perspectivas

Segunda-feira, 29 Março 2010

Jesus ressuscitou

Ainda hoje ninguém sabe ao certo o que se passou no dia 13 de Outubro de 1917, nas cercanias da Cova da Iria, em Fátima. Milhares de pessoas dizem ter visto, por volta do meio-dia, “o sol dançar”. E as pessoas, hoje, perguntam: será que “o sol dançou” mesmo? Podemos responder: não sabemos ou não podemos afirmar com toda a certeza, porque não estivemos lá nesse dia para testemunhar a experiência daquelas milhares de pessoas que se reuniram naquele local pela fé comum (fé comum = experiência intersubjectiva).

Porém, temos que partir do princípio de que uma idêntica experiência vivida comummente por milhares de pessoas, a maior parte delas estranhas umas às outras, não se pode considerar como uma falsidade ou uma ilusão, porque se o considerássemos assim estaríamos à partida a considerar a nossa própria experiência subjectiva de vida como uma ilusão ― estaríamos a negar a nossa própria experiência subjectiva. Seria estúpido dizer-se que o que se passou naquele dia em Fátima não aconteceu de facto; o que podemos dizer é que a experiência intersubjectiva daquelas pessoas não foi compartilhada por outras pessoas, nomeadamente por nós.

As experiências de vida de cada um de nós são diferentes e dependem de imensos factores e são eminentemente subjectivas. Porém, em determinados momentos das nossas vidas, as nossas experiências eminentemente subjectivas podem ser vividas em modo colectivo através da intersubjectividade, que consiste na coincidência ― em maior ou menor grau ― da nossa experiência subjectiva com a de outras pessoas.

Outras pessoas dirão: “o que se passou naquele dia, em Fátima, foi um milagre, e eu não acredito em milagres”. Essas pessoas não se dão conta de que as suas próprias existências são um milagre, e de que tudo o que existe é um milagre no sentido do princípio de toda a filosofia que é a do “espanto perante tudo o que é enquanto é” (Aristóteles, “Metafísica”). As próprias leis da ciência constatam o milagre dos axiomas intemporais, e não seriam possíveis sem essa intersubjectividade que reúne os consensos entre as subjectividades humanas. O que nós não podemos fazer é substituir-mo-nos às experiências de outras pessoas, dizendo que aquilo que as outras pessoas experienciam, simplesmente não existe. Portanto, é óbvio que se passou “qualquer coisa” naquele dia em Fátima, que foi experienciada de forma intersubjectiva por milhares de pessoas que se encontravam naquele local, e de que nós hoje não temos experiência subjectiva.

É para nós muito difícil, hoje, viver a experiência intersubjectiva dos presos nos campos de concentração nazis, como por exemplo em Auschwitz. O que nós podemos e devemos fazer é tentar reviver essa experiência ― porque a experiência vive-se, não só se compreende; a compreensão da experiência de outrem passa pela tentativa de a viver ― e para isso temos que, em primeiro lugar, tentar saber o que aconteceu em Auschwitz-Birkenau a partir dos protagonistas e testemunhas (fontes-primárias). A partir dos relatos das experiências subjectivas que formaram a intersubjectividade dos prisioneiros de Auschwitz-Birkenau, podemos então, de certa forma, “entrar nas vidas” daqueles prisioneiros e viver parcialmente a experiência intersubjectiva de todos eles.

O mesmo tipo de problema coloca-se em relação à morte e ressurreição de Jesus. A primeira pergunta que ocorre ao Homem moderno é: “O corpo Dele desapareceu?” Ou: “O corpo de Jesus não estava no túmulo ?”

A primeira coisa a fazer, perante esta pergunta do Homem moderno, é o que faríamos em relação à experiência intersubjectiva dos prisioneiros de Auschwitz-Birkenau: procurar os testemunhos e interpretá-los, para depois tentarmos viver a experiência por que passaram as pessoas naquela Páscoa judaica por volta do ano 30 da nossa Era. Neste sentido, gostaria que notassem o seguinte:

  • Desde logo, não há testemunhas oculares da ressurreição. Aquilo que é relatado são sempre e apenas as consequências.
  • A primeira referência aos acontecimentos ― ou seja, o mais antigo relato do que se passou naquela Páscoa da crucificação de Jesus, é de São Paulo através da sua Primeira Epístola aos Coríntios (17, 3 – 7). Desse relato de S. Paulo constam apenas quatro frases.
  • Algumas décadas mais tarde, São Marcos precisa de oito frases para descrever os mesmos acontecimentos.
  • A seguir a S. Marcos, S. Mateus alarga o relato para 20 versículos.
  • Depois de S. Mateus, veio S. Lucas com 53 versículos acerca do evento a que S. Paulo se tinha referido apenas em quatro frases.
  • O evangelho mais tardio, o de S. João, a ressurreição de Jesus é contada em 56 versículos.

