perspectivas

Terça-feira, 27 Abril 2010

A filosofia quântica e o gnosticismo

As reacções a este postal revelam a estupefacção perante a representação que a teoria quântica faz da realidade. Para os que pensam o referido postal como uma manifestação de gnosticismo, quero lembrar que 1) a teoria quântica, entendida segundo a esmagadora maioria dos cientistas quânticos, não se refere à transcendência — que aliás consideram ser imperscrutável e incomensurável (o Além-espaço-tempo) —, mas antes fixa-se na imanência que condiciona o mundo sensível ou objectivo; isto significa que a teoria quântica reconhece a existência de um território da realidade (a singularidade quântica) que é de impossível acesso à mente humana e onde as leis da ciência entram em colapso total; 2) a teoria quântica considera a possibilidade de conhecimento do futuro como sendo de probabilidade mínima ou praticamente nula, dado que reconhece a contingência como um dado essencial da realidade quântica; apenas o passado está “determinado”, e só em relação aos factos passados existe um determinismo.

A contingência — que é a característica de tudo o que se opõe, de direito ou de facto, à necessidade — sempre foi um problema da filosofia e da ciência. A expressão escolástica “futuros contingentes” designa essa imprevisibilidade de um futuro que ultrapasse em qualidade a monotonia providencial da ordem cósmica de que o nosso senso-comum se apercebe. De facto, a quântica vem corroborar a escolástica neste sentido: em circunstâncias normais, não é possível ao ser humano, individual ou colectivamente, prever o futuro. Podemos basear-nos na experiência passada para projectar o futuro, mas mesmo assim a contingência está sempre presente para nos contrariar; como dizia John Lennon, “a vida é o que acontece quando fazíamos outros planos”; esta frase confirma, em linguagem do senso-comum, a impotência da experiência face à contingência.

Porém, da mesma forma que os escolásticos utilizaram o conceito de “contingência” para defender o livre-arbítrio do ser humano tendo em vista um fim supremo, os existencialistas ateus basearam-na “contingência” para construir a noção de “facticidade” que dá liberdade ao ser humano sem uma intencionalidade finalista. Isto significa que um mesmo conceito pode servir mundividências opostas. E por isso é que teólogos e filósofos cristãos têm, em geral, pela teoria quântica uma desconfiança profunda. De modo semelhante, o ateísmo naturalista vê na teoria quântica a sua negação na medida em que a constatação de um universo finito (porque teve um início) por um lado, e a verificação da existência da singularidade quântica onde as leis da física entram em total colapso, por outro lado, abalam a confiança em sistemas filosóficos escorados na ausência intrínseca de um qualquer finalismo.

A ideia tradicional gnóstica de que o conhecimento permite o encontro com Deus, ou a ideia gnóstica moderna de que o conhecimento traz necessariamente a felicidade ao Homem, estão em contradição com a filosofia quântica. No primeiro caso, a quântica reconhece a inexpugnabilidade da transcendência traduzida no conceito de Além-espaço-tempo; no segundo caso, a quântica reconhece implicitamente, nomeadamente através da noção de “complementaridade”, a impossibilidade do conhecimento completo da realidade e na medida em que o mundo quântico se repercute no mundo do senso-comum. Isto não significa que a quântica concorde com Hume, que defendia a impossibilidade do conhecimento humano e que, por isso, mais valia ao ser humano desistir da pesquisa; para a quântica, significa antes que essa impossibilidade objectiva de completo conhecimento da realidade não consegue retirar ao mundo a maravilha e a grandiosidade da ordem cósmica e que, neste sentido, vale a pena continuar a analisar e contemplar essa maravilha que tem uma origem impenetrável — o pélago que transcende o universo.

O que a quântica nos vem trazer é a possibilidade de novos caminhos na teoria do conhecimento. Desses novos caminhos fazem parte a recuperação e adaptação de alguns conceitos antigos, desde a filosofia grega às religiões orientais; e fica definitivamente afastada a hipótese de o universo existir e subsistir por si próprio. O naturalismo ateísta morreu.

1 Comentário »

  1. Acredito que através da fisica quantica poderemos ter uma caminho para explicação de teorias espirituais (vida após a morte) através de teletransporte quantico de energia, considerando dimensões ocultas ainda para a mente humana. Como foi escrito no texto acima “(a singularidade quântica) que é de impossível acesso à mente humana”, não obtemos discernimento ainda nesse sentido por nossa ignorãncia. “A quântica nos vem trazer é a possibilidade de novos caminhos na teoria do conhecimento”.

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    Comentar por Carlos Alberto — Segunda-feira, 3 Maio 2010 @ 7:56 pm | Responder


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