perspectivas

Terça-feira, 16 Março 2010

Novos horizontes

Filed under: Política — O. Braga @ 5:45 am
Tags: , , , ,

A designação do programa de ontem de Fátima Campos Ferreira (novos horizontes), a temática propriamente dita (as relações entre a economia e a política), e a presença de tão ilustres personagens como os filósofos José Gil e Eduardo Lourenço (para além dos outros convidados que, de certa maneira, tinham uma visão económica da política), prometiam um programa interessante. Porém, o programa ficou aquém das minhas expectativas, talvez porque não se quis ir além dos tabus individuais e subjectivos de cada um dos personagens. Eduardo Lourenço sublinhou a ausência actual de uma dicotomia ou dialéctica política no sentido hegeliano, tal como existiu até à queda do muro de Berlim, mas esqueceu-se do marxismo cultural ou politicamente correcto que prevalece hoje, e da aliança contemporânea entre uma determinada plutocracia e uma certa esquerda mais radical; penso que se terá esquecido propositadamente. José Gil sublinhou a importância da cultura relegando o agigantamento do poder da economia para um efeito do Zeitgeist; estarei aqui mais concordante. Contudo, tanto um como outro geriram (do verbo latino gerere) os seus tabus políticos privados contra o capitalismo, ou melhor, a favor da procura de uma continuidade lógica do marxismo.

Quanto aos outros convidados, o problema da “gestão das expectativas por parte de uma democracia em relação a um progresso contínuo e sem-fim”, trata-se de uma falácia essencialmente por duas ordens de razões: a primeira é que, de facto, os portugueses perderam poder de compra ― não se trata de uma ilusão ― ou melhor, depois da entrada do Euro nunca existiu uma melhoria do poder de compra senão pelo endividamento exagerado das famílias, o que significa que não existiu realmente uma melhoria do poder de compra para a maioria dos portugueses. A segunda ordem de razões é que uma economia que cresce 1% por ano ― como aconteceu a Portugal desde que entrou no Euro ― o que lhe acontece realmente é que deixa de crescer 2%, porque tal qual a taxa de reposição demográfica é de 2,1 filhos por mulher, se uma economia não cresce a 3% não consegue absorver o desemprego conjuntural e também aquele que decorre do agir da sociedade (do verbo latino agere) que consiste na renovação geracional. Uma economia que não cresce a 3% durante 10 anos seguidos entrou em decadência e já perdeu a sua liberdade política na medida em que a submeteu ao determinismo económico-financeiro que faz a gestão da economia mas não age politicamente. Portugal não é, hoje, e sob o ponto de vista da política, um país livre.

A liberdade política ― que se distingue da liberdade de consciência ou livre-arbítrio ― tem na sua base o agir e não o gerir. O agir é, na sua essência, o começo de alguma coisa. Quando agimos começamos ou estamos na génese de alguma coisa de novo. Pelo contrário, o gerir significa a ausência de um novo começo mas apenas a manutenção de um status quo e, portanto, a ausência da liberdade política. Só existe verdadeira liberdade política quando existem novos começos que decorrem da acção humana ― por exemplo, o nascimento de um ser humano; o nascituro é, por natureza, um começo, e neste sentido é a expressão necessária da liberdade política. A iniciativa privada e o começo de novas empresas fazem parte dessa expressão da liberdade política, assim como toda a iniciativa da sociedade civil.

O que nenhum dos participantes do debate quis reconhecer e constatar como auto-evidente, ou ousou ir além dos seus próprios tabus ideológicos, foi a causa principal que mantém os portugueses cativos do gerir e os impede de agir. E é importante que aos portugueses seja permitida a acção antes que esta se imponha inexoravelmente por meios violentos num futuro imprevisível. A liberdade política que decorre do agir não pode estar dependente de ideologias políticas cristalizadas, e muito menos de teorias económicas deterministas que nos vinculam a um status quo ditado por tabus económicos eurófilos que servem apenas o gerere de uma minoria, e que restringe o agere, a liberdade política da esmagadora maioria.

1 Comentário »

  1. Muito bem! Aplausos! Magnífica e realística reflexão!

    Gostar

    Comentar por causavossa — Terça-feira, 16 Março 2010 @ 9:17 am | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: