facto de se ser um país periférico um grande handicap quando se vive num mercado comum? Creio que os factos falam por si. Não defendo com isto qualquer ajuda especial a estes países. Apenas defendo que estes países têm de perceber que não podem aplicar estratégias económicas semelhantes às dos países do centro e norte da europa, que podem aproveitar o mercado comum para importar e exportar com comodidade – ao contrário dos países periféricos, que têm facilidade em importar mas muito mais dificuldade em exportar.

    Comentário por Nuno Geraldes — Sábado, 1 Maio 2010 @ 10:34 am | Responder

  3. Caro Braga

    Deixe-me dar-lhe a perspectiva do lado da União Europeia. A saída do Euro trará obviamente graves problemas a Portugal. A desvalorização será imediata, ou seja tudo o que importarmos virá substancialmente mais caro. As importações de combustíveis atirarão o nosso défice externo para valores impensáveis, os nossos termos de troca agudizar-se-ão brutalmente. Como para produzirmos precisamos de inputs externos, ao desvalorizarmos brutalmente a moeda as nossas posteriores exportações de produtos (muito dependentes desses recursos externos) serão insuficientes para fazer face ao desequilíbrio externo e possivelmente aumentá-lo-ão. Aumentar a venda de serviços seria óptimo e alguma coisa se tem feito nessa alteração de modelo.

    A solução não é sair do Euro. A solução é produzir mais e melhor e aniquilar um Estado despesista que atirou a divida pública externa para a bonita soma de 145.000.000.000 €, que representa pagamento de juros anuais de 5.000.000.000€. O Estado está a asfixiar a economia. E é aí que poderemos mudar. Só se pode redistribuir depois de produzir – não antes! Facilitar a vida às empresas é de verdadeiro interesse nacional. Diminuir as desigualdades é outro. Todos os países ricos são os países menos desiguais. A desigualdade, hoje, nasce na simbiose dos actores políticos com interesses monopolísticos.

    Façamos agora estas contas. Dividamos o valor acima e o anterior pelos 5.000.000 de activos em Portugal. Na dívida externa da República chegamos à bonita soma de 29.000€ por Português que trabalha, nos pagamentos do serviço da dívida já é retirado em média 1.000€ ao rendimento disponível anual de cada Português.

    O que fazer então? Aquilo que há muito devíamos ter feito. Ser muito rigorosos com o orçamento, construir um orçamento de base zero, emagrecer os gastos brutais do Estado e produzir cada vez mais, exportar também cada vez mais, diversificando mercados – há 200 países no mundo. O modelo de criação de empresas substitutivas de importações do próprio mercado interno, não é um modelo aparentemente a seguir dado que deu mau resultado nos países em desenvolvimento, a especialização sim, mas num quadro muito mais alargado.

    Obviamente que a nível da UE também têm de se exigir coesão interna. E coesão significa no quadro de uma UE considerada quase um mosaico regional, relançar políticas de coesão interna. Para isso, no entanto, é necessário um orçamento comunitário mais alargado e uma maior integração dos mercados. Num país como os EUA regiões sobreendividadas e falidas como a Califórnia tem a resposta dos orçamentos Federais via FED – através de menores participações no orçamento federal e uma flexibilidade dos factores de produção que não existe na UE. A UE peca por isto. É um projecto original com integração de algumas políticas, mas deixando outras de fora que funcionam como verdadeiros estabilizadores automáticos.

    A Alemanha outrora com uma moeda forte, com uma população que olhava o Euro com medo de “utentes” da mesma (como os Gregos, os Portugueses, a Europa do Sul e da fiesta) com políticas orçamentais pouco rigorosas – dado que sempre baseou as suas políticas numa moeda forte e estável – obviamente que não quer pagar as dívidas dos outros, se os outros tiverem uma política de mentira e mordomias a nível de trabalho e rigor não existentes no seu lugar – independentemente de se esquecerem que grande parte das suas exportações alimentam a sua produção própria.

    Assim o que é necessário é acomodar dois interesses: o interesse da estabilidade do Euro, com o interesse da solidariedade e coesão dos países que necessitam de reformas estruturais.

    O modo de o fazer? Começar por aqui! Seguidamente participarmos mostrando onde poderemos servir o colectivo e não nos servirmos dele, olharmos para nós próprios, combatermos a corrupção, as desigualdades, o social sem participação, e cortarmos a direito nos gastos do Estado, mantendo cargas fiscais e taxas em patamares aceitáveis – não deixando nunca que as despesas do Estado sejam superiores às receitas.

    Se optarmos por uma política a vinte anos de equilíbrio ou mesmo superavit público resolveremos os nossos problemas. De outro modo o empobrecimento será inevitável e galopante!

    Comentário por causavossa — Sábado, 1 Maio 2010 @ 11:11 am | Responder

  4. @ Pedro Sande

    Naturalmente que uma saída do Euro teria que ser pensada e executada em um determinado prazo, seguindo um determinado plano económico e financeiro. Está fora de questão uma situação de tipo “no fim do ano saímos do Euro”.

    Por outro lado, o novo escudo ficaria indexado ao Euro em uma banda de oscilação de 3% — isto por decisão do Banco de Portugal (voltaríamos a ter o nosso Banco de Portugal) e do governo português para dar confiança aos mercados financeiros, por um lado, para manter as taxas de juro relativamente baixas, por outro, e para conter a inflação e a despesa pública, por último. Naturalmente que em uma situação excepcional de crise como a que vivemos em 2009/2010, Portugal teria a possibilidade de adoptar uma política monetária de “deslizamento” do escudo — desvalorização progressiva e em pequena escala — como fez o Obama nos Estados Unidos e tem agora a economia a crescer a 3,2% !

    As pessoas têm que se convencer que o Euro é a moeda alemã!

    A ideia de que a dívida externa portuguesa se deve ao “Estado despesista”, não é verdadeira. O Estado tem a sua responsabilidade, mas quando falamos de dívida externa, falamos de todos os portugueses nas suas vidas privadas. Por exemplo, o sobre-endividamento das famílias portuguesas tem reflexo na dívida externa. Essa dívida externa — que é do Estado mas é essencialmente de todos os portugueses — só pode ser reduzida através das exportações, ou através do aumento de impostos.


    “produzir cada vez mais, exportar também cada vez mais, diversificando mercados – há 200 países no mundo.”

    Qualquer empresa industrial ou de distribuição de bens que nasça em Portugal, ou tem à partida o patrocínio e/ou sociedade com um potentado alemão ou francês, ou está à partida condenada à morte — a não ser que essa empresa portuguesa se dedique a um nicho de mercado muito específico, e não há assim tantos nichos de mercado deste tipo. Por outro lado, o governo português não pode apoiar as pequenas e médias empresas portuguesas sem correr o risco de ser acusado pelos alemães, através da União Europeia, de dumping e/ou proteccionismo — como aconteceu com o governo espanhol há meia dúzia de anos.

    O que eu quero dizer é que a economia portuguesa perdeu a sua autonomia, e cada ano que passa dentro do Euro vai perdendo ainda mais a sua autonomia até ficar indigente. Os grupos económicos portugueses como a SONAE ou o Grupo Amorim, ou a EFACEC, vão passar a ser oásis em um deserto. Empresas como a GALP, EDP, REN, CTT, etc, depois da sua privatização, vão passar a ser controladas por capital com sede e assento no estrangeiro que não sente da mesma forma a realidade do país.

    Então, dentro do Euro, só passaremos a aumentar as nossas exportações se tivermos investimento estrangeiro, seja directo, seja em joint-ventures com empresas portuguesas. A ideia que tínhamos, antes do Euro, de que uma empresa portuguesa poderia crescer por si própria e sem depender de potentados estrangeiros — e falo em termos gerais, porque as excepções confirmam a regra — por mérito e trabalho próprio (e à medida que os anos passam e a economia portuguesa se vai tornando cada vez mais fraca) por forma a competir nos mercados internacionais, é pura ilusão. Isto só só voltará a acontecer com a saída do Euro.

    A prova disso é que a economia portuguesa estagnou em 10 anos de Euro, com crescimentos que nos envergonham. Nós não podemos estar a atirar as culpas exclusivamente para cima de nós, quando na verdade existe uma política económica e monetária deliberada do BCE para proteger outros interesses que não são os nossos.


    “Obviamente que a nível da UE também têm de se exigir coesão interna.”

    Os alemães estão-se borrifando para a coesão interna. Na imprensa alemã, os cidadãos gregos estão a ser tratados como cães — já faz lembrar a imprensa nazi em relação ao judeu. As pessoas têm que se convencer de uma coisa : Euro = Alemanha.

    Os alemães não querem alargar o orçamento. O que eles querem é aumentar o Lebensraum económico para compensar o falhanço da política de Lebensraum demográfico.

    Não podemos confundir os Estados Unidos com a União Europeia. Este erro brada aos céus! ERRO!

    Os Estados Unidos têm traços culturais — ou melhor, um ADN cultural — comum, o cristianismo; têm uma língua comum, o inglês que se ensina desde a escola primária; e têm uma unidade política. Estas três condições não existem na União Europeia, nem nunca existirão!

