perspectivas

Sexta-feira, 2 Abril 2010

O desespero do materialismo

Desde meados dos anos 70 do século passado, mas acentuando-se sobremaneira de há vinte anos para cá, temos vindo a assistir a uma actividade militante por parte de personalidades neo-ateístas oriundas principalmente do mundo académico ― tipo Richard Dawkins, Christopher Hitchens, Daniel Dennett e Sam Harris, Peter Singer, etc. ― e apoiadas logística e financeiramente por um determinado tipo de elite plutocrata sem Pátria. Os neo-ateístas não se limitam a divorciar-se da religião relegando esta para a vida privada de cada um, como faziam os seus predecessores ateístas; o neo-ateísmo organizou-se ele próprio como uma forma de religião negativa que lançou uma espécie de Jihad contra as religiões positivas.

Qual a razão desta nova e crescente ansiedade militante e preocupação ateísta? Se a religião (entendida como religião transcendente clássica) é, segundo o entendimento progressista, “um fenómeno cultural retrógrado e que pertence a um passado negativo que natural e inexoravelmente será substituído por um futuro perfeito e ateísta”, qual a razão de tanta preocupação com a religião? As respostas as estas perguntas podem ser encontradas no facto essa elite saber já que a ciência ― ao contrário do que o Sr. Nuno Nabais proclamou aos microfones do RCP ― não destruiu nem destrói o cristianismo. Não podemos confundir as religiões políticas (como são os casos do positivismo, marxismo, etc. ) com a ciência que parece ter “as costas largas” para aturar e servir de muleta às religiões políticas. Desde Einstein ― quando este se colocou na posição do observador que faz parte da realidade observada ― que o positivismo não é o método único da ciência.

Aquilo a que chamamos filosofia contém dois elementos distintos entre si: por um lado, existem as questões científicas e/ou lógicas que genericamente não merecem contestação geral; por outro lado existem questões onde a prova objectiva, no sentido positivista, não existe, mas onde funciona a lógica dedutiva ― como a que existe no formalismo matemático ―, e a intuição intersubjectiva, como são os casos da ética, da moral, e da religião.

Esta intuição intersubjectiva, que por ser intuição é racional (contrariamente ao instinto) pertence à esfera extra-cientifica se entendermos a ciência como consequência do método positivista. Porém, se equacionarmos a ciência no sentido moderno actual, através dos conceitos de formalismo matemático e da quântica, ela deixa de ser extra-científica para passar a ser ― mesmo para os cientistas mais cépticos como Roland Omnès ― para-científica, e rapidamente nos apercebemos da razão do desespero de gente como Richard Dawkins, Christopher Hitchens, Daniel Dennett e Sam Harris. A visão materialista do mundo está radicalmente posta em causa ― e daí o seu desespero. É este desespero que os faz actuar negativamente; eles sabem já aquilo que a maioria ainda não suspeita: a mundividência materialista, que é o suporte tradicional do ateísmo, está ferida de morte.

A ciência Física moderna, se tivesse que optar por dar razão ou a Parménides ou a Epicuro, optaria pelo primeiro sem hesitar. Este é o grande problema do neo-ateísmo. A partir do marxismo acentuou-se a visão filosófica epicurista limitada a este planeta, e no planeta ao Homem. Desde Copérnico que se tornou evidente que o Homem não tem a importância cósmica exclusivista e antropocêntrica que anteriormente lhe era atribuída pelos movimentos gnósticos. E na medida em que, por exemplo, Karl Marx não compreendeu este facto, não tem o direito de chamar “cientifica” à sua filosofia. Concluímos, portanto, que todas as teorias antropocêntricas (positivismo, marxismo, neoliberalismo de Hayek, o irracionalismo do Nabais, etc.) não podem já ser consideradas como “científicas”, o que não significa que a ciência seja sinónimo de uma postura anti-humanista. O Homem passou agora a ser o “observador” na posição de Einstein e não pode já ignorar as evidências trazidas pela nova ciência.

Portanto, confundir “ciência” com as “religiões políticas” (terrenas, por sua própria natureza), conforme o fez o Sr. Nabais, é de uma irracionalidade insuportável.

Para além dos dogmas e dos símbolos das religiões universais — que pretendem transmitir aquilo que é intransmissível por meio da vulgar linguagem humana — , a essência da religião é a procura da união do indivíduo, na sua condição de parte, com o Todo. É essa a condição da fé religiosa. Ao Todo, as religiões chamam Deus, Iavhé, Nirvana, Alá, etc. Porém, em todas elas existe a dimensão imanente e a dimensão transcendente ― todas elas fazem a distinção entre estas duas dimensões. Por exemplo, o Nirvana é a transcendência no budismo, enquanto o Samsara é a imanência. O Nirvana, cuja realidade constitui a Quarta Verdade do budismo e do qual, em princípio, nada se pode dizer (constitui o equivalente do “Mais Além” quântico) excepto que é “a libertação de todo o sofrimento” ― sem ser, no entanto, um “Nada” ― é o equivalente da transcendência cristã de Deus. Tudo o que Buda admite dizer aos seus discípulos é que há “um não-nascido, um não-tornado, um não-feito, um não-causado” ― ou seja, Deus. Se procurarmos nas outras religiões, sejam o islamismo, o judaísmo, o hinduísmo, etc., encontramos a mesma essência.

Ora, a filosofia quântica, que parte das constatações científicas mais recentes deduzidas pelo formalismo matemático acerca da realidade objectiva (epistemologia), chegou à conclusão de que a Física quântica só é uma novidade na medida e no sentido em que demonstrou conceitos ontológicos tão antigos quanto o próprio Homem (ontologia), e que sempre existiram na realidade da subjectividade e intersubjectividade humanas. O que a Física quântica nos diz é o seguinte: muitos dos conceitos religiosos imemoriais estão correctos.

Conceitos da Física quântica que são trabalhados pela filosofia quântica, como os que se seguem:

  • princípio da incerteza;
  • complementaridade;
  • pré-matéria (função ondulatória quântica)
  • a consciência existindo antes da matéria e como condição da matéria
  • abolição do sentido tradicional de sequências temporais (factor tempo);
  • sequências temporais invertidas (Einstein)
  • A probabilidade espaço-temporal ― as ondas quânticas como condição da probabilidade, e a Sobreposição como as ondas quânticas indicadoras de todos os acontecimentos possíveis (Everett)
  • distinção entre consciência e pensamento
  • ondas de probabilidade ― a conexão entre a consciência e o mundo físico através do pensamento que utiliza as ondas quânticas que existem lá fora no mundo
  • auto-referência
  • intensidade das funções ondulatórias quânticas
  • graus de consciência
  • a constante cosmológica do universo em 10^120 (Gierer) que estabelece o limite de todas as operações possíveis no universo (limite do conhecimento)
  • o salto quântico ou o colapso da função ondulatória quântica ― intuição súbita ou revelação súbita ― o cone de luz de Minkowski
  • o fim do conceito tradicional de “potencial” ― primeira lei da termodinâmica ― (David Bohm)
  • o fim do conceito tradicional de entropia ― segunda lei da termodinâmica
  • o fim do princípio da separabilidade ou da desigualdade de Bell (John Bell)
  • estado de conexão quântica
  • a Singularidade (buracos negros) e a noção quântica do “Mais Além”, em principio, inacessível e do qual nada se pode dizer
  • os túneis de minhoca (John Wheeler)
  • a espuma quântica (Wheeler)
  • o conceito de “fine tunning” ou refinamento (Everett)
  • matéria, anti-matéria ― positrões, electrões e fotões

e outros conceitos de que não me lembro agora e que nos dizem clara e inequivocamente uma coisa muito simples: o materialismo está morto (e com ele, o ateísmo).

Votos de uma Santa Páscoa !

10 comentários »

  1. Uma santa Páscoa! Consegui arranjar o livrinho de Eric Voegelin, «As religiões Políticas» na Wook.pt.

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    Comentar por Henrique — Sábado, 3 Abril 2010 @ 8:47 am | Responder

  2. A wook.pt é, salvo erro, da Porto Editora e tem o livro à venda. Pedi-o e chegou poucos dias depois por estafeta. Paguei 12,50, mais coisa menos coisa.
    Boa Páscoa ainda!

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    Comentar por Henrique — Domingo, 4 Abril 2010 @ 10:49 pm | Responder

    • A seguir a esse, tens que ler, do mesmo autor, “A Nova Ciência da Política”.

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      Comentar por O. Braga — Domingo, 4 Abril 2010 @ 11:23 pm | Responder

  3. Encomendei numa livraria aqui em Aveiro o livro “As Religiões Políticas”, portanto estou à espera dele, enquanto isso comprei um livro bem interessante com o título de “Portugal a Missão que falta Cumprir”, escrito pelo Eduardo Amarante e pelo Rainer Daehnhardt.
    Continuação de boa Páscoa para todos.

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    Comentar por Luis Ribeiro — Segunda-feira, 5 Abril 2010 @ 11:44 am | Responder

  4. Nem de prepósito, ligaram-me hoje da parte da tarde da livraria a comunicarem-me que o meu livrinho do Eric Voegelin havia chegado, é óbvio fui logo levanta-lo custou 9,85 Euros. Li umas poucas páginas no carro , o historiador Francês Dominique Venner escreveu precisamente sobre isto no seu livro “O Século de 1914”, aliás este livro, que o li este Verão recomendo-o vivamente a quem se interessar precisamente sobre este tema, as religiões políticas, Comunismo, Nazismo, Facismo, Liberalismo, Neoliberalismo, e comprender os dias que vivemos, e como chagamos aqui, o livro é realmente soberbo.

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    Comentar por Luis Ribeiro — Segunda-feira, 5 Abril 2010 @ 8:30 pm | Responder

  5. Desafio:

    Provar, com meios e métodos científicos e totalmente empíricos, que a cor do vento é transparente.

    Regra importante:

    A prova deve concidir 102% com a Teoria da Evolução de Darwin, e não se basear em filosofias, ideologias e mitos religiosos obscurantistas.

    Prêmio: £200

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    Comentar por eclypse — Terça-feira, 6 Abril 2010 @ 1:01 am | Responder

  6. @ Eclypse

    Dou-lhe 1.000 € pela solução da charada. Vou mais longe: 10.000 €.

    você parte do princípio de que a lógica, que sustenta a filosofia, não serve para nada; e por isso,a ciência, na sua opinião, e na medida em que esta também se baseia na lógica-matemática, também não deve servir para nada. A ciência já não é só empirismo nem o método positivista. Se você não sabe, pergunte: faria melhor figura.

    Entre a ciência e a teologia existe uma terra-de-ninguém que pertence à filosofia. Confundir filosofia com teologia só pode ser brincadeira.

    Aquilo que é transparente não tem cor. Aquilo que é transparente não é translúcido. Um vidro é translúcido e não é transparente.

    Para demonstramos um coisa qualquer temos que partir de um princípio (Aristóteles). Se o princípio estiver errado, você não ganha os 10.000 €.

    O ar só é transparente porque os nossos olhos assim o vêem. Assim como a rã só detecta os movimentos que correm nas suas redondezas mais imediatas, assim o ser humano tem a limitação dos seus sentidos (percepção). Portanto, só seria correcto dizer que o ar é transparente em função da estrutura e funcionamento dos nossos olhos, o que seria uma atitude antropocêntrica — uma atitude que coloca o ser humano e a sua realidade no centro de todo o universo. Portanto, o ar não é transparente: parece transparente. E as aparências aparudem.

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    Comentar por O. Braga — Terça-feira, 6 Abril 2010 @ 2:37 pm | Responder

  7. Acalme-se O. Braga, eu estava só a brincar! Geralmente os ateus só acreditam em coisas que possam ser provadas empiricamente e que tenham a ver com a Evolução, e chamam de religião e teologia como obscurantismo, etc.

    Pode acreditar: ri muito quando postei o desafio.

    Grande abraço!

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    Comentar por eclypse — Terça-feira, 6 Abril 2010 @ 3:29 pm | Responder

  8. O. Braga,

    Quando dizemos aos ateus mais enfezados que a filosofia fornece evidências muito fortes à favor da Existência de Deus, eles fazer um ar de zombaria e dizem: “Nããão, a Evolução criou as coisas por acaso, então Deus não existe”.

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    Comentar por eclypse — Terça-feira, 6 Abril 2010 @ 3:35 pm | Responder


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