perspectivas

Domingo, 7 Março 2010

A cebola politicamente correcta

« Para as necessidades da vida do dia-a-dia, é sem dúvida necessário ― ou algumas vezes necessário ― reflectir antes de falar; mas um membro do Partido chamado a fazer um juízo político ou ético deve ser capaz de emitir as opiniões correctas de uma forma tão automática como se de uma metralhadora disparando balas se tratasse. »

― George Orwell, “1984”


Quando José Sócrates disparou as “balas” no congresso do partido socialista que acabaram por liquidar a jornalista Manuela Moura Guedes, nunca ninguém tinha pensado que alguma coisa parecida com o período revolucionário que se seguiu ao 25 de Abril pudesse voltar acontecer. O grave é que agora não é a esquerda estalinista a protagonista totalitarizante porque esta perdeu balanço histórico, mas a esquerda marxista cultural constituída pelo partido socialista acossado pelo bloco de esquerda (BE). Quando me refiro ao “efeito bloco de esquerda” na nossa sociedade, quero significar exactamente este efeito de coerção política sobre o PS que os próprios eleitores habituais deste partido não se dão conta: o “efeito bloco de esquerda” dá-se ao nível das cúpulas políticas dos dois partidos.

Os portugueses terão que compreender que este partido socialista já não é o mesmo PS de Mário Soares dos anos 80 do século passado. O PS de Mário Soares estava do lado da barricada que defendia a liberdade; o PS actual (ou em acto) é um partido que se encontra do lado da barricada do BE que tem uma agenda política totalitária.

As aparentes diferenças entre o actual PS e BE têm a ver com o “sistema de cebola” (1) que une os núcleos duros dos dois partidos no essencial mas que se separa nos eleitorados dos dois partidos em geral. A corrupção a nível de cargos públicos, a tolerância em relação ao liberalismo económico ( a intervenção igualitarista na economia pode esperar pelo compasso de Gramsci), o tráfico de influências, etc., são fait-divers que tendem a desviar a atenção do cidadão incauto. A justiça “emperrada” a partir do mais alto nível da estrutura da justiça, é propositada.

O conceito de dialéctica hegeliana aplicada à política correcta exige que as antíteses sejam provocadas para assim se justificar a supressão dialéctica das contradições que levem paulatinamente e sem muita dor, à revolução totalitária gnóstica. Se não existe crime, cria-se o crime; se não existe corrupção, criam-se as condições para que ela prolifere ao mesmo tempo que as elites desses dois partidos aparecem nos telejornais a condená-la, e sugerindo simultaneamente uma “evolução qualitativa nas políticas” que suprima os males do mundo através de uma cada vez maior concentração do Poder: é a estratégia política recorrente do “espeta a faca e passa o algodão com a anestesia”; quando os portugueses se derem conta, tem a faca espetada até ao cabo e estão totalmente anestesiados.

Sempre que estes dois partidos propõem medidas de combate ao crime e à corrupção, um pouco da liberdade do cidadão é tomada, ao mesmo tempo que criaram as condições objectivas para que os índices de criminalidade subissem astronomicamente. A liberdade da maioria é tomada, nomeadamente, através do multiculturalismo, do gayzismo e do feminismo que cria leis especiais com direitos especiais para as minorias com o único fito político de retirar direitos à maioria. “Espeta a faca e passa o algodão com a anestesia”.

Gota a gota, lei a lei, a sociedade vai perdendo autonomia política. O “emperramento” da justiça faz parte da estratégia totalitarizante, porque sem uma justiça eficiente torna-se evidente e premente a concentração do Poder nas mãos dos iluminados gnósticos.

O sistema totalitário difere do clássico autoritarismo político porque se constrói através do “sistema da cebola”: o líder e o núcleo político encontra-se no centro da cebola que tem várias camadas até à superfície táctil. A acção política do líder e do núcleo duro é iniciada a partir de centro da organização para o exterior, e não a partir de cima para baixo, como acontece no autoritarismo que tem uma estrutura piramidal e cujo poder do líder autoritarista é justificado por uma realidade que transcende a própria sociedade.

Aquilo a que o semanário Sol chamou de “polvo” consiste numa extraordinária diversidade de partes legais e clandestinas do movimento gnóstico-totalitário que se entre-cruzam e se inter-comunicam ― organizações partidárias, membros de um ou de mais partidos com idêntica sensibilidade política, sindicatos e agremiações profissionais, as formações da elite política e a máquina do Estado que inclui organizações policiais e para-policiais como é o caso da ASAE, etc., ― que estão relacionadas de tal modo que cada um desses centros de poder ou dessas organizações, formam uma fachada numa direcção, e o centro noutra direcção.