Quanto mais tardio é o relator, tanto mais se sente na obrigação de contar o que se passou. Diz o povo que “quem conta um conto, acrescenta um ponto”. A fonte mais primária neste caso será, sem dúvida, o relato de S. Paulo na sua Epístola aos Coríntios, porque é a que está mais próxima, no tempo, em relação aos acontecimentos.

Porém, o mais importante em qualquer experiência humana, seja subjectiva (particular) ou intersubjectiva (colectiva), são os símbolos que significam essa experiência. As pessoas que interpretam a bíblia literalmente prestam um péssimo serviço ao cristianismo. A bíblia tem que ser interpretada do ponto de vista da simbologia. A leitura da bíblia deve ser um exercício de hermenêutica.

O Homem moderno deve ter a preocupação de compreender o que significam os símbolos da mais variada ordem que existem no mundo da nossa intersubjectividade, ao mesmo tempo que faz a distinção entre símbolos e sinais. O símbolo tem um conteúdo, em que é simbolizado o representado, enquanto que os sinais são escolhidos arbitrariamente. O símbolo, para além do significado cultural que o sinal também pode ter, tem um significado espiritual (relativo à experiência humana subjectiva e que adquire uma experiência intersubjectiva ou colectiva) que o sinal não tem. Um sinal só passa a ser um símbolo quando passa a ter um conteúdo com relação a um representado, o que lhe retira a arbitrariedade previamente existente. Um símbolo nunca se muda porque isso resultaria também na dissolução do seu significado; um sinal pode ser mudado mantendo-se o seu significado anterior.

Como vimos, os relatos dos testemunhos, para além de estarem distanciados no tempo, não coincidem na descrição dos factos. Daí que a fonte primária deva ser a primeira (passo a redundância), ou seja, a de S. Paulo. Porém, a pergunta que se deve realmente fazer é a seguinte: “Como foi possível que um grupo de discípulos de Jesus, abatido e desmoralizado com a execução do seu líder espiritual, se transformasse de um dia para o outro num movimento religioso vitorioso, apenas devido a uma alegada auto-sugestão ou ilusão, e sem uma experiência intersubjectiva de fé decisiva ?” Esta é a pergunta inteligente a fazer face à História. Esta transfiguração dos discípulos depois da morte de Jesus constitui, em si mesma, um milagre maior do que a própria Ressurreição.

O facto de “o corpo estar lá” ou não estar, passa para segundo plano e deve ser interpretado simbolicamente e à luz da lógica própria do relato histórico ao longo do tempo que decorre a partir do acontecimento. O que é importante é constatar que se passou “qualquer coisa” de especial (pelo menos, em relação aos discípulos) naquela Páscoa judaica, que se passou um fenómeno que diz respeito directamente às pessoas que o viveram naquela experiência intersubjectiva em particular ― assim como as milhares de pessoas de pessoas que assistiram à “dança do sol” em Fátima tiveram uma experiência que nós não compreendemos senão através da tentativa de viver a experiência intersubjectiva daquele momento particular. E assim como a imagem do “sol a dançar” é um símbolo que tenta explicar uma experiência intersubjectiva, em si mesma difícil de explicar por palavras ou conceitos, a ressurreição de Jesus é um símbolo de uma experiência intersubjectiva vivida directamente pelos seus discípulos.

Provavelmente Jesus terá aparecido aos seus discípulos em espírito, assim como Maria apareceu em espírito às três crianças de Fátima, assim como a uma imensa mole de gente viu um fenómeno que não é passível de explicação senão a partir da criação de um símbolo do “sol que dançou”. Quando o Homem moderno compreender que tudo o que existe na natureza é um milagre, talvez aí possa começar a compreender o símbolo da Ressurreição de Jesus e a viver a experiência que os seus discípulos viveram naquela época.


