perspectivas

Quinta-feira, 1 Abril 2010

A corrupção da democracia

Hannah Arendt distingue o sistema totalitário (nazismo, comunismo) do sistema autoritarista (Salazarismo, Pinochet, ditadura militar no Brasil, etc.). O sistema totalitário é por ela comparado a uma cebola com as suas diversas camadas a partir do centro onde funciona o comando do sistema.
O sistema autoritarista é por ela comparado a uma pirâmide social em cujo vértice se encontra o escol ou o ditador, cuja legitimidade de poder é outorgado por uma realidade que transcende a própria sociedade.

Julius Evola vê a coisa de outra maneira. Ele distingue entre o sistema totalitário e o sistema orgânico. O sistema totalitário de Evola é o sistema autoritarista de Arendt ― com sua pirâmide social que, segundo Evola, coarcta qualquer grau de liberdade e limita a autonomia dos seus membros ―, e o sistema totalitário Arendt é, sem tirar nem pôr, o sistema orgânico de Evola.

Evola defende o sistema orgânico ― ou seja, o sistema totalitário segundo Arendt ― como o seu sistema preferido. Diz ele que “o sistema orgânico tem um centro” (o “centro da cebola” de Hannah Arendt), e este centro “é uma ideia que dá forma aos vários domínios da vida de um modo eficaz (…) todas as partes do sistema, na sua relativa autonomia, desempenham a sua função orgânica e desfrutam de uma ligação íntima com o Todo”.

O problema que eu vejo no sistema de Evola é que ninguém está livre de ser o cu do seu sistema orgânico. Bem sei que em democracia também existe o cu do sistema democrático, mas pelo menos o cu democrático tem direito a protestar em relação ao tipo de alimentação do organismo político.

Porém, há uma coisa em que Evola tem razão: o sistema democrático, deixado a si próprio, corrompe e é corrompido porque está sujeito ao Diktat da opinião pública e da sociedade de massas que alimenta insaciavelmente a política da mentira organizada. Ortega y Gasset bateu na mesma tecla e estava longe de seguir as ideias de Evola.

Porém, existe uma forma de evitar a corrupção da democracia: a criação de um “altar” ou de um “santuário” onde determinados valores (algumas das verdades intemporais ou “princípios primeiros” descobertos pela razão humana) são depositados e sacralizados pela sociedade. E esses valores devem ser necessariamente axiomáticos e não concebidos pelo Homem, e devem ser o compromisso entre a verdade da razão (que pertence à ciência e à filosofia, e que é, por sua natureza própria, tirânica porque impõe uma verdade axiomática que não é passível de ser colocada em causa através da discussão política), a verdade de facto (que pertence à História, e que é tirânica porque não pode ser mudada pelos protagonistas políticos) e a opinião do cidadão (que pertence à política como fórum de liberdade).

Entre estes três factores, a sociedade democrática deve gizar o seu “santuário” onde serão sacralizados esses valores axiomáticos, por forma a que seja possível manter a democracia e a liberdade, e evitar o perigo sempre eminente de corrupção da sociedade.

1 Comentário »

  1. Tem toda a razão.
    Karl Popper, que faz uma extensão da sua teoria da ciência à política, a democracia é o único sistema aceitável porque permite a falsificação das más teses, isto é, só com democracia podemos afastar a má política.
    O que sistema Popper não resolve é o de como possibilitar a implementação de boas políticas. Dito de outro modo, se em democracia só se praticarem más políticas, a tese da falsicabilidade não serve para nada.
    No actual estado do regime português estamos assim, só se praticam más políticas, e de nada nos serve afastar o Sócrates quando a alternativa é o Coelho, igualmente com prática medíocre.
    Se se perguntar ao Sócrates e ao Coelho qual é o seu projecto de sociedade, que visão têm do homem, as respostas andarão à volta do problema do TGV Lisboa-Madrid, do orçamento do estado, temas que nas suas pobres cabecinhas são as ferramentas da actualidade para a libertação da sociedade civil e do sujeito. Aos dois sujeitos falta estrutura, conhecimento, valores e transcendência.
    As ideias de Popper são muto válidas, mas é necessário de facto o complemento do altar de valores que refere no seu texto. Só assim nos livramos da cáfila que tem assaltado o poder.
    Salvador Rebelo de Andrade

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    Comentar por Salvador Rebelo de Andrade — Quinta-feira, 1 Abril 2010 @ 10:08 am | Responder


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