perspectivas

Sexta-feira, 26 Fevereiro 2010

As prioridades do movimento conservador moderno

Os conservadores não podem olhar para o passado senão procurando os paradigmas perdidos através do “esquecimento imaginativo” (1) próprio do Iluminismo. Antes devem os conservadores olhar para o presente e reconstruir o futuro partindo do princípio de que uma catástrofe civilizacional destruiu as estruturas da sociedade a partir do século XIX. Tal como de nada vale aos haitianos passarem o tempo a lamentarem-se da tragédia que lhes aconteceu, mas antes devem reconstruir o seu país a partir daquilo que existe embora tendo em conta o passado, assim os conservadores devem encarar a situação de decadência civilizacional que já não é só do ocidente, e trabalhar em função da realidade objectiva.

  1. Uma das prioridades do conservadorismo moderno é minar o desenvolvimento da fileira das ideias gnósticas de Hobbes a Rousseau, e o desenvolvimento modernista gnóstico posterior em duas fileiras paralelas (Comte, Bentham e os utilitaristas, Hegel, os idealistas alemães, Nietzsche, Heidegger = Hitler / Hegel, Engels, Marx, Lenine = Estaline) que se basearam no conceito elitista e discricionário de “vontade geral” que orientou a revolução jacobina.

    Essa prioridade passa pela instituição de alguns (não muitos) mecanismos de democracia directa como forma de fazer vingar, face ao poder político, o senso-comum prevalecente na sociedade. O senso-comum é o maior inimigo da mente revolucionária, e a instauração de alguns mecanismos de democracia directa ― mormente no que diz respeito a referendos em relação às chamadas “causas fracturantes” e das engenharias sociais promovidas pela mente revolucionária ― será um factor importante de reequilíbrio da sociedade em uma ordem estruturada em princípios primeiros e objectivos.

    Portanto, ser conservador hoje, não é recusar a liberdade mas antes zelar para para que a liberdade não seja, em si, a negação de um efeito e seja consentânea com a sua causa: a vontade que se enquadra na ordem do ser.

  2. Em segundo lugar, os conservadores terão que exigir do Estado não uma neutralidade em relação às religiões universais ― porque essa neutralidade do Estado significa já, em si mesma, uma tomada de posição negativa em relação a essas religiões ― mas antes o reconhecimento explícito do Estado da utilidade pública das religiões. Isto significa que as religiões devem voltar a participar da educação do cidadão em formas consentâneas e adequadas ao mundo pós-moderno.
  3. Em terceiro lugar, o direito positivo ― que tende cada vez mais a reduzir a norma ao facto, por força da sua lógica interna ― deve ter em conta não só os mecanismos da democracia directa, mas também o princípio da equidade de Aristóteles que determina a importância capital do jusnaturalismo na feitura das leis.
  4. Em quarto lugar, as comunidades da sociedade civil devem passar a ser muito mais valorizadas pelo Estado. Mais: o estatuto do Estado seria a de um parceiro (embora em um nível superior) entre essas comunidades da sociedade civil. A organização dos cidadãos em comunidades tem a vantagem de evitar as tentações totalitárias e populistas, na medida em que evita a concentração do poder, por um lado, e impede a atomização da sociedade que sempre abriu caminho aos totalitarismos do século XX, por outro lado.

    Deixa de existir a polarização Estado/cidadão que é característica do liberalismo/marxismo/movimento revolucionário, para passarem a existir as comunidades representativas de permeio (não confundir “comunidades” com “corporações”; estas podem fazer parte das comunidades da sociedade civil, mas as comunidades não se resumem às corporações).

(1) “esquecimento imaginativo”: expressão de Eric Voegelin (“Ordem e História”, volume 5, sobre Hegel)

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2 comentários »

  1. Dividir para Governar!

    Comentar por Ashera — Sexta-feira, 26 Fevereiro 2010 @ 11:25 am | Responder

  2. “Dividir para Governar!”

    É exactamente isso que faz o movimento revolucionário: a atomização da sociedade através da polarização Estado/cidadão. Naturalmente que na nossa sociedade actual, essa atomização não foi (ainda) levada a um extremo tal que possa justificar alarme, mas as sementes do totalitarismo estão incrustadas nessa polarização.

    Comentar por O. Braga — Sexta-feira, 26 Fevereiro 2010 @ 6:02 pm | Responder


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