perspectivas

Sábado, 17 Abril 2010

A Teoria das Descrições de Bertrand Russell

Quando falamos de ateísmo, não é de Richard Dawkins ou de Christopher Hitchens que devemos tomar nota. Os livros e artigos de ambos, e incluindo Sam Harris e Daniel Dennett, são um conjunto de narrativas com muito pouca lógica. Os argumentos destes quatro apelam mais ao instinto e à emoção primária — na esteira de Nietzsche — do que à racionalidade.

Russell

Talvez o ateu mais sólido de todos os tempos na sua argumentação tenha sido Bertrand Russell. A sua argumentação merece respeito, ao contrário dos outros cinco acima referidos. Porém, muitas vezes Russell enviesa o seu argumentário. Dou um exemplo da sua Teoria das Descrições.

Vejamos a seguinte proposição: “O unicórnio não existe”. Diz Russell que se lhe perguntarem: “O que é que não existe ?”, a resposta dele seria: “É o unicórnio.”

Segundo Russell, através deste tipo de sintaxe podemos intuir que existe uma coisa que não existe (o unicórnio) porque falamos do unicórnio usando o verbo ser (é o unicórnio). Diz Russell que a ideia de unicórnio intuída através do verbo ser não corresponde à sua existência real. Então — continua Russell — seria antes correcto dizer que

{Não há uma entidade U tal que [X = um animal com um corno e com asas] seja verdadeira quando X = U mas não de outro modo}.

Diz Russell que através desta fórmula, a ideia latente e subjacente segundo a qual “o unicórnio existe” — quando, segundo Russell, não existe — desaparece. Naturalmente que Russell substitui a constante U pela constante D de Deus.

O problema é que Russell parte de um primeiro enviesamento, quando diz que « Não há uma entidade U ». A ciência positivista ou o empirismo científico não pode provar que uma coisa não existe, porque aquela depende da observação e da indução. Se Russell parte do princípio de que o unicórnio não existe, esse princípio é apenas a sua opinião.

É verdade que nunca ninguém, em espírito são, viu um unicórnio; mas também é verdade que só há pouco tempo foi descoberto o planeta Plutão — e ele existia antes de alguém o ter visto através dos telescópios modernos. Antes da descoberta de Plutão, Russell diria que este planeta não existe quando na verdade existia. O que a ciência fez foi provar que Plutão existe, e não que esse planeta ou outro qualquer não existe, porque não o pode fazer. Se eu disser que existe um planeta XPTO, a única coisa que a ciência pode dizer é que não o descobriu — e não que esse planeta não existe.

Russell mistura nesta teoria o empirismo (indução) com a lógica-matemática (dedução) e é aqui que está o segundo enviesamento da teoria. Quando Russell parte do princípio de que “alguma coisa não existe”, este princípio é empírico e baseado no conhecimento actual da ciência ou do conhecimento empírico; quando Russell desenvolve a equação, entra na lógica matemática — coloca a indução e a dedução em uma mesma proposição, sendo que parte de um princípio empírico.

O enviesamento de Russell faz-me concordar com Platão, que distinguia o “entendimento” do “conhecimento”. O “entendimento” era para ele a ciência empírica; o “conhecimento” era sabedoria adquirida através da lógica e da dedução. Platão sabia que não podia misturar as duas coisas sem que o empirismo prevalecesse no raciocínio de uma proposição — o empirismo é o “caminho de acção mínima” da condição humana de conhecer, e por isso prevalece sem grande esforço sobre outras formas de conhecimento.

Além do mais, Russell tenta misturar “epistemologia” — que é o estudo daquilo que pensamos sobre a realidade em um dado momento — com “ontologia” — cujo objecto central é aquilo que a realidade é. A Teoria das Descrições de Russell é exclusivamente epistemológica, embora pretenda englobar os dois conceitos.

E assim vemos como um eminente matemático também “puxa a brasa à sua sardinha”, quando se trata de “fugir com o rabo à seringa”.

(Bom fim-de-semana)

8 comentários »

  1. Embora um grande lógico (ainda que Whitehead o superasse por muito), Russell era um completo inapto na Filosofia propriamente dita.

    A surra que ele toma do padre Copleston (um neotomista de médio escalão) no famoso debate sobre Deus é coisa das mais constrangedoras.

