perspectivas

Sexta-feira, 26 Março 2010

O erro de Descartes, segundo António Damásio

No seguimento do postal anterior sobre o novo livro de Christopher Hitchens publicado em Portugal com honras de entrevista na TSF, lembrei-me de António Damásio e do seu livro “O Erro de Descartes”, publicado em 1995, que teve um apoio massivo dos me®dia na sua divulgação e foi um sucesso entre o filisteu actual português. Em contraponto, nunca foi publicado em Portugal nenhum livro do neurologista prémio Nobel, John Eccles, que defende exactamente o contrário de Damásio. Na ciência como na política, existe hoje a correcta e a incorrecta. A ciência correcta é aquela que pretende convencer o cidadão de que ele é apenas um “animal evoluído”, uma espécie de “macaco com ideias”, colocando-se assim em causa a excepcionalidade da vida humana; essa foi a missão do livro de Damásio que a intelectualidade portuguesa, em geral, aplaudiu e louvou.

Damásio segue a esteira do epifenomenalismo de Thomas Huxley que se transformou naquilo a que se convencionou chamar de “Teoria da Identidade”. Naturalmente que Damásio sabia que abraçando esta tese cientificista poderia ter sucesso nos EUA, o que veio a acontecer.

No século XIX o epifenomenalismo estava na moda. Reza a História que num simpósio de investigadores da natureza realizado em Göttingen, Alemanha, em 1854, um fisiólogo presente de seu nome Jabob Moleschott declarou que, “tal como a urina é uma secreção dos rins, assim as nossas ideias são apenas secreções do cérebro”. Perante isto, o conhecido filósofo Hermann Lotze levantou-se e disse que, ao ouvir a expressão de tais ideias do colega conferencista, quase acreditou que ele tinha razão…

António Damásio ataca no seu livro o dualismo de Descartes ― que considera o espírito e o cérebro como duas entidades separadas ― e adopta claramente a teoria epifenomenalista da identidade ― que considera o espírito e as ideias como uma secreção do cérebro. É sobre este assunto que trata este postal.

1. Um ser humano médio tem cerca de 15 mil milhões de neurónios, que são células nervosas que transmitem ao cérebro as informações dos órgãos sensoriais. Os neurónios estão ligados entre si por cerca de 10^15 (1 seguido de 15 zeros) sinapses ou pontos de transmissão. Seriam precisos mais de 30 milhões de anos se quiséssemos registar apenas as sinapses existentes, a uma velocidade média de uma sinapse por segundo. Se quiséssemos “testar” os estados possíveis de apenas 120 neurónios, teríamos necessidade de um super-gigante computador a processar ininterruptamente durante 20 mil milhões de anos. Se quiséssemos “testar” todos os neurónios de um ser humano médio, o número de operações necessário seria superior à constante cosmológica da natureza de 10^120 (1 seguido de 120 zeros), ou seja, seria superior ao limite físico do universo em termos de número de passos e relações, e portanto, seria infinito.

É disto que estamos a falar quando damos credo àquilo que Damásio defende no seu livro. Perante esta dimensão realmente transcendental do cérebro humano, as posições cientificistas de António Damásio não são, em termos gerais, aceitáveis senão como uma correia de transmissão de algum ideário político ― temos que ver que ideias políticas estão por detrás da acção de Damásio, assim como sabemos já as ideias políticas que estão por detrás da acção do marxista cultural Christopher Hitchens.

2. É claro que existem em toda a natureza e em outros animais, os rudimentos do espírito humano. Mas uma coisa são “os rudimentos do espírito humano” e outra coisa é o “espírito humano”. Na sua Primeira Epístola de S. Paulo aos Coríntios, S. Paulo escreveu: “Se há um corpo natural, há também um corpo espiritual.” (1 Cor. 15,44). “Porém, o corpo espiritual não é o primeiro. Primeiro, foi o natural, depois o espiritual. O primeiro homem é da terra e terrestre. O outro homem é do céu…”

Numa linguagem metafórica que tem que ser interpretada ― como toda linguagem religiosa ―, S. Paulo constata o óbvio: os rudimentos do espírito humano existem na terra em todos os animais que se movem; a mobilidade de um animal contém em si o desenvolvimento do instinto que se pode considerar como uma pré-espiritualidade. Segundo o famoso biólogo Bernhard Rensch, o espírito no sentido lato pode ser observado já no comportamento dos átomos ― o que nos atira para a Física quântica de que falaremos mais adiante. Segundo Rensch, sempre que um sistema se determina a si próprio a partir da sua própria situação, ou seja, quando produz desempenhos espontâneos para a orientação nos impulsos do ambiente, está em jogo uma forma rudimentar de espírito. Neste sentido, até uma paramécia tem em si o rudimento do espírito quando demonstra uma capacidade de abstracção em relação ao meio ambiente quando se move desviando-se de obstáculos. O problema de Damásio ― à semelhança do que fazem todas as religiões políticas escoradas no evolucionismo darwinista ― é que reduz o espírito humano ao princípio do instinto animal, em vez de considerar o instinto animal como um rudimento espiritual.

3. O livro de Damásio tem uma vertente cínica quando se dispõe na forma filosófica tradicional do diálogo, quando sabemos que a ciência descreve as coisas a partir da perspectiva da terceira pessoa. Damásio não pretende filosofar ― até porque não tem a capacidade para o fazer, tal qual Hitchens ou Richard Dawkins não têm ― mas antes expor, através de um pretenso diálogo filosófico, a alegada autoridade científica da sua teoria. E se a teoria de Damásio é científica, e portanto, objectiva, só pode ser explanada na terceira pessoa. O recurso ao diálogo filosófico para tentar impôr uma teoria científica é de um cinismo sem outro nome.

A alma do ser humano só pode ser descrita de forma adequada a partir da perspectiva da primeira pessoa, porque só assim é possível adquirir o conhecimento directo do que “eu sou” e do que significa ser um Eu ou um próprio. Em contraponto, todo o conhecimento científico ― e filosófico, desde que no sentido da ciência objectivista ― sobre o meu interior é apenas indirecto ou em segunda-mão. Este é o grande problema, não só de Damásio como da neurobiologia em geral, acerca da alma humana. Neste contexto, podemos dizer sem sombra de dúvida que “todas as afirmações da neurobiologia sobre a alma do ser humano permanecerão sempre inadequadas”. A objectividade científica é como um plaina que elimina o subjectivo da equação analítica; sendo o subjectivo inacessível à ciência, esta simplesmente “aplaina”, eliminando aquele.

Como demonstrou Husserl, e como demonstra hoje a Física quântica (ler Bernard D’Espagnat) , a consciência é uma experiência originária que antecede a experiência objectiva ― o que não significa outra coisa senão uma experiência comprovável ao nível intersubjectivo ― tanto em termos lógicos como em termos existenciais. Escreve o físico quântico Bernard D’Espagnat: «A doutrina segundo a qual o mundo é formado por objectos cuja existência é independente da consciência humana revela estar em desacordo com a mecânica quântica e com os factos estabelecidos através da experiência.» O que Bernard D’Espagnat diz a António Damásio é o seguinte: “Você é burro!”

4. Poderia prolongar aqui o tema da auto-referencialidade, mas o postal ficaria demasiado extenso. Sempre podemos dizer, contudo, que o individual permanece como um “buraco negro” para a ciência e para qualquer outra perspectiva a partir da terceira pessoa. Sem o individual e a auto-referencialidade, não poderia sequer existir a ciência porque esta se baseia na intersubjectividade fenomenológica, o que pressupõe a existência de algo em comum entre os sujeitos. E a partir deste conceito de auto-referencialidade e de intersubjectividade, poderíamos entroncar no conceito de coincidentia oppositorum de Nicolau de Cusa, que descreve como o universal e o individual, embora estejam em contradição permanente, são assumidos na unidade do “englobante” (Deus).

5. O evolucionismo, em si mesmo, não é um conceito irracional se entendermos que a evolução como o processo no qual o insondável se apresenta na dimensão do espaço-tempo, ou seja, se a evolução for a afirmação de que o espírito (aqui entendido no sentido restrito da soma das funções do cérebro), a alma e a razão são produtos da evolução. Porém, se a evolução for entendida simplesmente em termos materialistas, a realidade da autoconsciência e do acesso ao domínio das verdades perenes e axiomáticas faz implodir o quadro evolucionário.

6. Eu vou pedir licença a Bernard D’Espagnat e secundá-lo: Damásio é burro. Já uma vez aqui chamei de burro a José Saramago, e agora digo o mesmo de Damásio. A ideia de que o espírito humano é apenas e somente uma espécie de clarão à volta de uma fogueira de um acampamento, só pode vir de um burro.

Karl Popper explica por que Damásio é burro, quando aquele chamou à atenção para o facto de que se o epifenomenalismo e a teoria da identidade fossem levados a sério, ou seja, se as minhas ideias fossem produtos e portanto efeitos da pura química que se processa na minha cabeça, nem sequer seria possível discutir sobre a própria teoria da identidade e sobre o epifenomenalismo. A teoria da identidade e o epifenomenalismo não poderiam ter sequer qualquer pretensão de verdade, na medida em que ― e entre outras coisas ― as provas são igualmente de química pura. Isto significa que se alguém defende uma teoria contrária à de Damásio ― e à luz do pressuposto essencial da teoria da identidade e do epifenomenalismo ―, também tem razão, dado que a sua química chegou a um resultado diferente. Karl Popper chama a esta armadilha lógica o “pesadelo do determinismo físico”. A teoria da identidade e o epifenomenalismo leva directamente ao maior dos absurdos e à burrice de Damásio.

7. A principal dificuldade do dualismo cartesiano sempre foi a primeira lei (ou o primeiro axioma) da termodinâmica, na medida em que o dualismo corpo/espírito interfere com o princípio da conservação da energia num sistema físico, visto que a energia no universo tem que permanecer sempre constante. Já antes de o burro Damásio ter escrito o seu livro (1995), o neurologista e laureado Nobel, John Eccles, chamou a nossa atenção (1994) para uma particularidade da Física quântica: a amplitude de probabilidades da função ondulatória quântica ― por exemplo, de uma partícula atómica ou partícula elementar longeva ― não constituir um campo material, mas antes actua sobre a matéria, ao causar a probabilidade de um processo de partículas elementares. Em termos simples, isto significa que a primeira lei da termodinâmica se aplica somente a nível do macrocosmos, por um lado, e que a Física quântica colocou em causa mesmo essa aplicação do axioma da termodinâmica a nível do macrocosmos. Tal como a primeira da termodinâmica se abstrai da realidade para criar um modelo que possa funcionar como lei do macrocosmos, assim Damásio só funciona no macrocosmos ― e esse é o grande problema da neurobiologia e da biologia em geral.

Escreve John Eccles (How the Self Controls Its Brain, 1994) : “Este facto ― a actuação da função ondulatória quântica no mundo macroscópico ― abriu as possibilidade fascinante de estados finais diferentes, resultantes de processos dinâmicos idênticos, sem que tivessem sido alteradas as condições iniciais … como por exemplo, o abastecimento de energia”.
Através de cálculos exaustivos, foram elaborados modelos de teoria quântica que pretendem explicar como é possível compreender a influência do espírito ― aqui já entendido como algo de imaterial ― sobre a matéria do cérebro, sem a perturbação do estado energético deste. Assim se demonstra que Descartes tinha razão.

8. Por último, o determinismo do epifenomenalismo e da teoria da identidade seguida por Damásio e demonstrada no seu livro, leva directamente ao relativismo moral. Um assassino poderia dizer em tribunal: “Senhor Doutor Juiz: estou inocente. Os meus neurónios produziram a vontade de matar”. E é por isso que, para além de burro, Damásio é estúpido.


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