perspectivas

Quinta-feira, 14 Janeiro 2010

A ideia de “progresso” e a do “presente autoritarista”

O Iluminismo introduziu na Europa dois novos mitos: o mito da Razão e o mito da Natureza. Ambos os mitos desviaram-se da axiologia universal cósmica, que pressupunha a fonte da ordem, na cosmogonia, ou seja, no mito da criação do universo. Ao mesmo tempo que o Iluminismo introduziu esses dois novos mitos, tentou através deles eliminar da cultura, o mito cosmogónico que situava o Homem na sua dimensão cosmogónica e espiritual.

O mito da Razão conduziu à “racionalização” que passou a ser confundida com “racionalidade”, e o mito da Natureza conduziu ao umbiguismo “intelectual” decorrente da racionalização que separa o Homem da sua dimensão cósmica e da dimensão da realidade irracionalizável, e circunscreve o Homem a uma parte especifica da realidade (toma a parte pelo Todo) definida pelo método das ciências da natureza (positivismo).

Em vez de tentar criar uma complementaridade entre as diversas visões da realidade, o Iluminismo tomou uma parte pelo Todo, sectarizou e antagonizou as diferentes mundividências através de um processo constante de desvios ideológicos que atingiram o seu auge com o materialismo dialéctico e histórico. Esses desvios ideológicos conduziram ao empobrecimento espiritual e intelectual da sociedade europeia, como tão bem o reconheceram alguns dos intelectuais do século XX que lutaram contra a degradação espiritual e intelectual da Europa ― como Ortega Y Gasset que se bateu contra o que chamou de “imperialismo da Física”.

A partir do fim da II Guerra Mundial, e no seguimento da constatação de facto do horror nazi (causado pela evolução ideológica a partir do Iluminismo, assim como o estalinismo), o grau de empobrecimento espiritual e intelectual atingiu a sua fossa abissal através da coincidência do filósofo e do intelectual com a ideologia marxista-leninista. O “bom intelectual” passou a ser o intelectual de esquerda, marxista-leninista, inconsciente do Gulag.

Através do novo mito da Razão e do novo mito da Natureza levados a uma racionalização delirante e irracionalidade extremas, a espiritualidade e a intelectualidade europeias bateram no fundo, e a figura do intelectual tradicional, anterior ao Iluminismo, foi genericamente substituída pela figura do intelectual orgânico comandado por uma religião política.


Eric Voegelin

O empobrecimento espiritual da sociedade levou à necessidade da afirmação da ideia de “progresso” do presente em relação ao passado. Eric Voegelin designou essa necessidade revolucionária de afirmação “progressista” do presente em relação ao passado, de “Presente Autoritarista”.

Quando secam as fontes das origens espirituais e intelectuais da ordem em relação à vida humana e social, pouco mais resta como sendo a origem da ordem senão as situações factuais da História. Porém, quando uma situação de facto é utilizada como origem da ordem, essa situação de facto terá sempre que ser circunscrita por um corpo doutrinal que lhe dê uma legitimidade específica. Em consequência dessa redução ideológica da origem da ordem, a uma doutrina, é assumida que a situação do momento actual ― ou a situação de um momento iminente ou imediatamente previsível ― é superior em valor a qualquer outra situação de facto anterior verificada na História.

Quando a esquerda portuguesa defende o “casamento” gay, o aborto livre, a eutanásia, etc., como expressões de “progresso”, este fenómeno ressalta do empobrecimento espiritual extremo decorrente do exclusivismo iluminista do mito da Razão e do mito da Natureza, que eliminaram e substituíram ― em vez de procurarem a complementaridade ― o mito cosmogónico como fonte da ordem.

A ideia de “progresso” através de várias fases da História, escorada numa sequência material que demonstra um incremento de valor através de fases sucessivas, é a base dessa ideia segundo a qual o presente é sempre superior em valor em relação ao passado. A ideia de “progresso” justifica a legitimidade inquestionável e dogmática da acção política do presente na medida em que evoca a sua superioridade absoluta em relação ao passado. Contudo, o que está implícito nessa doutrina é uma ideia recorrente destinada a proteger o presente da invalidação ideológica que possa vir do futuro.

Por isso é que os chamados “progressos” nas políticas dos costumes, evocados pela esquerda portuguesa para impôr a pobreza espiritual e intelectual presentista ― através das “causas fracturantes” que nada mais são que desvios redutores provenientes dos novos mitos iluministas ― não são, segundo a esquerda, passíveis de retroacção ou de revogação, porque se tratam de “progressos” inexoráveis no sentido da absoluta superioridade do presente em relação ao passado.

Segundo a esquerda, a ideia de “progresso” não implica uma proposição científica que a submeta a verificação, ou seja, o “progresso” não é passível de ser cientificamente verificável. É antes um elemento de um complexo doutrinal que evoca a ideia de um presente autoritarista, ideia essa que é absolutamente necessária para a expressão adequada de uma religiosidade intramundana na política, e/ou de uma religiosidade intracósmica na mundividência.

Contudo, a Razão diz-nos que o mero presente empírico é apenas um facto bruto, destituído de qualquer superior autoridade em comparação com qualquer passado ou futuro.

Quando os padrões críticos dos valores civilizacionais ― que se escoram na vida do espírito ― são abandonados; quando o processo empírico passa a fornecer, de uma forma exclusivista, esses padrões críticos, então passa a ser necessária uma doutrina especial para conceder um sentido ao presente, e para elevar o valor presentista de uma qualquer situação de facto ― que de outro modo seria irrelevante ― à condição de um paradigma através do qual o passado e o futuro possam ser medidos.

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1 Comentário »

  1. […] de a conseguir é através da mudança da ordem do ser através de um processo histórico (ver «A ideia de “progresso” e do “presente autoritarista”»), ou seja, alterar a essência e a natureza humana através de imposições de fora para dentro em […]

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    Pingback por As características do gnosticismo moderno « perspectivas — Domingo, 17 Janeiro 2010 @ 11:07 am | Responder


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