perspectivas

Segunda-feira, 8 Março 2010

O fenómeno do bullying nas escolas : uma perspectiva conservadora

« Em circunstâncias normais, no seu habitat normal, os animais selvagens não se auto-mutilam, não se masturbam, não atacam a sua prole, não desenvolvem úlceras no estômago, não se tornam fetichistas, não sofrem de obesidade, não formam laços de parceria homossexual, ou não cometem assassínios. Entre os humanos citadinos é escusado dizer que todas estas coisas ocorrem.

(…)

O animal do zoológico numa jaula exibe todas estas anormalidades que nós conhecemos tão bem nas nossas companhias humanas. Claramente, a cidade não é uma selva de cimento mas é um jardim zoológico humano. »

Desmond Morris, zoólogo.

O fenómeno do bullying juvenil sempre existiu mesmo antes de existir um ensino estatal oficial e obrigatório. O problema é que aquilo que era uma manifestação da competição entre os jovens, controlada dentro de certos limites, passou para uma violência muitas vezes extrema. Portanto, o problema não é o bullying que sempre existiu e nunca deixará de existir senão através de uma repressão que terá, por sua vez, as suas consequências imprevisíveis no comportamento dos jovens.

Prefiro o bullying benigno e competitivo que sempre existiu ao superlativo do bullying actual — que resulta da sua repressão e recalque — que consiste nos assassínios em massa com armas de fogo perpetrados por jovens nas escolas dos Estados Unidos e da Finlândia. Os países “desenvolvidos” reprimem o bullying mais benigno e aparecem fenómenos muitíssimo mais negativos e devastadores nas escolas.

Resumindo: a) não é possível alterar a essência do ser humano senão por via da repressão que terá sempre consequências imprevisíveis; b) é necessário controlar ― e não reprimir com violência ― o bullying nas escolas.


Antes de continuar com este tema, devo dizer que estou de acordo com o conteúdo deste postal. O Estado não pode, de maneira nenhuma, substituir-se à família e aos responsáveis pela família (os pais ou/e encarregados de educação). Isto não significa que se retire ao Estado a liberdade de fazer o seu trabalho de marketing político no sentido de persuadir e incentivar os encarregados de educação a seguir determinadas orientações em relação à educação dos seus filhos. Uma coisa é a persuasão que pode ser aceite ou não, outra coisa é a imposição através do músculo do Estado.


O controlo do bullying não passa pela redução da idade de imputabilidade jurídica das crianças ou adolescentes, como defendido aqui. Segundo o mesmo critério, poder-se-ia defender a ideia de que a redução da idade de consentimento sexual para os 11 anos poderia resolver o problema das jovens adolescentes grávidas, ou que a essas mesmas jovens deveriam ser permitido o aborto sem o conhecimento ou consentimento dos pais.

Vamos às medidas propostas em concreto:

1. reforçar a autoridade dos professores e dos conselhos executivos das escolas.

Não é possível reforçar a autoridade dos professores sem o reforço da componente da tradição na cultura da sociedade em geral. O assunto é complexo e não é possível examiná-lo aqui de forma exaustiva. Politicamente, a autoridade pode adquirir um carácter educacional apenas se, à imagem dos romanos, partirmos do pressuposto de que os antepassados, em qualquer circunstância, representam exemplos de grandeza para cada nova geração, que eles são os maiores, os melhores por definição. Onde quer que o modelo de educação pela autoridade, sem esta convicção fundamental, seja imposto na esfera da política, o seu objectivo consiste antes de mais em obscurecer ou camuflar aspirações de poder que vêem do exterior para a escola, e finge educar quando na verdade pretende apenas submeter. Autoridade sem tradição é repressão pura e dura. Autoridade não é autoritarismo.

Portanto, reforçar a autoridade dos professores e dos conselhos executivos das escolas sem mudar previamente a política educativa e cultural de fundo, faz parte de um ideário político da esquerda marxizante, totalitarizante e presentista, que pretende impôr a política geral vigente na área pré-política da educação.

2. diminuir para 12 anos a idade da imputabilidade dos menores.

Perfeita aberração. Já me referi a isto acima. Típico “bloco de esquerda”.

3. criar escolas de “Time-Out”.

Em desacordo. A solução passa antes por classes com um máximo de alunos de 15; pela distribuição dos alunos pelas classes em consonância com os respectivos perfis etários, psicológicos e de segundo um histórico de rendimento escolar; pela criação do “zelador da escola” com poderes reforçados (o “Schulmeister“, na Alemanha, o “Perfect” em Inglaterra) que coordena todo o sistema dos empregados auxiliares da escola; a eliminação dos tabus criados pela ideologia de esquerda que não vê como correcta a expulsão de um aluno de um determinada escola, bem como as suspensões temporárias (três faltas disciplinares = 1 semana de suspensão; reincidência = expulsão). Temos que voltar a alguma da disciplina escolar do tempo de Salazar.

4.criar coimas para penalizar os Encarregados de Educação

Pode ser uma solução intermédia, mas não pode ser a única.

5. reforçar a Educação para a Cidadania porque é preciso educar correctamente antes de castigar.

A EPC consiste num processo politicamente correcto de lobotomia ideológica e de repressão cultural, não só das crianças como dos pais. Em Espanha, o EPC é utilizado para se ensinar a crianças de 6 anos que a homossexualidade é tão boa como a heterossexualidade, e que o casamento é apenas uma das muitas formas de relacionamento entre pessoas. A EPC é ideologia, e não educação. A educação depende da autoridade que decorre da tradição e do senso comum cultural. O EPC segundo José Sócrates vai exactamente no mesmo caminho de Espanha.

6 comentários »

  1. Como interveniente e vítima, assino por baixo, especialmente no que toca ao aspecto trivial de que, neste momento, os educadores não têm meios de persuasão e esse das faltas de castigo tem mesmo que regressar, não há volta a dar.

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    Comentar por Henrique — Segunda-feira, 8 Março 2010 @ 11:11 pm | Responder

  2. […] dei mal com isso — pelo menos aprendi a ser minimamente disciplinado. A minha opinião dei-a aqui. […]

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    Pingback por O sistema de educação tem que ser revisto urgentemente « Socraquistão — Sexta-feira, 12 Março 2010 @ 2:25 pm | Responder

  3. Orlando

    Tento olhar para trás para perceber o presente, mas no presente tento, com o que aprendi de trás, adequar soluções aos tempos que correm. Não que não compreenda o que pretendes dizer e com o qual até tenho muitas afinidades, mas…

    1 – O problema que está a desembocar nas escolas, o dito bullying, não é lá gerado nem seu fruto – trata-se de um grave problema social, transversal a todos os grupos sociais, que é o facto de os pais não educarem os filhos, nem para estar em casa quanto mais na escola;

    2 – sendo este o problema, parece-me querer tentar soluciona-lo será legislar, civil e penalmente, no sentido que penalizar os pais de filhos que socialmente não se sabem comportar, prejudicando outros;

    3 – perdoa-me a aspereza, mas com conselhos directivos eleitos ou directores de escola escolhidos entre professores, não vamos lá! Coloquem a director de escola pessoas formadas e experientes em gestão, nomeadamente, de equipas ou recursos humanos, sem ‘tiques’ psicoanalíticos que se foram instalando nos estabelecimentos de ensino.

    Abraço

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    Comentar por Carl0s Araújo Alves — Sexta-feira, 12 Março 2010 @ 3:02 pm | Responder

  4. Ora bem, vamos lá ver.

    1. “Adequar soluções aos tempos que correm” significa que se parte do princípio de que a essência (o ser em potência, a natureza humana) do ser humano pode ser alterada em função dos tempos. Ora isso não é possível sem que a ordem do ser humano seja reprimida e violentada através da força bruta (como aconteceu nos países marxistas e nos totalitarismos em geral). Portanto, temos que partir do princípio de que a natureza humana se mantém inalterada independentemente dos “tempos que correm”.

