perspectivas

Segunda-feira, 19 Abril 2010

A eliminação da culpa

Freud está para a psiquiatria/psicologia como Nietzsche está para a filosofia. Ambos deixaram uma espécie de vírus ideológico nas respectivas áreas de intervenção. Ambos criaram falsas teorias a partir de evidências de senso-comum que permanecem como um vírus nas memórias de quem os leu ou estudou.

Freud eliminou a moral e a liberdade humanas; transformou o Homem em um autómato. A política totalitária adoptou Freud; o marxismo cultural, que aumentou a sua influência na nossa sociedade a partir da queda do muro de Berlim, não pode sobreviver sem Freud nos intestinos da sua estrutura ideológica. E o mais perverso que Freud nos trouxe foi a justificação mecanicista e robotista da culpa — como se o Homem tivesse um mero software no seu cérebro que pode ser modificado sem dano para ele próprio e para a sociedade. Através da justificação mecânica da culpa, fenómenos de despersonalização criaram mecanismos psicológicos de defesa contra a culpa, o que levou à insensibilização social — já não falando aqui no homem-robô dos campos de concentração nazi ou dos Gulag.

O Anacleto paracleto

Quando olhamos para certos militantes destacados de religiões políticas oriundas do campo marxista — seja do Bloco de Esquerda, PCP ou mesmo uma parte substancial do partido socialista —, não nos devemos esquecer de que para além de Karl Marx, Freud e Darwin entram na equação da nova religião política que evoluiu a partir da derrocada do marxismo/leninismo; a teoria de Darwin foi adulterada pela política através do neodarwinismo que transforma todo o universo em um produto do dogma evolucionista. E Freud entra na equação através da despersonalização do Homem em modo suave, ou seja, através da imunização da consciência humana em relação à culpa.

Existem exemplos concretos da despersonalização freudiana do ser humano através do marxismo cultural ou politicamente correcto. O aborto livre e pago pelo Estado, é um dos exemplos. A despersonalização do Homem passa pela insensibilização ética do cidadão; esta política é intencional e propositada. A ética de Aristóteles ou a ética cristã são mandadas às malvas e pretende-se retirar a culpa ao ser humano — desculpabilizá-lo em relação aos mais horrendos actos. Porém, a estratégia política e cultural de esquerda não está a dar resultado, porque não pode dar sem que se transforme o cidadão vulgar em um sociopata.

O cardeal Ratzinger denuncia assim a política freudiana/marxista cultural moderna: « A culpa é necessária ao Homem, assim como a dor física que significa a existência de distúrbios no normal funcionamento do corpo. Quem não é capaz de perceber a culpa está espiritualmente doente — é um “cadáver vivo”… A não percepção da culpa, a queda no silêncio da consciência em tantas áreas, é uma progressiva, maior e mais perigosa doença da alma do que a culpa reconhecida como tal. Aquele que já não se dá conta de que matar é um pecado, caiu mais do que aquele que ainda reconhece a vergonha nos seus actos. »

A liberdade do Homem é exactamente o contrário daquilo que é apregoado pelo marxismo cultural. Só com os actos repetidos através da vontade e em conformidade com a consciência e a razão, o Homem pode ser livre. A ideia modernista e politicamente correcta de que a liberdade humana tem como causa os actos livres do Homem, leva a uma noção de liberdade profundamente confusa, que em última instância atribuiu maior liberdade ao sociopata que não conhece limites para a sua acção. A noção segundo a qual a liberdade humana tem como causa os actos livres do Homem é equivalente à noção de que a causa da existência do olho humano é a visão. Um absurdo.

Hoje, ao ligarmos qualquer estação de rádio, levamos sempre com um psiquiatra de serviço — por exemplo, Júlio Machado Vaz na antena 1 da RDP, ou Daniel Sampaio do RCP, etc. Predomina a ideia errada de que, em um mundo moderno e progressista, a linguagem da terapia da psiquiatria ou da psicologia clínica substituíram a linguagem da moralidade e da religião. Isto significa a aceitação cultural do Homem-robô de Freud em detrimento da liberdade humana que decorre da vontade escrutinada pela razão.

A mentalidade terapêutica do prestidigitador pisco-analista modernista recusa o pecado e atribui a culpa a um mecanismo de origem num qualquer software cerebral que pode ser mudado. Em vez de nos libertar da culpa e do pecado — na medida em que mantém a consciência em um estado de ignorância invencível —, a recusa pós-freudiana e pós-modernista da culpa, que é de facto decorrente da falha moral ou pecado, só serve para aumentar a nossa angústia e infelicidade.

A terapia e a medicina não podem curar o nosso mais profundo distúrbio que é o problema da culpa e do pecado.

2 comentários »

  1. […] via perspectivas. […]

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    Pingback por Citando – hora absurda 7 — Segunda-feira, 19 Abril 2010 @ 5:53 pm | Responder

  2. Magnífico…..parabéns!!!

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    Comentar por Vallone — Sábado, 24 Abril 2010 @ 10:33 pm | Responder


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