    Russell simplesmente não conseguia pensar fora dos esquematismos da lógica. O seu cérebro operava estritamente por formalidades lingüísticas. Era um tipo saturniano, lânguido, com voz de bruxa, um espírito pequeno cujas operações dianoéticas eram rarefeitas como a maior parte dos alardes modernos.

    No tocante a Platão, esse senhor era absolutamente ignorante, de uma ignorância dolorosa. Nunca o entendeu, nem o poderia conseguir.

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    Comentar por Renan — Sábado, 17 Abril 2010 @ 6:17 am | Responder

  2. «Se Russell parte do princípio de que o unicórnio não existe, esse princípio é apenas a sua opinião.»
    Exactamente! Plenamente de acordo, não se pode demonstrar a não-existência de algo e é aí que os ateístas falham ao asseverar a não-existência de Deus. Podemos considerar dois conjuntos, «tudo o que existe» e «tudo o resto que desconhecemos se existe». Se desconheço que existe, também desconheço que não existe. «Não existe» é uma afirmação que não se pode provar. Apenas há pessoas que ignoram o conjunto «tudo o resto que desconhecemos se existe», e é como se ele «não existisse» para elas.

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    Comentar por Henrique Sousa — Sábado, 17 Abril 2010 @ 10:08 am | Responder

  3. @ Henrique: nem mais!

    Porém, há um detalhe. Muito daquilo que nós “empiricamente desconhecemos se existe” pode ser constatado ou conjecturado através da pura lógica. Acontece que para o empirista a lógica só faz sentido se associada a uma observação in loco. Por exemplo, a linguagem do formalismo matemático nada tem a ver com a observação empírica mas é imanente — pertence a uma dimensão imanente da realidade (“imanente” no sentido tradicional do termo ou, no que vai dar ao mesmo, no sentido que a filosofia búdica lhe dá).

    Por exemplo, o conceito de “função ondulatória quântica” é imanente na medida em que não se pode considerá-la como sendo “matéria”. E esta dimensão imanente foi constatada pelo formalismo matemático antes de ser comprovada por instrumentos de observação empírica que corroboraram a sua realidade.

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    Comentar por O. Braga — Sábado, 17 Abril 2010 @ 12:16 pm | Responder

  4. Posso estar fazendo confusão nas áreas de conhecimento (ou entendimento) das coisas, mas se tenho a sentença: “todo corpo é uma extensão no espaço”, não posso, em seguida afirmar, “portanto, NÃO EXISTE corpo sem extensão”? Não entendo nada da mecânica quantica, mas talvez ela responda a essa minha pergunta, não sei…

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    Comentar por Eduardo — Sábado, 17 Abril 2010 @ 2:11 pm | Responder

    • Por incrível que possa parecer, a noção de “corpo como extensão no espaço” é da cosmologia de Platão, embora este fosse buscar o conceito ao orfismo através de Pitágoras. Para Platão, o tempo é a “imagem móvel da eternidade imóvel”. À luz da quântica, estes conceitos de Platão fazem algum sentido.

      Entende-se o corpo como matéria. Entende-se matéria como o conjunto de partículas elementares longevas (electrões, protões, neutrões, etc.), que por serem partículas, têm massa. Porém, as partículas não têm um tamanho fixo porque a gravidade modifica o espaço e o tempo.

      Tal como Platão dizia, e segundo a quântica, o espaço vazio (ou vácuo) não é o NADA. A ausência de alguma coisa está ausente do universo. Mesmo quando a existência de partículas elementares longevas é rarefeita, o espaço é uma turbulência de mini buracos negros (singularidades) que aparecem e desaparecem constantemente (virtuais) contendo massa positiva ou negativa.

      Através dos mini buracos negros presentes na matéria (“espuma quântica”; ver John Wheeler), existe um fluxo contínuo e nos dois sentidos (fluxo biunívoco) de ondas quânticas entre o o nosso universo e o Além-espaço-tempo.

      As partículas subnucleares são apenas “ondulações” no mar turbulento do espaço — o movimento de um mini buraco negro “real” (não-virtual) gera um padrão vibratório — ou “rasto” — que nós detectamos como uma partícula subnuclear. Os átomos são formados por interacções entre padrões vibratórios — os átomos interagem formando moléculas, que interagem por sua vez e que nós detectamos como sendo os nossos corpos físicos ou os corpos em geral.

      Portanto, não pode existir uma distinção entre “corpo” e “espaço”. O corpo que nós vemos como tal não é senão o espaço organizado.

      Se a proposição “todo corpo é uma extensão no espaço” implica a não-distinção essencial entre espaço e corpo, está correcta. E neste sentido, também é verdade que “não existe corpo sem extensão”, na medida em que se considere a extensão como a continuidade espacial e material inerente a todo o corpo.

      Os físicos quânticos e os matemáticos sabem que existe o Além-espaço-tempo, embora não sejam capazes de descrever aquilo que se encontra no Além-espaço-tempo — o que significa que os cientistas quânticos conseguem descrever os limites do espaço-tempo. Eles sabem que existe algo mais do que o espaço-tempo, mas não sabem o que é, porque — segundo os cientistas quânticos — o Além-espaço-tempo é não-físico e incomensurável.

      Na singularidade (os buracos negros e os mini buracos negros da espuma quântica) todas as leis da física entram em colapso. Mas aquilo que se encontra Além-espaço-tempo encontra-se dentro de tudo — e continuo a citar eminentes cientistas quânticos, como John Wheeler ou Bernard D’Espagnat. Segundo a filosofia quântica, o Além-espaço-tempo é “consciência pura” (que é coisa diferente de “pensamento”) que se liga a nós e nos influencia no Aquém-espaço-tempo ou no nosso universo espaço-temporal, através do fluxo contínuo e biunívoco de ondas quânticas

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      Comentar por O. Braga — Domingo, 18 Abril 2010 @ 12:05 am | Responder

  5. Se me dão licença, @ Eduardo: reconheço que esse NÃO EXISTE que refere no exemplo é diferente da não-existência que aqui se trata, ele apenas significa que corpo e extensão “existem” juntos. Não afirma a não-existência de algo, nem do corpo nem da extensão. No exemplo que dá não se afirma uma não-existência. E, aliás, esta pode ser afirmada, por exemplo, eu posso dizer que «o unicórnio não existe». Mas não consigo é provar essa não-existência.

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    Comentar por Henrique Sousa — Domingo, 18 Abril 2010 @ 12:24 pm | Responder

    • @ Henrique e Eduardo

      Para mim era tão óbvio aquilo que o Henrique escreveu que nem coloquei a hipótese do comentário do Eduardo. Até certo ponto concordo com Russell sobre as “ratoeiras” da linguagem.

      No caso concreto apresentado pelo Eduardo, em vez de “NÃO EXISTE corpo sem extensão”, poderia dizer-se que “EXISTE sempre corpo com extensão”. Portanto, a proposição não nega uma existência mas antes enfatiza uma existência. Quando eu digo: “Não existe a possibilidade da lua ser uma estrela”, estou a dizer que a lua existe como um planeta e não como uma estrela, porque a observação empírica assim o demonstrou. O verbo Existir é aqui equivalente ao verbo Ser — “o corpo não é separado da extensão”.

      Porém, em tudo aquilo a que a ciência chegou a uma conclusão de existência pode ser colocado em causa, o que significa que tudo aquilo a que a ciência provou que existe pode deixar de existir. Por exemplo, o primeiro princípio da termodinâmica.

      O primeiro axioma da termodinâmica diz respeito à conservação da energia em um sistema fechado, e a ciência empírica considera o próprio universo como um sistema fechado. Ora, o conceito de espuma quântica — ver no Google : “quantum foam John Wheeler” — implica a noção do fluxo contínuo de ondas quânticas — que não são matéria porque não têm massa — entre o Além-espaço-tempo e o nosso universo, o que coloca em causa o princípio da conservação da energia em um sistema fechado. Portanto, nem aquilo que a ciência diz que existe pode ser levado à certeza absoluta da existência.

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      Comentar por O. Braga — Domingo, 18 Abril 2010 @ 4:21 pm | Responder

  6. @Henrique, pois é, eu pensei isso depois que escrevi… Mas resolvi deixar apenas pela resposta, que valeu a pena!

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    Comentar por Eduardo — Terça-feira, 20 Abril 2010 @ 1:35 am | Responder


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