Atenção: aqui, neste artigo, faz-se uma analogia entre a aparição de Fátima, por um lado, e a ressurreição de Jesus Cristo, por outro lado; e não uma comparação ! Se o leitor não souber a diferença entre uma analogia e uma comparação, recomendo que compre um dicionário.

5 comentários »

  1. 1ª Coríntios 17… não existe. Aliás, nenhuma carta, paulina ou não, tem 17 capítulos.
    Provavelmente, quereria dizer 1ª Corítios 15, 3 a 7:

    3Transmiti-vos, em primeiro lugar, o que eu próprio recebi: Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; 4foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; 5apareceu a Cefas e depois aos Doze. 6Em seguida, apareceu a mais de quinhentos irmãos, de uma só vez, a maior parte dos quais ainda vive, enquanto alguns já morreram. 7Depois apareceu a Tiago e, a seguir, a todos os Apóstolos.

    Gostar

    Comentar por Neo — Segunda-feira, 29 Março 2010 @ 2:27 pm | Responder

    • @Neo: não entremos em detalhes semânticos.

      Existe uma passagem em 1 COR 15, 20-22, nas não é a essa que me refiro. refiro-me a 1 COR 15, 3-7. Só nos faltava agora discutir os números dos versículos…!

      Gostar

      Comentar por O. Braga — Terça-feira, 30 Março 2010 @ 9:07 am | Responder

  2. Só nos faltava agora discutir os números dos versículos…!

    Não pretendo discutir seja o que for. Só queria chamar-lhe a tenção para aquilo que pensei ser um lapso dactilográfico seu.
    … o mais antigo relato do que se passou naquela Páscoa da crucificação de Jesus, é de São Paulo através da sua Primeira Epístola aos Coríntios (17, 3 – 7). …
    Coisa que achei importante, veja lá, porque se trata de uma citação que fundamenta uma parte importante da sua argumentação.

    Quanto a essa, a argumentação, nada disse. Mas, já agora direi que não concordo em absoluto:
    1º. Que compare o fenómeno de Fátima com a ressurreição de Cristo;
    2º. Que “A bíblia tem que ser interpretada do ponto de vista da simbologia. A leitura da bíblia deve ser um exercício de hermenêutica.”.

    E, já agora também, permita-me que expresse uma opinião: – Tão pouco inteligente é tomar toda a escritura de forma literal, como ao contrário, tomar tudo como simbólico.
    Se a minha opinião o incomoda, pode sempre não publicar o comentário.

    Gostar

    Comentar por Neo — Terça-feira, 30 Março 2010 @ 10:57 am | Responder

    • A sua opinião não me incomoda. O que me incomoda é que para ter a sua opinião, eu tivesse que ser um pouco informal — tive que a sacar a saca-rolhas. Era claro que uma gralha da minha parte, no texto, não justificaria em si um “correctivo”.

      Depois, a sua opinião é apenas a doxa se se não explicar porque é que não concorda.

      Uma coisa é comparar — no sentido de igualizar em termos de valor — dois factos em tempos diferentes; outra coisa é fazer um paralelismo que ajude as pessoas a compreender a experiência intersubjectiva das pessoas que a viveram nos dois casos.

      A sua opinião que diz que ” Tão pouco inteligente é tomar toda a escritura de forma literal, como ao contrário, tomar tudo como simbólico “, na medida em que não define aquilo que deve ser lido simbolicamente e literalmente, não diz nada. Em contraponto, eu situei a minha frase no contexto da ressurreição de Jesus.

      A ICAR ainda não se deu conta de que existe o “Homem moderno”. E depois, queixa-se.

      Gostar

      Comentar por O. Braga — Terça-feira, 30 Março 2010 @ 6:28 pm | Responder

  3. […] correcto, ressurreição, verdade, verdade de facto, verdade de razão O postal anterior sobre a Ressurreição de Jesus levantou alguma controvérsia na medida em que o próprio postal menciona factos ― […]

    Gostar

    Pingback por O problema da opinião « perspectivas — Quarta-feira, 31 Março 2010 @ 8:30 am | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Site no WordPress.com.

%d bloggers like this: