perspectivas

Sexta-feira, 2 Abril 2010

A douta ignorância vs. a ignorância douta (1)

Segundo Nuno Nabais, professor universitário de filosofia, a “direita” assenta em duas grandes teses:

  1. A crença de que a natureza dispõe dos mecanismos para uma boa resolução de todos os conflitos, ficando tal resolução entregue aos interesses egoístas dos indivíduos ou conjunto de indivíduos. Esta é a tese fisiocrática, típica do chamado darwinismo social.
  2. Uma grande desconfiança em relação aos mecanismos de consulta popular e à bondade da vontade popular. O melhor governo é o governo dos mais sábios, mais competentes ou, numa palavra, dos iluminados.

Desde já, aconselho o Sr. Nuno Nabais a frequentar o curso online de filosofia do professor Olavo de Carvalho.

Acontece que o Sr. Nuno Nabais diz barbaridades destas nos me®dia, e investido de uma autoridade de direito. Por acaso encontrei este blogue que, embora de modo timorato, denuncia a irracionalidade de um “professor” universitário de filosofia.

Quais foram, desde Darwin, os teóricos mais influenciados pelo darwinismo enquanto concepção do mundo (Weltanschauung)? Bentham, que foi um dos precursores do socialismo utilitarista e influenciou o pensamento de Karl Marx (outro darwinista, juntamente com Engels) e sucessores ideológicos destes, evidentemente. A Escola de Frankfurt e o marxismo cultural que se estendeu até Habermas. Nietzsche, e na esteira deste, o existencialismo do século XX (com excepção de Jaspers), incluindo Heidegger e os existencialistas franceses.
Só a partir de meados do século XX, surgiu Ayn Rand com uma teoria darwinista com tantos buracos lógicos que nem se pode chamar ao Objectivismo de “teoria”. E finalmente Hayek com uma teoria que mistura o pessimismo e o cepticismo de Hume com o optimismo de Kant. Rand e Hayek são a “direita” do Sr. Nabais. Note-se que não podemos sequer encontrar resquícios de darwinismo social no próprio Von Mises! Apenas em Hayek ― no incorrectamente chamado “neoliberalismo” que mete tudo no mesmo saco ― acontece a incorporação do evolucionismo darwinista aplicado à vida social.

Concluímos que em termos estritamente teoréticos, o darwinismo como uma mundividência que resultou no actual neodarwinismo, foi assimilado mais pela “esquerda” (Bentham os utilitaristas ingleses, Karl Marx e Engels, Escola de Frankfurt até Habermas, Gramsci, Lukacs, os niilistas desde Nietzsche a Heidegger e os existencialistas franceses em geral) do que pela “direita” (Hayek e Rand) — assim como Aristóteles foi utilizado, de maneiras diferentes, pela escolástica medieval e pelos filósofos do renascimento.
Ademais o Sr. Nabais resume o conceito de “direita” aos aspectos economicistas das teorias, não considerando aquilo que está na base de qualquer teoria, ou seja, a concepção do mundo que inclui o Homem. Coisa diferente de “darwinismo social” é a justiça comutativa (e a distributiva) que nos chegou a partir de Aristóteles e que inclui o conceito de equidade (princípio da equidade). Naturalmente que para o Sr. Nabais, Aristóteles já naquele tempo já seria de esquerda… 🙂

E depois, coloca-se a questão de saber se o nazismo, que tinha uma fortíssima componente ideológica darwinista-social, era de esquerda ou de direita. É claro que o nazismo incorporou aspectos da esquerda e da direita do seu tempo, mas não podemos dizer que o nazismo era de direita. Os Wandervögel que estiveram na base da construção ideológica nazi, eram ecologistas de esquerda. A colectivização da economia alemã, por parte dos nazis ― e ao contrário do que acontece na Itália fascista ―, não correspondia propriamente ao ideário liberal de Adam Smith. O nazismo foi um sincretismo, um híbrido político de esquerda e de direita produto do seu tempo, tal como o socratinismo e/ou a terceira via socialista são hoje um sincretismo. Todos os sincretismos (a tentativa de união dos contrários passando por cima da lógica) são uma aberração, com as graves consequências para a humanidade que se verificaram nos séculos XIX e XX, quando tentaram aplicar a dialéctica hegeliana à intersubjectividade humana, nomeadamente porque violam o princípio da identidade e da não-contradição ― ou seja, “uma coisa não pode ser e não-ser ao mesmo tempo”.

Uma característica do darwinismo-social é o eugenismo. Quem defendeu e defende hoje o eugenismo, o infanticídio de crianças (Holanda), o abortismo em geral e o aborto eugénico em particular? É a direita ideológica?!! Será que a direita ideológica se resume a meia dúzia de plutocratas americanos, como Rockefeller, Soros ou Bill Gates, nada preocupados com a ideologia mas tão só com os seus lucros? E o eugenista Peter Singer é de direita? E o eugenista Richard Dawkins é de direita? E o bissexual e eugenista Christopher Hitchens é de direita? É incompreensível como um professor universitário de filosofia escreve uma coisa dessas…

Portanto, é ponto assente que o darwinismo influenciou ideologicamente muitíssimo mais a chamada “esquerda” do que a dita “direita”.

Enquanto que o darwinismo marcou a esquerda no seu todo ― “esquerda” aqui entendida como “o conjunto das religiões políticas emergentes do movimento gnóstico moderno a partir do Iluminismo e que está na origem da mente revolucionária e da fé metastática; é esta a definição de “esquerda” ―, a direita dividiu-se em “direita gnóstica” e “direita conservadora”.

A direita gnóstica é aquela que se coloca voluntariamente (acção)na lógica da dialéctica marxista aplicada à História, e portanto, faz o jogo político da esquerda. A direita conservadora é aquela que se coloca fora dessa lógica dialéctica política (resistência passiva), mesmo que seja involuntariamente arrastada (pró-acção), a espaços, para dentro do jogo dialéctico pela esquerda.

O ponto segundo do professor de filosofia é realmente inacreditável ― como dizia o humorista brasileiro José de Vasconcellos: “Você, para burro só lhe faltam as penas…”.

Na lei recente do “casamento” gay vimos o medo da esquerda em relação ao referendo que não se realizou. Nos dois referendos do aborto (que poderiam ser três ou quatro ou mais até que se chegasse à vontade dos iluminados de esquerda), a direita nunca se opôs ao referendo ― aliás, veio da direita a vontade política do primeiro referendo do aborto que deu em NÃO, porque a esquerda queria impôr a lei do aborto sem consulta popular. E vem agora um cabrão qualquer, munido de um qualquer alvará de inteligente, dizer barbaridades destas?! Grande cavalgadura!

Para finalizar este postal (que continua numa segunda parte), cito o blogger Aires Almeida:

« Mas há ainda outras afirmações de Nuno Nabais que surpreendem, nomeadamente que na história da filosofia quase todos os filósofos que pensaram sobre estas questões são de direita, a começar por Sócrates, sendo os de esquerda excepções. As excepções referidas são Espinosa, Rousseau, Russell, Deleuze e Derrida. Será que se pode concluir, a partir das teses anteriores, que Montesquieu, Kant, Marx, Mill, Popper, Rawls e tantos outros são de direita? »

É o que eu digo: para o Nabais, Parménides era de direita e Heraclito de esquerda. Aristóteles fazia parte do grupo parlamentar do Partido Popular no parlamento europeu. Heraclito era militante do bloco de esquerda. 🙂

Naturalmente que o Aires Almeida disse implicitamente a verdade: o Nabais não é filósofo coisa nenhuma. O Nabais é um indivíduo com uma agenda política (religião política) que se sobrepõe à lógica que “respeita termos ou conceitos e não os estados psíquicos” (Guilherme de Occam). Um filósofo, por mais ideologicamente comprometido que esteja, respeita a lógica. Em contraponto, o Sr. Nabais transforma a lógica numa egologia.

É uma vergonha que o Rádio Clube Português, através de um tal me®diático de seu nome “Aurélio” que lá trabalha, se preste a um serviço ideológico sem um contraditório.

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