perspectivas

Domingo, 31 Janeiro 2010

A ignorância cientificista e o revisionismo do holocausto nazi

O autor do blogue “O Citadino” já comentou aqui neste meu humilde tugúrio, chamando-me de “ignorante”. Eu não nego a minha ignorância em muitas coisas, mas como dizia Aristóteles (mais ou menos isto), o que importa é aprender pelo amor à arte que advém do saber, e não aprender pela utilidade que a ciência possa ter. No primeiro caso ― e segundo Aristóteles ― o Homem é livre porque não tem dono e segue a lógica e a razão, em vez de seguir, como muitas vezes acontece no segundo caso, a racionalização que é imposta pelos outros através daquilo a que chama de “aprendizagem que desconhece as causas primeiras” (ou, transpondo o conceito para a modernidade, de “ensino oficial do Estado”).

A ciência ― entendida no sentido utilitário ou técnico e essencialmente pelo método positivista ― é imbuída de uma auto-confiança que lhe é dada pela “certeza” (pelo menos da “certeza” inerente a cada Zeitgeist no processo do devir) que lhe advém da verificação da causalidade empírica dos fenómenos. Porém, quando essa auto-confiança, que é própria da ciência positivista, é literalmente transferida para a existência humana, passa a predominar na sociedade a crença segundo a qual a nossa existência pode ser orientada e coordenada, em sentido absoluto, através da “verdade” da ciência.

Ora, a propagação desta crença cientificista ― ou seja, a valorização absoluta da ciência positivista, e da posse do conhecimento científico ― leva à legitimação da ignorância em tudo o que diz respeito aos problemas que existem para além da ciência dos fenómenos.

Em resultado dessa crença cientificista ― a que podemos chamar de “ignorância cientificista” ― , grassa em massa, na nossa sociedade, a ignorância em relação aos problemas existenciais que são de decisiva importância para todos nós. Este novo tipo de ignorância (a “cientificista”) transformou-se em um desastre civilizacional na medida em que a ordem do ser (a ordem da existência do ser individual e da sociedade) não pode ser determinada através da aquisição de conhecimento no sentido fenomenológico (no sentido do método da ciência positivista). É esta ignorância cientificista sobre a existência, legitimada pelos manuais escolares baseados na ciência do nosso tempo, que permitiu e legitima ao “citadino” chamar-me de “ignorante”.


Esta palestra prévia vem a propósito deste postal do citadino que aborda o revisionismo do holocausto, não no sentido crítico (que até seria legítimo) mas no sentido apologético que se distingue da posição crítica pela colocação e utilização das palavras (lógica do discurso) ― que é característica não só da extrema-direita, como do radicalismo de esquerda de tipo Bloco de Esquerda. E esta coincidência de posições acerca do revisionismo do holocausto, existente entre os radicalismos de direita e de esquerda, estão ligadas ao fenómeno da “ignorância cientificista” de que falei acima, por um lado, e aos mitos das religiões políticas que surgiram com a afirmação do gnosticismo moderno a partir do Iluminismo, por outro lado.

  1. A ideia revisionista da “ausência de câmaras-de-gás em Auschwitz-Birkenau” teve início logo a seguir à libertação dos presos ainda vivos, não obstante os impressionantes testemunhos documentados e de provas existentes. Ora são estas provas e testemunhos que o revisionismo contesta, e portanto o problema colocado nesta forma não tem solução, porque passa a ser uma questão de opinião, na medida em que os próprios testemunhos dos sobreviventes de Auschwitz-Birkenau passam a ser tratados como opiniões.
  2. A partir da colocação em dúvida da existência de câmaras-de-gás em Auschwitz-Birkenau, extrapola-se para a ideia de que não existiu nenhuma câmara-de-gás em nenhum outro campo de concentração nazi. E a partir daqui, o abandono do genocídio convida a desconstruir a História, e a monstruosidade nazi transforma-se em um mito fabricado pelos vencedores para fazer do vencido o bode expiatório dos horrores da guerra que devem ser compartilhados por todos os beligerantes.
  3. Quando a esquerda radical aceita implicitamente o revisionismo, tem como intenção a tentativa de estender a lógica revisionista aos cerca de 60 milhões de pessoas mortas nos Gulag ― número muito superior aos mortos nos campos nazis. Portanto, o marxismo matou mais gente ― não só intra-muros, mas extra-muros ― do que o nazismo.

Admitamos que a câmara de gás em Auschwitz-Birkenau não existiu.

Vala comum em Auschwitz-Birkenau

A este campo de concentração nazi chegavam inúmeros comboios de deportados e, depois dessas chegadas e das selecções de ingresso no campo, desapareceram velhos, doentes e crianças. Portanto, existiu uma conexão lógica entre a selecção dos presos à entrada, e o seu desaparecimento posterior a essa selecção.

Por outro lado, os próprios concentracionários de Auschwitz-Birkenau acreditavam na existência das câmaras de gás no campo ― que não é, ipso facto, uma invenção exterior ou posterior. Não faz sentido que essa ideia, por parte dos concentracionários, da existência de câmaras de gás se resuma a uma crença ou mito predominante no interior do próprio campo de concentração; o “boato” de Auschwitz-Birkenau acerca das câmaras de gás (na hipótese desse boato não ser fruto de informações exactas transmitidas de boca em boca a partir de uma fonte dos sonderkommandos) exprime o espanto dos concentracionários e confirma o carácter massivo dos desaparecimentos.

Tal como aconteceu em relação ao apaniguados do marxismo-leninismo da ex-URSS, os revisionistas “esquecem-se” da natureza mortífera do nazismo, na paz e na guerra. O nazismo não foi metido na guerra: provocou-a. Os campos de concentração nazis (assim como os Gulag marxistas) não foram campos de trabalho, mas campos esclavagistas. O eugenismo baseado na superioridade da “raça” ariana ― um conceito alegadamente escorado na ciência positivista e, portanto, na “ignorância cientificista” ― determinou a deportação em massa de milhões de pessoas que desapareceram. Se essas pessoas que desapareceram em Auschwitz-Birkenau e noutros campos, foram gazeadas ou não, é totalmente irrelevante.


Em resumo: não basta estudar as matérias das disciplinas positivistas. Aristóteles definiu a filosofia como “a ciência teórica dos primeiros princípios e das primeiras causas, porque uma das causas é o Bem ― a Razão final”. É neste sentido que a filosofia, como estrutura da formação da personalidade num processo educacional, é insubstituível e deveria ser incluída nos curricula desde tenra idade ― naturalmente com programas adequados a cada faixa etária. E é por a filosofia se constituir como uma ameaça às religiões políticas da modernidade, que há quem defenda o seu ensino circunscrito às elites das universidades.

2 comentários »

  1. Gostei muito deste texto. Até que enfim que alguém resolve falar sobre metafísica propriamente dita. A causalidade que refere no seu texto,não existe no mundo dos processos sub-atómicos,a esses níveis a causalidade do universo desaparece assim como a localidade. Aqui é que está o grande problema civilizacional,entendemos demasiadamente bem ,de uma forma fanática até, os fenómenos locais e causais. Mas quando se descobre a mecânica quãntica e as suas implicações,toda a base do mundo material sofre um grande abanão. Há outros processos,chamemos-lhes espirituais,metafísicos,o que quisermos,mas há outra ordem para além do nosso mundo visível.É a física quântica que o diz,são as novas abordagens científicas que o confirmam a todo o momento.Portanto,a ciência oficial limita-se a ser mais um orgão de desinformação oficial.Tão claro como isto.

    Quanto à questão do revisionismo,só me apetece dizer e perguntar,porque se criminaliza opiniões e investigações que pretendam contradizer as versões oficiais??

    Pois,porque como no mundo sub-atómico,também no mundo de manipuladores da história oficial,a realidade é bem mais dura e incrível do que a ficção…

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    Comentar por Skedsen — Domingo, 31 Janeiro 2010 @ 2:13 pm | Responder

  2. @ Skedsen

    O que é criminalizado é o negacionismo, e não o revisionismo. Por exemplo, os franceses Faurisson e Thion sempre foram revisionistas e nunca foram presos em França senão o primeiro quando assumiu o negacionismo. O revisionismo reduz os números do holocausto de 5 milhões para 1 milhão; o negacionismo diz que ninguém foi executado nos campos de concentração — morreu tudo de morte natural.

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Robert_Faurisson

    http://en.wikipedia.org/wiki/Serge_Thion

    A crítica a Israel não pode passar pela recusa dos factos históricos.

    @ Citadino:

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    Comentar por O. Braga — Domingo, 31 Janeiro 2010 @ 5:48 pm | Responder


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