perspectivas

Quinta-feira, 25 Março 2010

Deus é Grande

Ontem ouvi na TSF, ao fim da tarde, uma parte da entrevista dada pelo ex-marxista Christopher Hitchens na sequência do lançamento em Portugal do seu livro “Deus Não é Grande”. Hitchens é um dos “cavaleiros das quatro-partidas”; os outros são Richard Dawkins, Daniel Dennett e Sam Harris.

Em princípio não irei ler o novo livro de Hitchens porque depois de ter comprado o livro “A Desilusão de Deus”, do zoólogo Richard Dawkins, a desilusão não foi de Deus ― que já estava a contar com o QI de Richard Dawkins ― mas foi minha: paupérrima argumentação filosófica, flagrante desconhecimento da História, muito discutível entendimento da Física. Porém, e daquilo que ouvi na entrevista, o argumentário de Hitchens é tão dogmático como os dogmas religiosos que ele próprio critica.

À primeira vista pode surpreender que os “quatro cavaleiros do apocalipse” continuem a escrever livros deste tipo, mas a verdade é que os seus livros têm um público alvo: o filisteu actual. No entanto, quando alguém (mesmo que não seja prosélito de uma religião e não tenha fé) estuda com alguma profundidade a história da filosofia, acaba por ― pelo menos ― ter dúvidas sobre os argumentos apresentados pelos “quatro viandantes equinos”. É através da pura lógica que somos induzidos da dúvida à probabilidade da existência de Deus. Naturalmente que a partir da alta probabilidade da existência de Deus que a filosofia nos traz, muitas pessoas entendidas na matéria saltam da filosofia para a religião, porque só esta nos pode dar a certeza da Sua existência através da experiência subjectiva (fenomenologia).

Já anteriormente aqui falei na Teoria do Conhecimento Finística (TCF). Os estudantes de filosofia nas nossas faculdades não fazem a mínima ideia do que se trata a TCF, porque o sistema de ensino está desenhado não só para que a ciência se mantenha afastada da filosofia, como para que a filosofia se transforme na sua própria negação tendo em vista fins meramente ideológicos no sentido das religiões políticas. A filosofia continua a ser, contudo, aquilo que os antigos gregos definiram como sendo “a manifestação do espanto por tudo ‘aquilo que é’” ― a admiração pelo Ser, pela existência ― o que nos leva a admirar Aquele que disse ao povo judeu: “Eu sou Aquele que é”.

O que é ilógico e demonstra uma fraca argumentação filosófica, é que esse espanto por tudo “aquilo que é” coloque Deus fora da equação por uma questão meramente política ou de relativismo ético-moral. Não podemos invocar a filosofia exclusivamente para impormos as nossas ideias políticas, exactamente porque a filosofia é a ciência do Ser. Sendo uma ciência, a sua manipulação para fins políticos traz consigo o estigma dos nossos tempos em que a ciência se transforma, cada vez mais, em cientismo (ou cientificismo).

1.Sobre a TCF, desde logo, convém que o(a) leitor(a) consulte na Internet tudo que o for possível acerca do biofísico Alfred Gierer. A biofísica constatou que a densidade média da matéria no universo foi calculada com base em medições da Astrofísica: ela é da ordem de uma partícula elementar longeva ou PEL (protão, electrão, neutrão) por metro cúbico. Considerando a dimensão do universo, resulta daqui um número total de cerca de 10^80 (10 elevado à potência de 80 ou 1 seguido de 80 zeros) de partículas no universo. O número 1 seguido de 80 zeros está para além de todas as possibilidades práticas da nossa matemática.

Se multiplicarmos este número (10^80) pela idade do universo ― 20 mil milhões de anos-luz = 10^40 períodos elementares (período mínimo de estabilidade de partículas elementares) ― o resultado é o número 10^120 (1 seguido de 120 zeros). Este número (10^120) é uma constante cosmológica da natureza (CCN). A CCN diz-nos que ela representa o limite superior lógico para o trabalho de cálculo de um computador cuja dimensão e idade seriam iguais à de todo o universo, que efectuasse cálculos ininterruptamente, desde o início da sua existência, e cujos elementos constitutivos fossem partículas elementares longevas (PEL) individuais.

