perspectivas

Sexta-feira, 25 Dezembro 2009

José Rodrigues dos Santos, a peste negra e a ciência

Na entrevista dada recentemente por José Rodrigues dos Santos ao Milton (ou Nilton?) no seu programa da RTP2, JRS falou na peste negra medieval correlacionada com o alegado facto de o homem medieval recorrer às escrituras religiosas para explicar o mundo. Segundo ele, a peste negra constituiu uma realidade de ruptura com essa prática de recorrência às escrituras para encontrar a explicação da realidade. Ora, essa ideia de JRS é falsa, porque foi graças à peste negra que o movimento gnóstico medieval se afirmou definitivamente e até se popularizou (se massificou, até certo ponto), e a maioria dos autos-de-fé da Inquisição tiveram nessa época como objecto privilegiado os gnósticos que viam na peste negra ― e à luz do “Livro das Revelações” ― a consumação da escatologia cristã, ou seja, a “imanentização do éschatos”, para utilizar a expressão de Eric Voegelin. Personagens gnósticas como o anacoreta Joaquim de Fiore (1145 ― 1202) surgiram nesses tempos de aflição e de morte generalizada causada pela peste negra que atingiu o seu auge no século XIV, com cerca de 1/3 da população europeia exterminada.

JRS

José Rodrigues dos Santos revelou um surpreendente desconhecimento da História da Europa e principalmente da história das ideias, e isto no caso de quem se assume como escrevendo romances com alguma “verdade histórica”.

A ruptura cultural que deu origem ao empirismo científico ocorreu dentro da própria intelectualidade católica e escolástica, através da famosa “querela dos universais”, tendo como principal protagonista Guilherme de Occam (1290 ― 1348) , mas que já vinha de muito tempo antes de a peste negra se instalar endemicamente na Europa. Um dos primeiros polemistas sobre a questão no nominalismo versus universalismo foi Escoto Erígena (nascido a 810), ainda a Europa não fazia a mínima ideia do que era a peste negra. Entre Erígena e Occam, existiram muitos doutos defensores velados do empirismo científico e do naturalismo, como é exemplo a denominada “escola de Chartres”, de que fizeram parte para além de Joaquim de Fiore, João de Salisbúria (1120 ― 1180) e os panteístas como David De Dinant.

Finalmente, JRS esqueceu-se que o mito utilizado sistematicamente para a explicação da realidade não foi uma característica exclusiva do passado histórico ― o próprio JRS recorre ao mito para de certa forma explicar a realidade segundo a sua mundividência. Muita da ciência que se faz hoje é mitológica. O próprio evolucionismo neodarwinista é um mito porque é impossível explicar a mutação das formas ― e mesmo assim, o JRS não se dá conta dos mitos que consome, acreditando que a realidade é hoje explicada racionalmente e ao contrário do que acontecia no tempo da peste negra. Mudaram os mitos, e o Homem permanece o mesmo ― continuamos a ter uma alma neolítica ― porque é impossível mudar a natureza humana exclusivamente através daquilo a que o Iluminismo definiu como sendo “o conhecimento”.

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