perspectivas

Sábado, 6 Março 2010

Religião, tradição, autoridade

Se eu fosse militante do bloco de esquerda ou do partido comunista, defenderia essencialmente duas coisas: a primeira, a abertura total e inquestionada da imigração de origem islâmica; a segunda, a repressão de manifestações nos mídia por parte das igrejas cristãs. As esperanças dos novos totalitarismos gnósticos dependem muito do desenvolvimento político que o próprio multiculturalismo actual trará à Europa do futuro, e da repressão das expressões religiosas autóctones.

Um dos slogans atribuídos ao regime de Salazar era o de “Deus, Pátria, Autoridade” o que, em certa medida, coincide com a trilogia que dá o título a este postal. Porém, “autoridade” não é “autoritarismo”; um regime político autoritarista não é necessariamente promotor cultural da autoridade. Pelo contrário, o autoritarismo mina o fundamento da autoridade que é o da obediência sem o recurso à força da violência. Portanto, o Estado Novo apropriou-se de um conceito que não lhe pertencia. Por detrás do regime de Salazar existia claramente uma religião política. Aliás, o movimento que esteve na base da implantação do Estado Novo em 1926 era tão revolucionário como o movimento que implantou a república em 1910 ― Portugal tem vindo a sofrer várias revoluções gnósticas desde 1910.

Ora se a autoridade não existe sem a tradição e sem a religião, podemos dizer que a modernidade erradicou a autoridade da nossa sociedade através dos sucessivos movimentos revolucionários que geraram as religiões intra-mundanas e políticas que, por sua vez, deram origem aos modernos totalitarismos e sistemas autoritaristas para todos os gostos.

Se a autoridade é incompatível com os totalitarismos (marxismo, nazismo, fascismo) e com os regimes autoritaristas (como foi o do Estado Novo em Portugal, a ditadura militar no Brasil, etc.), é uma incongruência populista dos totalitarismos e dos autoritarismos modernos tentar associar uma pretensa “autoridade” conseguida pela força da violência, à tradição e à religião. A tradição, por sua vez, é incompatível com o autoritarismo porque interdepende da autoridade; e a religião é o fundamento da tradição e da autoridade como princípio de ordem e como fundamento da ética que preside à sociedade.

Sendo que a autoridade se escora no reconhecimento da hierarquia em si mesma por parte da esmagadora maioria dos cidadãos, a autoridade é incompatível com a persuasão que implica o conceito de “paridade”. Em democracia, a persuasão é o instrumento de acção política por excelência, e de tal forma que a mentira organizada passou a ser o principal instrumento de acção política através da persuasão. O caso de José Sócrates é paradigmático. Por isso, podemos dizer que a autoridade também não é compatível com a democracia enquanto domínio das religiões políticas ― aliás, já Platão reconheceu a incompatibilidade entre a autoridade e a democracia da pólis ateniense. Neste ponto, convém introduzir uma frase de Edgar Morin, que foi membro do partido comunista francês:

« (…) a lógica do liberalismo político leva-o a tolerar ideias ou movimentos que têm como finalidade destruí-lo. A partir daí, perante a ameaça, o liberalismo está condenado, quer a tornar-se autoritário, isto é, a negar-se ― provisória ou duradouramente ― a si mesmo, quer a ceder o lugar à força totalitária colocada no poder por meio de eleições legais (Alemanha, 1933) »

― (“Pour sortir du XX siècle”, 1981)

Para as religiões políticas em geral, a liberdade faz parte de um processo linear a que chamam de “progresso”. Porém, e como podemos ver através da opinião de um ex-comunista e ainda marxista, até os intelectuais sérios de esquerda já começam a colocar em causa a ideia positivista de “progresso”. Começa-se a chegar à conclusão de que só existe verdadeiramente progresso na sociedade quando existe, em primeiro lugar, uma ética que por definição e inerência se aplica universalmente. Acontece que — como fiz prova aqui — nenhuma ética pode existir sem a religião predominante na sociedade; e sem religião e sem autoridade, deixa de existir uma tradição minimamente necessária, e a sociedade transforma-se num mundo proteico (1) em que cada vez mais se torna difícil programar (e não “prever”, que é outra coisa) o muito curto prazo.

Podemos questionar, por exemplo, a ética decorrente da religião islâmica, e eu sou o primeiro a fazê-lo porque o islamismo tem uma componente política muito forte, ao contrário do que acontece com o cristianismo e o budismo, por exemplo. Contudo, a verdade é que o islamismo impõe-se hoje na Europa, substituindo paulatinamente as sociedades massivamente secularizadas e divorciadas do cristianismo, por um novo princípio de ordem (o Islão), o que significa a imposição, a breve trecho e por parte de uma maioria populacional islâmica imigrante, de um novo tipo de religião, de tradição e de autoridade (2). Eric Voegelin escreveu em “Nova Ciência da Politica”:

« A civilização pode, de facto, avançar e declinar em simultaneidade ― mas não para sempre. Existe um limite em relação ao qual se dirige este ambíguo processo; o limite é alcançado quando uma seita activista que representa a verdade gnóstica, organiza a civilização em forma de um império sob seu controlo. O totalitarismo, definido como o governo existencial dos activistas gnósticos, é a forma final da civilização progressista. »

Portanto, a previsão da solução para o problema do islamismo como novo princípio de ordem na Europa, consiste no surgimento de um novo totalitarismo gnóstico à escala europeia. Se eu fosse militante do bloco de esquerda ou do partido comunista, defenderia essencialmente duas coisas: a primeira, a abertura total e inquestionada da imigração de origem islâmica; a segunda, a repressão de manifestações nos mídia por parte das igrejas cristãs. As esperanças dos novos totalitarismos gnósticos dependem muito do desenvolvimento político que o próprio multiculturalismo actual trará à Europa do futuro, e da repressão das expressões religiosas autóctones.

Por outro lado, Eric Voegelin torna evidente em toda a sua obra que o progresso das sociedades não é linear, por um lado, e que a forma final da sociedade progressista é o totalitarismo, por outro. E a ideia de que este processo de perda de autoridade é inexorável (Oswald Spengler, entre outros) e de que a recuperação da autoridade é uma causa perdida (libertários em geral), é essencialmente propalada, consciente ou inconscientemente, pelos movimentos gnósticos e revolucionários. Decorre desta ansiedade gnóstica perante as evidências, o desejo do governo global que se interponha entre o homem e a sociedade em que vive ― e entramos na maior contradição exponencial que consiste em vermos os libertários defenderem um governo mundial que, por dinâmica própria, não admitiria nunca a existência de relapsos e exilados políticos.

O problema da falta de autoridade nas sociedades modernas agravou-se seriamente a partir do momento em que aquela se estendeu a áreas pré-políticas, como são os casos da puericultura e da educação, e mesmo mais recentemente, a áreas privadas da sociedade e eminentemente apolíticas, como é o caso da família. As religiões políticas de esquerda (marxismo e derivados) e de direita (neoliberalismo hayekiano) retiraram a família da esfera privada e transformaram-na num espaço público. Ambas as religiões políticas tendem a transformar a vida do cidadão num espaço público de onde só se separa por umas horas quando vai dormir.

Portanto, quando falamos hoje em falta de autoridade nas nossas escolas, ela deve-se à falta de autoridade que existe na sociedade em geral. Cabe ao povo perceber isto e tentar mudar de agulha; da classe política não podemos esperar nada senão o presentismo das comodidades e dos privilégios.

(1) “proteico”: relativo a Proteu, o deus grego que mudava constantemente de forma.
(2) Ler este artigo do Tenente-coronel João José Brandão Ferreira.

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