perspectivas

Domingo, 28 Fevereiro 2010

A experiência do pensamento

« Ele tem dois adversários. O primeiro empurra-o pelas costas, desde a origem. O segundo bloqueia o caminho à sua frente. Ele dá luta a ambos. Na verdade, o primeiro apoia-o no seu combate contra o segundo, ao empurrá-lo para diante; e, do mesmo modo, o segundo apoia-o no seu combate contra o primeiro, ao fazê-lo retroceder. Mas isto é assim apenas em teoria; pois não existem apenas os seus adversários, existe ele próprio também, ¿ e quem sabe realmente quais são as suas intenções ?

O seu sonho, porém, é ver chegar um momento de menor vigilância ― o que exigiria uma noite mais negra do que alguma vez se viu ― em que pudesse fugir da frente de batalha e ser promovido, à conta da sua experiência de combatente, à posição de árbitro na luta entre os outros dois adversários. »

Franz Kafka, “Ele”, in “Notas do Ano de 1920”


Este texto de Kafka traduz a realidade humana no espaço-tempo
― que pode não ser exclusivamente humana, se atendermos a que o ser humano vive numa nebulosa com 200 mil estrelas e com 100 mil milhões de anos/luz de extensão; e não contando com os milhões de nebulosas que existem detectadas pelo conhecimento humano.

A realidade humana passa pela experiência do pensamento que decorre da consciência. Assim, não existe absolutamente nada (senão por via de um egocentrismo e de uma subjectividade absolutamente irracionais) que nos possa convencer ― à luz de uma simples teoria das probabilidades ― que a consciência apenas existe entre os humanos. Não sei até que ponto Kafka tinha a noção disso, mas esta sua parábola tem uma dimensão quântica.

Embora sendo a consciência a condição do pensamento, este já depende da experiência; da prática; do exercício. A experiência do pensamento distingue-se dos outros processos mentais decorrentes da lógica matemática ― a indução, a dedução, análise, síntese, etc. Os processos mentais lógicos adquirem-se no tempo histórico sem necessidade de uma auto-diferenciação das qualidades da realidade da consciência. O processo da diferenciação da consciência através da experiência do pensamento surgiu, entre outros locais, na Grécia Antiga; não me surpreenderia nada que o texto supracitado fosse atribuível a Parménides, quando se experiencia o pensamento do passado e do futuro como forças que se anulam mutuamente e que condicionam o ser.

Ficamos, pois, a saber que o pensamento tem experiência própria, e que na origem do pensamento está a consciência. E podemos compreender que a consciência pode ser ou “compactada”, como acontecia entre os gentios da pré-história com os seus mitos intra-cósmicos, ou “diferenciada”, como surgiu com o exercício da experiência do pensamento na “Época Axial” (segundo Karl Jaspers) compreendida entre os anos 800 e 200 a.C.. Nessa época axial, tivemos Lao-Tsé, os Upanichades, Buda, Zaratustra, Elias e os profetas do judaísmo, Homero, Tucídides, Arquimedes, Heraclito, Parménides, Platão, Aristóteles ― tudo gente que trabalhou no sentido da “diferenciação” da consciência através da experiência do pensamento.

A diferenciação da consciência através da experiência do pensamento ao longo da época axial preparou a ousia do Logos ― a hipóstase de Jesus Cristo.

A diferenciação da consciência através da experiência do pensamento não é algo que possa ser herdado de uma geração a outra, como quem herda uma propriedade dos seus pais: terá antes que ser assimilada e conquistada por cada indivíduo nos ciclos do espaço-tempo e do ser. O homem novo recebe apenas a indicação do caminho a percorrer para que não caia na dimensão da consciência compactada e mitológica semelhante à que marcou a origem troglodita do ser humano; para que não se transforme num troglodita moderno.

4 comentários »

  1. Não sei se entendi muito bem o teor do post, mas quando fala de consciência, é como aquela consciência de Husserl, de se tornar consciente da realidade a partir da evidência desta? Desculpe minha ignorância…

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    Comentar por Eduardo — Segunda-feira, 1 Março 2010 @ 12:24 pm | Responder

    • @ Eduardo:

      1.Por muito que Husserl seja importante, não nos podemos esquecer que ele sofreu uma forte influência positivista. Sem arrumarmos o positivismo e o método das ciências da natureza no seu lugar próprio, não conseguiremos avançar ― estaremos perpetuamente confrontados com um beco sem saída ideológico que condena a tradição do pensamento desde a Antiga Grécia mas que não dá soluções para o problema da existência (problema do ser). O único caminho que o positivismo nos dá é a tradição da anti-tradição, a filosofia da anti-filosofia, a existência da anti-existência, o ser do não-ser.

      2.Aconselho você procurar no Google as seguintes palavras: « quantum conscience Copenhagen Bernard d’Espagnat ».

      3.Experiências realizadas em laboratório demonstraram que a função ondulatória quântica (FOQ) ― atenção: a FOQ não é matéria porque não tem massa, assim como não podemos dizer que a luz é matéria porque a luz não tem massa ― se transforma em partículas elementares longevas (PEL) ― as PEL são matéria porque têm massa ― quando são observadas por uma consciência. Repito: observadas!

      4.Isto significa que a não-matéria se transforma em matéria através da simples observação por parte de uma consciência.

      5.Partindo deste princípio demonstrado empiricamente, todo o universo terá que ter sido “observado” por uma consciência, para que a não-matéria se pudesse transformar em matéria.

      6.Isto significa que a consciência é anterior à matéria.

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      Comentar por O. Braga — Segunda-feira, 1 Março 2010 @ 6:05 pm | Responder

  2. Você quer dizer a consciência humana, ou uma consciência universal como, Deus ou coisa semelhante?

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    Comentar por Eduardo — Terça-feira, 2 Março 2010 @ 5:02 pm | Responder

  3. A consciência humana está ― digamos assim ― “misturada” com realidade espaço-temporal. A consciência humana é, neste sentido, criada, ou seja, não faz parte da mesma dimensão da consciência universal ou divina ― ao contrário do que idealistas alemães diziam; os idealistas diziam que a essência da consciência humana era a mesma da consciência divina, o que resultou na deificação do homem do modernismo.

    Se todo o universo tem que ser “observado” por uma consciência, essa consciência não pode ser igual à consciência humana. Isto é pura lógica. A consciência humana não tem a capacidade de “observar” todo o universo.

    O que é admirável é que Orígenes já defendia esta ideia quando escreveu que “o Logos tem que estar constantemente a olhar para (observar) o Pai”, para que aquele pudesse manter o universo.

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    Comentar por O. Braga — Terça-feira, 2 Março 2010 @ 10:19 pm | Responder


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