Estamos aqui confrontados com um limite superior de passos de trabalho analíticos que, em condições ideais, seriam possíveis no nosso universo e que são compatíveis com a Física do cosmos. Ora Gierer deduziu daqui a Teoria do Conhecimento Finística : “Do número máximo de operações realizáveis no cosmos resulta como consequência para a teoria do conhecimento o facto de o número de passos na análise de problemas ser também, por princípio, limitado ― sejam eles passos mentais ou passos do processamento de informações através de computador. Sobretudo, é limitado, por princípio, o número das possibilidades que podem ser verificadas sucessivamente, uma a uma, para comprovar ou refutar a validade universal de uma afirmação” (Alfred Gierer ― Die Physik, das Leben und Die Seele, 1991).

Constatamos que Kant tinha razão quanto ao limite do conhecimento, embora por razões significativamente diferentes.
A única forma que Richard Dawkins e os seus “amigos equinos” encontraram para refutar esta evidência de Gierer e da Astrofísica sobre o limite do universo e, concomitantemente, o limite do conhecimento, foi o retorno à teoria de Newton do universo infinito e eterno, ou seja, foi a recusa do Big Bang como princípio do universo.
Quando me referi acima à utilização de dogmas cientificistas para combater os dogmas religiosos, foi disto que falei: dogmatiza-se o universo e a natureza, recusam-se as evidências da ciência em nome de teorias cientificistas que se traduzem, na prática, numa “religião anti-Deus”. O ateísmo é isto mesmo.

2. Convém agora fazer um parêntesis ― uma espécie de “epoché” no discurso que retomaremos mais adiante ― para retornarmos a Platão e Aristóteles e para o conceito de “forma”. A matéria não existe no estado puro, mas ocupa sempre uma porção de espaço determinado: uma certa quantidade de matéria “tem” sempre “uma forma”. Pode-se, em contrapartida, conceber a existência de formas puras, ou seja, de seres que, sem terem realidade física, existem mesmo assim de outra maneira (seja no espírito, seja num mundo superior). Elas são, segundo Platão, as ideias e os seres matemáticos do mundo inteligível, de que participam as formas da matéria sensível. As categorias mentais que tornam possíveis a percepção e o pensamento estruturado podem ser classificadas de “formas”, na medida em que a sua pertinência e eficácia são independentes dos conteúdos da realidade aos quais são aplicadas (Descartes, Husserl e Meinong).

Da mesma forma que um determinado objecto tem uma “forma” na realidade concreta ― por exemplo, a forma de uma folha ―, será possível encontrar uma fórmula (uma “forma”) para todas as folhas possíveis, na medida em que tudo o que é possível de ser descrito com exactidão também é passível de ser formalizado. Se descrevermos com exactidão a forma da folha, o seu pigmento, o estado químico das células, o seu ponto exacto no espaço-tempo e os processos atómicos na estrutura celular, chegamos muito perto de uma fórmula (forma) que descreve o estado particular da folha.
No caso ideal, deixaria de existir qualquer diferença entre a folha da realidade concreta e a sua fórmula (forma) individual que pertence a uma dimensão intemporal (pontos 3 e 4). Se a folha da realidade concreta se deteriora e apodrece por acção do espaço-tempo, a sua fórmula (forma) individual ― que descreve com exactidão a existência da folha em um determinado momento e em um determinado local ― permanece intacta.

Se fosse possível incluir na fórmula (forma) da folha não só o estado concreto conforme descrito acima, mas também todos os estados anteriores da folha, esta continuaria a existir na sua fórmula ou forma intemporal. Conclui-se que a fórmula individual é a verdade física de um objecto existente no espaço-tempo, expressa numa fórmula intemporal e de tal modo que a substância e a evolução do objecto estão completamente descritas nela (Leibniz, “a identidade do indistinguível” ― identitas indescernibilium. A própria Física quântica veio dar razão a Leibniz nesta questão: não é possível distinguir dois átomos um do outro, no mesmo estado quântico).

3. Os limites do conhecimento traduzem-se na própria concepção da ciência. Quem quiser compreender, por exemplo, as leis da gravidade tem que, em primeiro lugar, abstrair-se de factores como a forma e a cor dos objectos ou a resistência ao ar. Deste modo se faz uma abstracção de qualquer caso real observável na natureza. Para que seja possível formular leis a partir das observações científicas, é necessário simplificar e criar modelos que constituam uma abstracção da complexidade da realidade. Ora esses modelos da ciência abstraída da realidade complexa da natureza, são as “formas” de Platão (ponto 2). As “formas” traduzem-se em “fórmulas ideais” que existem em relação a cada ser ou entidade material.

4. O teorema de Pitágoras (a^2+b^2=c^2), por exemplo, é um axioma que já era verdadeiro antes de Pitágoras o ter descoberto. O mesmo se passa com todos os axiomas: eles existem antes do homem ― são anteriores ao homem. Provavelmente existirão axiomas ou “princípios primeiros” de que o homem ainda não se deu conta em termos de demonstração empírico-científica e que, em muitos casos, pertencerão à experiência subjectiva do ser humano. Toda a ciência humana é decorrente de princípios axiomáticos constrangidos ou limitados na Teoria do Conhecimento Finística. Neste sentido, o cientista não inventa nem cria nada ― ao contrário do que se ensina nas nossas faculdades de filosofia e até no ensino da lógica. Se alguém quisesse levantar a objecção de que, na realidade, “encontrar” significa “inventar” e que, portanto, a verdade de um fenómeno é produzida pelo observador, estaria a fazer a afirmação absurda de que seria o cientista a produzir o objecto ― porque o objecto sem a sua verdade é impensável.

5. O cientista ou o físico não é o criador do mundo, mas sim aquele que descobre a verdade física pré-existente e que lhe é imanente. A lei da gravidade, por exemplo, vale sempre ― sob uma forma adaptada ― em qualquer lugar do universo. A fórmula (ou “forma” platónica ― v. ponto 2) desta lei entrou na categoria de uma verdade intemporal, o que significa que a lei da gravidade está acima do espaço-tempo concreto (alguma coisa só é intemporal se está acima ou fora do espaço-tempo). O mesmo se passa com os axiomas da lógica: estão acima do espaço-tempo concreto porque são intemporais. O axioma A=A é o princípio axiomático da identidade, do qual se pode deduzir o princípio axiomático da contradição, e por aí afora. Estamos aqui sempre perante verdades na dimensão da intemporalidade.

A falácia de Richard Dawkins, Hitchens e os seus amigos, é partirem do princípio de que o cientista inventa ou cria as próprias leis da ciência. A partir deste pressuposto falacioso e irracional, o homem passa a uma condição divina de uma espécie de “criador do universo” na medida em que “cria” ou “inventa” as próprias leis que regem esse universo.

6. O problema da fórmula ou forma individual de um determinado objecto e a sua relação com o objecto da realidade concreta coloca-se precisamente a nível quântico (ver Leibniz, ponto 2), porque, em princípio, não poderia existir um estado idêntico, do ponto de vista quântico, entre uma fórmula que existe numa dimensão não-física e intemporal, em relação a um objecto que existe na dimensão do espaço-tempo.
Porém, se dois átomos no mesmo estado quântico são indistinguíveis, e se considerarmos o ser humano como uma espécie de particular e específica de sistema quântico, será verdade que dois seres humanos no mesmo estado quântico são uma e a mesma pessoa. Para o problema da fórmula (forma) individual aplica-se, então, uma regra modificada: duas formações que existem em tempos diferentes (ou em níveis de tempos diferentes) ― por exemplo, um objecto físico e a sua forma ou fórmula individual ― são idênticos na sua “essência” (que é coisa diferente de “substância”; ver Aristóteles) se os seus padrões forem idênticos. Também é possível substituir o conceito de “padrão” pelo conceito cibernético de “informação” ― se duas formações possuem a mesma quantidade de informação, é impossível distingui-las entre si.

