perspectivas

Segunda-feira, 4 Janeiro 2010

A moral relativista das religiões políticas

« Uma ideologia tende a remeter para a periferia, isto é, considerar secundário, qualquer dado cuja existência deva admitir, mas de que não posa conceber o sentido, a não ser que ela própria se ponha em causa. Assim, se em dado momento a ideologia comunista tiver que reconhecer a existência dos Gulag, este parecerá como um fenómeno não necessário, mas contingente (relacionado com os avatares históricos, com o atraso da Rússia, com o cerco capitalista), não principal (pois o principal é globalmente positivo), mas secundário. A partir daí, tendo em conta que “se não fazem omeletas sem partir ovos”, as sombras não devem ocultar a luz, a árvore não deve esconder a floresta e é escusado deitar o bebé fora com a água do banho.

O notável, então, é que a ideologia se bate em dois campos diferentes, com dois pesos e duas medidas. As mesmas prisões, as mesmas proibições e as mesmas interdições que são crimes nos outros (capitalistas e imperialistas) são “erros” e “imperícias” no seu caso. É um erro prender os dissidentes, é um erro meter os opositores em campos; mas Pinochet e os fascistas, esses, cometem crimes praticando os mesmos actos.

O paralelismo objectivo entre os sistemas nazi e estalinista é evidente: campos de concentração, partido único, julgamentos deturpados, proibição da arte “decadente”, censura generalizada (com acentuação muito maior da censura literária, artística e filosófica na URSS). Mas enquanto os mesmos actos, por parte dos nazis, constituem um mal absoluto, por parte dos estalinistas não passam de males relativos. Os crimes nazis são imprescritíveis, eternos; os crimes estalinistas são esquecidos, os seus autores vivem em paz, ninguém exige investigação, procedimento… Melhor ainda: a “moral”, do ponto de vista marxista, é uma mistificação idealista se se indigna com os excessos revolucionários.

Mas o marxismo que relativiza a moral dos outros situa-se no plano da ética absoluta quando denuncia os crimes capitalistas e imperialistas. Assim, a ideologia coloca-se num trono autocêntrico, no lugar da Terra no sistema de Ptolomeu, no lugar do Sol no sistema de Copérnico. Torna-se o centro de referência absoluto. »

— Edgar Morin (“Pour sortir du XX siècle”, 1981)


A “ideologia” a que se refere Morin é a religião política. Morin, na sua condição de ex-marxista e gnóstico, tem dificuldade em associar a ideologia à religião política.

Deixe um Comentário »

Ainda sem comentários.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: