perspectivas

Terça-feira, 26 Janeiro 2010

O Homem constrói as leis através de um processo de descoberta

Filed under: filosofia,Quântica — O. Braga @ 9:13 am
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Atentemos à seguinte proposição:

« A gravidade (…), embora intuída, tem um carácter hipotético. Os corpos não se atraem por causa da lei, mas a lei é que se constrói para explicar o movimento dos corpos. (…)

Em suma: as leis não se descobrem ― constroem-se. »

Esta concepção lógica sobre as leis da física (e das leis da ciência em geral) é a predominante do nosso tempo; moldou-se a partir do Iluminismo com uma mistura entre o positivismo (naturalismo materialista que evoluiu de Demócrito, Epicuro, Hobbes, os Enciclopedistas, Comte, os materialistas modernos) com o idealismo objectivo (de Heraclito, estóicos, Espinosa, Schelling, Schleiermacher, Hegel).

A ideia de que “as leis não se descobrem, mas constroem-se”, só tem validade lógica se se partir do princípio de que as leis da natureza só existem a partir do momento em que o Homem as intui, compreende, analisa e depois as re-intui através do simbolismo discursivo da linguagem ― ou seja, as leis só existem se o Homem existe. Voltamos ao velho problema: “se cair uma árvore na floresta, e não existir ninguém por perto para ouvir o ruído da árvore que cai, será que essa árvore existe?”

A ideia de que as leis da natureza não existiriam se o ser humano não existisse, é de um absurdo total; no entanto, a lógica incorpora essa ideia. O que pode acontecer ― e na maior parte das vezes acontece ― é que as leis da natureza que determinam a ordem cósmica não são totalmente coincidentes com a descoberta que o Homem faz delas, e só neste sentido, podemos dizer que o Homem “constrói” as leis da física. Porém, essa “construção” é feita a partir da intuição e da constatação de facto, ou seja, é uma interpretação das leis da natureza pré-existentes e subjacentes à própria ordem cósmica anteriores ao aparecimento do ser humano.

Metaforicamente, podemos conceber a lei da gravidade como um enorme puzzle, de que o ser humano vai juntando as peças. Neste sentido, o Homem vai construindo o puzzle através da descoberta do seu sentido pré-existente. Por vezes, o Homem engana-se e coloca uma peça do puzzle no sítio errado, e mais tarde esse erro é detectado pela verificação lógica, e a teoria que levou a colocar a peça no sítio errado é revogada ou corrigida.

Portanto, a construção da lei da ciência humana obedece a um processo de descoberta da lei da natureza que preexiste na ordem cósmica. Só podemos falar em “construção” da lei da gravidade enquanto as duas leis (a que decorre da subjectividade humana, e a que decorre da objectividade natural e cósmica) não coincidirem totalmente, porque a partir do momento em que essa coincidência se verifique, então a lei da gravidade (neste caso) não teria sido construída, mas descoberta. Portanto, o Homem descobre, construindo.

Da minha parte, não se trata de “realismo” segundo a escola filosófica, mas de quântica. Segundo a filosofia quântica, a observação ― por parte de uma consciência ― das ondas quânticas (que não são matéria porque não têm massa), transforma essa função ondulatória quântica em partículas (matéria, porque passam a ter massa). A astrofísica calcula a totalidade das partículas elementares longevas (electrões, neutrões, etc) existentes no universo em uma quantidade equivalente a 10 ^ 80 [1 seguido de 80 zeros], ou seja, 1 partícula elementar longeva por metro cúbico.

A partir desta premissa, a filosofia quântica é obrigada a deduzir que todo o universo é formado a partir de uma observação permanente de uma super-consciência [que não é nem pode ser humana], que faz com que as leis da natureza vão sendo descobertas pelo Homem através da construção de um puzzle de uma extrema complexidade, e que faz com que “a árvore que cai na floresta” possa existir sem necessidade da observação humana ― o que pode acontecer é que o humano não tenha consciência da existência dessa árvore que cai, mas isso não significa que ela não exista em potência e/ou na realidade.

O desconhecimento de uma determinada realidade por parte do Homem não a condena à inexistência.

2 comentários »

  1. Não sei o quanto pertinente é minha colocação, mas lá vai.
    Aparentemente, o problema está no conceito de lei, na sua definição, não? Pois, se assumimos que lei é um constructo humano (a lei se constitui apenas na tradução de um fenômeno à linguagem), a definição positivista se justifica, embora parta de uma premissa evidentemente errada, como bem colocou em seu texto. Assim, sendo a lei algo que independe da nossa própria construção (mas que pode ser descoberta pela construção, como entendi que colocou), podemos então falar de uma lei natural do homem, ou não? Uma lei moral do homem que independe de sua construção legal, ou de uma construção qualquer posterior a ela… Estou errado?

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    Comentar por Eduardo — Terça-feira, 26 Janeiro 2010 @ 2:52 pm | Responder

  2. Em parte é isso que você disse. O positivismo confunde lei da natureza com lei da ciência; para o positivismo, os dois conceitos são exactamente a mesma coisa. Este erro tem a ver com o conceito de “progresso” humano e com a criação dos vários tipos de super-homem que surgiram com a lenta afirmação do gnosticismo a partir do cristianismo ― o super-homem progressista de Condorcet, o positivista de Comte, o materialista de Marx, e o dionisíaco de Nietzsche . A verdade é que a divinização do ser humano entranhou-se na cultura científica.

    O que se passa na realidade é que o Homem apenas interpreta a lei da natureza através da construção de conceitos que tendem à descoberta da realidade. Por exemplo, o físico inglês Penrose há muito que fala na necessidade de se investigar a relação existente entre o microcosmos e o macrocosmos por intermediação da gravidade ― portanto, a chamada lei da gravidade está muito longe de ser descoberta na sua total extensão, apesar das construções humanas parciais e limitadas.

    O Homem continua a montar um puzzle que está feito e existe antes do ser humano surgir. É neste sentido que não podemos dizer que a lei é construída pelo Homem; podemos dizer que o Homem descobre, construindo. Não podemos dizer que o homem constrói, inventando a lei da ciência (que é o que está subjacente ao conceito positivista); a lei da ciência é produto da tentativa do Homem (o tal puzzle) em descobrir a lei da natureza em toda a sua extensão.

    O mesmo se aplica à lei moral. O Homem descobre-a, construindo-a como se constrói um puzzle, tendo em conta a ordem universal. Quando o Homem se esquece da ordem universal na interpretação das leis, entramos no cientificismo ou cientismo ― o seja, o Homem abandona a sua intuição, racionaliza a partir do seu desejo subjectivista separado da intuição, e entra em decadência espiritual, moral e civilizacional.

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    Comentar por O. Braga — Terça-feira, 26 Janeiro 2010 @ 5:06 pm | Responder


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