7. O problema da nossa ciência, e portanto, do nosso conhecimento, é que não conseguimos medir exaustivamente os objectos e de os exprimir em fórmulas ou formas, embora saibamos que as fórmulas existem numa dimensão imanente e, por esta via, provenientes de algo que é transcendente na medida em que a intemporalidade (estão fora do espaço-tempo) das formas ou fórmulas implica necessariamente a sua origem transcendente. Qualquer pessoa com dois dedos de testa compreende isto, com excepção dos “quatro cavaleiros do apocalipse” que parecem ter um QI abaixo de 75.

O ser humano tem problemas com a determinação absolutamente exacta do tempo, etc, mas estas limitações humanas não possuem o carácter de princípio (axioma) na medida em que tudo pode ser descrito com exactidão. Existe uma contradição entre a nossa capacidade de formular uma “forma” individual e a necessidade de criar essa forma quando queremos descobrir toda a verdade física de um objecto ou de um processo ― a verdade que engloba todos os detalhes e pormenores individuais. Esta verdade existe; apenas escapa à nossa capacidade de conhecimento.

8. Voltando agora, e para concluir que a lengalenga já vai longa, a Alfred Gierer e em concreto à sua Teoria do Conhecimento Finística (ponto 1). Sendo que a constante cosmológica do universo é de 10^120, e que esta estabelece o limite do conhecimento, a fórmula ou forma de um determinado objecto pode ser pensável e criada ― seja por um ser humano seja por um computador ― se para a sua formulação não forem necessárias mais de 10^120 operações ou passos. No entanto, temos sempre que partir do princípio de que embora para a formulação da sua forma individual, a maior parte dos objectos necessite de um número de operações limitado em termos matemáticos, ainda assim necessita de mais de 10^120 operações mentais. Segundo Gierer: “Podem existir afirmações verdadeiras sobre a realidade física que só seriam comprováveis em mais de 10 ^ 120 operações; nós não poderíamos decidir se são verdadeiras ou não, mas tal seria possível para uma máquina supra-cósmica imaginável.” (Ibidem)

Isto significa pelo menos duas coisas: a primeira é o facto de as verdades existirem independentemente de serem ou não comprovadas ou compreendidas através de operações lógicas; a segunda é a de que a fórmula ou forma individual existe, por princípio, na dimensão do intemporal, mesmo que não sejamos capazes de a formular ou verificar.

Por razões ligadas à teoria do conhecimento finística, temos que entender o universo como um objecto que está perante nós quando reflectimos sobre ele, mas que também nos contém na sua limitada dimensão. Contudo, o universo não é a totalidade, nem pode ser, porque a totalidade é aquilo que engloba o sujeito e o objecto ― e portanto também engloba o universo que representa apenas uma parte da totalidade. As operações lógicas que nós, seres humanos, na nossa condição de apenas uma parte da totalidade, não podemos realizar a partir da nossa posição dimensional espaço-temporal, e por razões ligadas com a teoria do conhecimento finística, podem ser realizadas por Deus que está consciente do “englobante” ― o “englobante” como sendo aquilo que contém o sujeito e o objecto ― porque Deus não está nem pode estar, na sua condição, sujeito às limitações do universo das relações do sujeito-objecto. Por razões de melhor compreensão e à falta de melhor definição, podemos chamar de Deus a esse “englobante”.

Podemos dizer que a verdade ou a fórmula individual do Homem está salvaguardada na realidade de Deus num triplo sentido: separada do objecto no espaço-tempo, elevada do tempo à validade do intemporal, e preservada no infinito do “englobante”.

Quando Christopher Hitchens nos vem dizer que Deus (o “englobante”) não é grande, podemos desde logo medir a pequenez moral, filosófica e intelectual de quem o afirma.


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2 comentários »

  1. […] seguimento do postal anterior sobre o novo livro de Christopher Hitchens publicado em Portugal com honras de entrevista na TSF, lembrei-me de António Damásio […]

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    Pingback por O erro de Descartes, segundo António Damásio « perspectivas — Sexta-feira, 26 Março 2010 @ 11:15 pm | Responder

  2. verdadeiramente pedagógico

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    Comentar por Pedro Nunes — Quarta-feira, 14 Abril 2010 @ 9:41 am | Responder


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