Isto significa que o papel do mundo exterior “normalíssimo” e corriqueiro é desempenhado por uma das faces, o que dá ao movimento uma aparência vulgar de Lineu e até relativamente consentânea com a generalidade dos conceitos do senso-comum ― enquanto que noutra face ou nas camadas mais inferiores, o radicalismo extremo vai imperando à medida que se aproxima do centro da cebola. Esse radicalismo é gnóstico e pretende a mudança revolucionária da ordem do ser humano através de engenharias sociais presentistas tendo em vista uma nova versão totalitária do marxismo/leninismo/estalinismo (espeta a faca e passa o algodão com a anestesia).

O núcleo do movimento revolucionário (o centro da cebola, constituído pelo líder e pelo núcleo duro, ou por uma coligação tácita pan-partidária ) fornece a cada uma das camadas da cebola a ficção de um mundo normal e, simultaneamente, através de uma metanóia ideológica (vulgo “lobotomia”), dá a essas camadas exteriores da cebola a consciência de serem diferentes desse mundo e mais radicais do que ele. As camadas superiores e superficiais da cebola são aquelas que lidam com a realidade social do dia-a-dia e com o senso-comum cultural.

Assim, os simpatizantes nas chamadas “organizações de fachada” (QUERCUS, SOS RACISMO, ILGA Portugal, e estava aqui o dia todo a enumerá-las), cujas convicções da maioria dos seus membros diferem somente em intensidade em relação às convicções dos membros do movimento pan-partidário que se encontram nas camadas mais interiores da cebola ― esses simpatizantes das “organizações de fachada” rodeiam todo o movimento pan-partidário e providenciam uma enganadora fachada de normalidade cultural e política em relação ao mundo exterior ao movimento ideológico, devido ao seu menor grau de fanatismo e extremismo (ou mesmo devido à ausência de fanatismo e de extremismo em termos da ideologia totalitária marxista cultural; muitas vezes, são os idiotas úteis) ao mesmo tempo que essas “organizações de fachada” representam o “mundo normal” (ou tal como esse mundo deveria ser normalizado) em relação ao movimento totalitário gnóstico.

Os membros que existem politicamente nas camadas mais interiores da cebola acreditam que as suas convicções só em grau diferem das crenças das outras pessoas e que, desse modo, jamais precisarão de tomar consciência do abismo que separa o seu mundo do mundo que de facto o rodeia. Esta inadequação da realidade subjectiva à realidade objectiva é bastamente constatada em José Sócrates, e é uma característica da fé metastática (2) gnóstica e revolucionária. A estrutura do movimento pan-partidário socratino e bloquista (de que Manuel Alegre pretende ser a charneira) em forma de cebola faz com que todo o sistema seja invulnerável à factualidade do mundo real.

Naturalmente que o observador incauto poderá dizer que vê na televisão o Louçã a criticar o PS. As próprias críticas políticas mútuas são manifestações das diferentes “organizações de fachada” que zelam para que a “normalidade” democrática não seja afectada aos olhos do cidadão comum, enquanto que as engenharias sociais e a limitações das liberdades são paulatinamente levadas a cabo, como quem “espeta a faca e passa o algodão com a anestesia” até que a faca esteja toda metida dentro do corpo da sociedade.


(1) Conceito de Hannah Arendt , em “Sobre a Revolução”
(2) Fé metastática : conceito de Eric Voegelin que consiste na crença gnóstica segundo a qual é possível mudar a natureza fundamental da realidade.

2 comentários »

  1. […] evidente da actual Esquerda, os ditos espertalhões definem a orientação política da camada exterior da cebola do totalitarismo de veludo vigente (segundo o conceito de Hannah Arendt) […]

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    Pingback por Aquilo a que chamamos “democracia” já não faz sentido. | perspectivas — Segunda-feira, 16 Dezembro 2019 @ 9:48 pm | Responder

  2. […] evidente da actual Esquerda, os ditos espertalhões definem a orientação política da camada exterior da cebola do totalitarismo de veludo vigente (segundo o conceito de Hannah Arendt) […]

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    Pingback por Aquilo a que chamamos “democracia” já não faz sentido. | Escólios — Segunda-feira, 16 Dezembro 2019 @ 9:50 pm | Responder


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