perspectivas

Sexta-feira, 15 Janeiro 2010

A estória do Anacleto Procrustes


Juntaram-se os cidadãos e instituíram a democracia, e o areópago encarregou o membro da academia, Anacleto Procrustes, da investigação empírica da desigualdade entre os cidadãos, com recurso a processos de aferição alegadamente baseados na ciência.

O Anacleto Procrustes não se fez rogado e construiu como instrumento de medição a sua própria cama.

Depois de ter, com recurso a ela [à cama], esticado e decepado todos os voluntários que se apresentaram para os testes sobre a igualdade da cidadania, de forma a que já todos cabiam nela exactamente, o Anacleto Procrustes informou a academia, baseado nos testes realizados, que todos os cidadãos da democracia tinham o mesmo tamanho ― o que significa que, entre outras coisas, os “casais” gays também passaram a ter direito ao desfile do Santo António casamenteiro.

Pensava o Anacleto Procrustes que a igualdade perante a lei e a igualdade dos direitos políticos e civis tivessem por base a igualdade dos próprios homens ― e como era um democrata fervoroso, eliminou todas as diferenças.

No entanto, a democracia não supõe igualdade dos homens mas ignora a sua desigualdade. Não escamoteia a existência de diferenças de sexo, de origem, de cor, de religião, e de capacidade intelectual ou outras, mas torna as pessoas indiferentes face a elas ― o que faz com que se desligue, a natureza humana, da sociedade.

Precisamente porque a política despreza todas as diferenças naturais, estas podem ser aproveitadas noutras áreas: assim, a família fundamenta-se na diferença entre o homem e a mulher ― e daí o facto das mulheres preferirem contrair matrimónios com homens não constituir qualquer acto de discriminação.

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2 comentários »

  1. […] por intermédio da ética; mas depois caiu no extremo oposto, tentando fazer da justiça uma régua de Procrustes: surgiu então o igualitarismo radical e anti-democrático, em que “a impotência do Homem passa […]

    Pingback por A natureza não é democrática « perspectivas — Sexta-feira, 15 Fevereiro 2013 @ 8:31 pm | Responder

  2. […] Se um dia um pobre andar de Mercedes-Benz, e um rico de disco voador, o Anselmo Borges virá dizer: “Os pobres, apesar de, em geral, estarem menos mal, são cada vez mais pobres”. O que é intolerável é que o rico ande de disco voador; o direito do pobre ao Mercedes-Benz é inviolável e tem direito também ao disco voador. E se todos não têm um disco voador, então segue-se que ninguém tem direito a disco voador. O Anselmo Borges faz lembrar a estória de Procrustes. […]

    Pingback por A plutofobia e a Teoria Crítica do Anselmo Borges | perspectivas — Sábado, 12 Março 2016 @ 11:20 am | Responder


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