    2. Se o bullying não é hoje gerado nas escolas, nunca o foi no passado também. O bullying não é um fenómeno novo; eu também andei na escola primária , na secundária e no liceu, e sei que o bullying não era, já no meu tempo, propriamente gerado nos estabelecimentos de ensino.
    Mas o papel das escolas na educação era diferente no tempo de Salazar e Marcelo Caetano, porque os estabelecimentos de ensino e os professores tinham a autoridade para poderem complementar ou suprir as lacunas na educação das crianças provenientes de fracos ambientes familiares. Se a escola não serve também para isso ― para suprir lacunas na educação das crianças ― não cumpre integralmente o seu papel social.

    3. Em função do ponto 2., constata-se que os estabelecimentos de ensino não têm hoje a necessária autoridade para lidar com o problema, como tinham no tempo da “outra senhora”. O problema é político.

    4.O bullying não é considerado pela lei penal um crime punível em relação a menores. Por exemplo, se um menor rouba ou mata, pode ser punido com reformatório ou coisa que o valha. O bullying não está nesta situação nem pode estar, porque o bullying levado até certo ponto é normal nos relacionamentos entre crianças e adolescentes do sexo masculino (ver ponto 1: não é possível alterar a essência da natureza humana senão pela repressão anti-humana). Até nos jogos de futebol na escola existem mini-fenómenos de bullying; vamos proibir os jogos de futebol e pôr os meninos a brincar com bonecas e a sentarem-se na pia, como as meninas, para urinar ?! A educação é pré-política (ver adiante).

    5. O Estado não pode imiscuir-se na família. Este é um princípio sagrado. O Estado não tem que me dizer como eu tenho que educar os meus filhos ― pode e deve aconselhar os pais, mas não impôr regras. Perante este princípio que eu considero sagrado, a única coisa que o Estado (neste caso, a escola) pode fazer em relação a menores, e no caso de vertente do bullying, é “chamar à pedra” os pais ao mesmo tempo que suspende a criança por uns dias.

    6. Criminalizar (em lei penal) os pais pelo comportamento dos filhos que até pode ser casual e passageiro, causa-me náuseas e parece um projecto típico do bloco de esquerda. A escola (o Estado) tem que punir o aluno, e não punir os pais. A função da escola é educar o aluno, e não os pais. Não confundir as obras do mestre Picasso com as picas de aço do mestre de obras. Criminalizar os pais em lei penal significa que o Estado se imiscui nos negócios da família, isto é, na vida privada do cidadão. Não confundir espaço público com vida privada. (ver ponto seguinte).

    7. A educação das crianças é pré-política ― não pertence à política propriamente dita. O direito de participar nos assuntos públicos (na política) começa quando a educação está terminada. Não faz sentido que aquilo que é pré-político (a educação das crianças) passe para o domínio do político por via da lei penal. A autoridade da escola em relação aos alunos deve ser efectuada e reforçada na esfera própria da escola, ou seja, naquilo que é por inerência pré-político.
    A educação dos adultos (os pais das crianças), em termos políticos, é basicamente irrelevante. De nada serve à escola servir-se dos alunos para “educar” os pais. E muito menos terá alguma lógica criminalizar (na lei penal) comportamentos da esfera pré-política da educação de crianças.

    8. Nesta base, mantenho tudo aquilo que escrevi no postal.

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    Comentar por O. Braga — Sexta-feira, 12 Março 2010 @ 4:40 pm | Responder

  5. Caro Orlando, assino por baixo, estou plenamente de acordo com o que defendes. É o aluno que tem que ser educado e o professor não tem meios para «suprir essas lacunas» que, por circunstâncias várias, não trazem supridas de casa.
    A receita é, como sabemos, simples. Regresso às faltas de castigo, único meio eficaz para o professor. Mas há a barreira mental do politicamente correcto e dos coitadinhos, no caso do professor de Sintra os psicólogos já se puseram em campo para dar apoio aos coitadinhos dos alunos que não podem ser traumatizados.

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    Comentar por Henrique — Sexta-feira, 12 Março 2010 @ 5:13 pm | Responder

  6. eu sofri bulling por ser loiro, mas eu consegui suportar e ñ me inforquei q nem uma menina q sofreu…

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    Comentar por pedrico — Sexta-feira, 19 Novembro 2010 @ 10:03 am | Responder


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