    Comentário por O. Braga — Sábado, 1 Maio 2010 @ 7:16 pm | Responder

  5. @ Nuno Geraldes


    “Este postal admite que Portugal tinha uma indústria pouco competitiva, que produzia mais caro e com menos qualidade e que só subsistia devido ao protecionismo do Estado através das taxas alfandegárias.”

    Ora bem: entramos agora no dogma hayekiano que vou desmantelar em três penadas.

    A política monetária do BCE é uma forma de proteccionismo de alguns países em relação a outros. A relação Euro/dólar nos últimos anos é um absurdo e protege a Alemanha e mais meia dúzia de países (Holanda, Finlândia, Luxemburgo, nem tanto a França, porventura a Dinamarca). As políticas proteccionistas podem ser directas (apoio directo do Estado ou através de taxas de importação) ou indirectas, como acontece com a política monetária do BCE controlada pela Alemanha. Isto é um facto em economia.

    O aumento da massa monetária na zona Euro é de cerca de 10% ao ano — e isto tem acontecido há anos! Com as taxas de juros baixas, o BCE imprime dinheiro vindo do Nada para suprir as necessidades alemãs de exportação para os outros países da União Europeia, que assim se endividam até ao pescoço. É o caso de Portugal. O ciclo vicioso instala-se. Quanto mais dívida externa, mais se imprime dinheiro para safar as economias como a grega. Segundo o FMI, a Grécia vai precisar de 120 mil milhões de Euros para se safar — já se entrou nos três dígitos.

    Será que o dogma anti-proteccionista justifica este descalabro? Eu penso que não.


    “Neste momento, como consumidores, temos produtos mais baratos e com melhor qualidade.”

    Disse bem; “neste momento”. Como é que Portugal paga a dívida externa? Com mais exportações. E onde está o aumento quantitativo e qualitativo de empresas exportadoras? Não existe. Então como fazemos? Aumentamos os impostos, o IVA, etc para pagar a dívida externa. E com o IVA a 30% teremos os produtos mais baratos? Não teremos. E se o nosso nível de aquisição baixar na União Europeia, a melhor qualidade de produtos serve para alguma coisa? Serve, sim senhor: para a elite que os pode comprar.


    “Se as empresas alemãs produzem para um mercado interno maior e isso lhes facilita a exportação dos seus produtos pois mais facilmente atingem economias de escala, é impossível concorrermos com essas mesmas empresas (pelo menos em termos de preço)”.

    O seu raciocínio teria alguma lógica se o endividamento externo dos países não tivesse a relevância que tem. Para isso, você tinha que formar um governo europeu com sede em Berlim. Bruxelas já não chega.


    “Ou apostamos na qualidade ou então não estamos a apresentar nenhuma mais valia ao mercado.”

    Isso é retórica de economista de televisão pago para defender a causa. A gente ouve-os e tende a assimilar o discurso. A qualidade é muito importante mas necessitamos de mecanismos de mercado para os impor. Os alemães utilizam a lei do mais forte, que é uma espécie de proteccionismo natural; nós precisamos de outra espécie de proteccionismo.


    “Continuo sem perceber esta má vontade contra o Euro. O problema de Portugal não é o Euro. Problemas em Portugal são o sistema de Justiça, as leis laborais, a fraquíssima qualidade do sistema educativo, tudo factores que nos distanciam cada vez mais dos países do centro e norte da Europa.”

    Por essa ordem de ideias, poderíamos dizer: “Problemas em Espanha são o sistema de Justiça, as leis laborais, a fraquíssima qualidade do sistema educativo, tudo factores que nos distanciam cada vez mais dos países do centro e norte da Europa.”

    Isto porque os espanhóis não estão muito melhor do que nós. O problema não é só português! Porque é que a gente se auto-flagela?! Porque é que procuramos desculpas para continuarmos na alienação ideológica ?


    “Será coincidência serem todos países periféricos? Não será o facto de se ser um país periférico um grande handicap quando se vive num mercado comum?”

    Quando existe algo “periférico” é sempre em relação a alguma coisa. Porém, esta ideia não é talvez correcta. A Califórnia é periférica nos Estados Unidos; e podemos dizer que a Califórnia é pobre?

    O problema não é a periferia, mas os preconceitos culturais de alemães e franceses (principalmente dos primeiros). Naturalmente que os gregos puseram-se a jeito para legitimar esses preconceitos culturais, depois de verem também destruída a pouca indústria que tinham antes da entrada no Euro.

    O Euro é um bulldozer alemão. Aplaina, mas destrói tudo à sua passagem.

    Comentário por O. Braga — Sábado, 1 Maio 2010 @ 7:54 pm | Responder

  6. [...] e em uma situação de resolução dos problemas prementes do défice público. Como escrevi aqui, mesmo que Portugal reduza o défice público a menos de 3%, a dívida externa continuará a [...]

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