perspectivas

Quinta-feira, 29 Abril 2010

O canivete de Ockham ou o corta-unhas de Occam

William Ockham, ou Guilherme de Occam, é daquelas personagens históricas — à semelhança do que aconteceu com a saga de Galileu contada e adulterada a cada recontagem — utilizadas por uma certa cultura que se diz “científica” para a sua auto-legitimação lógica. Existem outras personagens heróicas e mitológicas do Positivismo, por exemplo a de Giordano Bruno: são as que o naturalismo ateu, que evoluiu essencialmente do gnosticismo cristão, considera ser os seus heróis e/ou mártires históricos.

A novela de Umberto Eco “O Nome da Rosa” apropria-se da personagem de Occam na figura do frade franciscano que viajava acompanhado de um menino — talvez esteja aqui a origem de alguns fenómenos culturais que nos chocam hoje dentro da ICAR: o clérigo intelectual que está dentro da Igreja precisamente para a combater ideologicamente — provavelmente gay e, a julgar pela companhia de viagem, pedófilo — passou a ser muito conhecido e evocado nas universidades inglesas a partir do século XIX, mas foi relativamente ignorado no seu tempo.

Afirmar que Occam foi decisivo para a evolução da ciência é um manifesto exagero só compreensível pela acção da ideologia positivista; foi muito mais importante o fenómeno cultural do Renascimento de onde a lógica filosófica esteve praticamente arredada, com excepção da Lógica de Port-Royal; foi talvez essa ausência da lógica filosófica tradicional dos postulados que favoreceu o desenvolvimento da lógica dos axiomas durante o Renascimento. Contudo, Occam passou a ser o “Ai Jesus” do Positivismo (de que esteve na base ideológica) e que, para além de Comte, incluiu o seu arauto-mor John Stuart Mill, o denominado “círculo de Viena” e de Bertrand Russell (entre outros). A ciência positivista canonizou Occam, tornou-o um santo de uma fé científica que é a mais forte de todas por que nunca é declarada explicitamente.

Dizia Occam que Entia non sunt multiplicanda sine necessitate, o que traduzindo diz que “não devemos multiplicar as entidades não necessárias”. Este princípio é conhecido como a “navalha de Occam”, mas trata-se apenas de um canivete para escarafunchar as unhas dos pés.

A que se referia Occam? Nomeadamente, Occam manifestava-se contra a “mistura” entre as coisas de Deus e as coisas da Terra — o nominalismo tem acima de tudo um carácter político-cultural porque o seu valor filosófico é mínimo, e ainda hoje a “querela dos universais” não está resolvida; a teoria quântica veio demonstrar que o nominalismo não tem a preponderância lógica que parecia ter.

Através desta sentença sumária, Occam diz que não se deve supor que o significado das palavras remeta para o das essências (as “essências” que são das Formas ou Ideias de Platão, que se transformaram no Logos cristão), ou seja, Occam tentou fazer o corte ideológico entre a linguagem humana e a realidade divina. E, diz ele, se a Graça ou a intuição falha no desiderato de revelar a natureza divina — Occam admite que a Graça Divina falha; nada mau para um frade franciscano — não se deve reflectir sobre a natureza terrestre com as ideias sobre Deus, ou seja, diz ele que, na medida em que Deus não é passível de ser definido ou descrito pela linguagem humana, achou boa ideia condená-Lo a um papel de segundo plano na cultura europeia.

Em suma: segundo Occam, se reconhecemos a provável existência de uma realidade mas não a podemos definir ou descrever, seja por falha da intuição ou por erro da Graça Divina, mais vale fazer de conta que essa realidade não existe. E é a este princípio que a “ciência” positivista chama de “científico”.

No fundo, o que Occam quis dizer é que não devemos complicar aquilo que (ele diz) que é simples; defende uma espécie de “caminho de acção mínima” da lógica. O princípio da acção mínima, na física clássica, defende que as equações do movimento de um sistema clássico podem ser deduzidas, e que o movimento minimiza o valor de um determinado integral conhecido como “acção”, o qual pode ser calculado a partir do conhecimento prévio das energias cinética e potencial. Ou seja, o caminho de acção mínima é uma espécie de efeito de uma “lei do menor esforço” a que está sujeita a natureza macroscópica; este conceito é aplicado na teoria quântica de uma forma ligeiramente diferente.


Portanto, segundo Occam, não devemos complicar aquilo que é simples. Paradoxalmente, a simplificação de Occam conduziu à complicação do cepticismo científico/ateu.

Para o céptico sequaz da ciência positivista, a formulação de uma ética parte de uma condição necessária de abandono do seu cepticismo; não é possível a um céptico tentar fundamentar uma ética sem deixar de ser céptico. Desde logo, ele tem que se decidir a não acreditar em Deus e a ser céptico; depois, tem que se decidir a abandonar o seu cepticismo para que possa fundamentar uma ética; depois, tem de se decidir a considerar-se livre e responsável; a seguir, tem de se decidir a considerar a existência como algo que tem sentido ― e a não lhe pôr termo através do suicídio ―, e finalmente, tem que se decidir a moldar conscientemente a sua vida. Pode-se constatar aqui a complicação que um céptico tem para tentar fundamentar uma ética da sua lavra. A simplicidade de Occam, que defendia a não-mistura das coisas de Deus e das coisas da Terra, em vez de simplificar, complicou; o efeito do princípio de Occam está em contradição com a intencionalidade da regra.

O cristão — o tal que, segundo Occam, mistura as coisas de Deus com as coisas da Terra — assume uma posição muito mais económica em relação à vida. Para ele, é suficiente uma única decisão fundamental: acredita em Deus, e tudo o resto é uma consequência lógica dessa fé. O comportamento do cristão é semelhante ao do cientista que prefere uma teoria com uma única hipótese possível, a uma teoria com várias hipóteses. Em suma, em termos práticos, são aqueles que Occam critica que têm uma atitude mais científica perante a vida e o mundo, na medida em que simplificam em vez de complicar. O princípio de Occam deveria ser aplicado ao seu autor e aos seus sequazes positivistas, embora no sentido dos seus efeitos reais.

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