perspectivas

Domingo, 20 Dezembro 2009

O cristianismo e o milenarismo

Um dado que muita gente que se diz “cristã” não compreende, é que o cristianismo foi definido pelo seu fundador (Jesus Cristo) como uma religião de progresso individual no sentido de progresso interior do indivíduo, e não uma religião de cariz eminentemente colectivista como é, por exemplo, o Islão. O cristianismo introduziu a novidade da Graça Divina como sendo uma dádiva de Deus que se dirige ao indivíduo.

Jesus Cristo separou os assuntos mundanos (política) dos assuntos de Deus (“dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”). A noção de Graça Divina implica um progresso individual que é inerente à interioridade do indivíduo, e não já exclusivamente voltado para o mundo como acontecia no paganismo. As repercussões da Graça Divina no mundo e nos seus assuntos, faz-se através dos indivíduos nas suas relações pessoais com Deus através da Graça Divina, e não necessariamente através de uma intervenção divina a nível colectivo e à escala de toda a Humanidade entendida de uma forma abstracta.

Eric Voegelin

Deste erro de percepção da mensagem de Jesus decorre uma corrente ideológica multi-secular multifacetada ― que existiu por osmose do judaísmo ― segundo a qual “o Reino de Deus chegará um dia à Terra”, naquilo a que Eric Vögelin chamou de “imanentização do éschatos”. Santo Agostinho chamou bastamente à atenção para este erro percepção que foi protagonizado até mesmo por S. Paulo de Tarso, e que está também contido de uma forma profusa no Livro das Revelações.

Quando Jesus ensinou a oração do “Pai Nosso” e diz que “seja feita a Tua vontade, assim na Terra como no Céu”, continua a ser a expressão da prece como a comunicação do indivíduo com Deus, o que implica que a transformação da sociedade deve ser feita de forma livre pela transformação interior do indivíduo (livre-arbítrio) actuando na colectividade, e inserido na sua relação pessoal com Deus, e não através de uma colectividade que anula o indivíduo e lhe retira [pelo menos em grande parte] a liberdade pessoal de acção como acontecia com o paganismo.

Segundo o cristianismo, Deus actua de uma forma concreta através do indivíduo [e através da súmula dos indivíduos que não se dissolvem ou se anulam na colectividade] e não de uma forma abstracta através da colectividade.

Sendo que a Graça Divina implica a ideia de mutualidade entre o indivíduo e Deus, existiu na cristandade ― e acentuando-se no pós-cristianismo ― a tendência para transformar o homem (indivíduo) envolvido pessoalmente na sua relação com Deus através da Graça Divina, em Homem (universal) entendido como a sociedade no seu todo, e o erro desta percepção induzida pelo judaísmo que confundia a política com a religião, deu lugar, ao longo do tempo e na Europa, a várias formas de milenarismo (gnosticismo).

A partir do momento [segundo o gnosticismo] que a História passa a ser uma teofania (uma manifestação da vontade de Deus que se expressa a nível colectivo e histórico, e portanto, uma concepção determinística da História) como aconteceu com Hegel, o erro de percepção evoluiu no seu pior, e transformou-se numa psicopatologia revolucionária que se expressa através da ideia de um “sentido determinístico da História” e de “processo dialéctico histórico” que tende a “criar um paraíso na Terra” através da antecipação terrena da escatologia cristã que foi definida por Jesus Cristo como possível “para além da natureza deste mundo”, e não neste mundo ― como se fosse possível ao ser humano que vive em um determinado segmento do espaço-tempo e na sua condição de “conteúdo histórico”, compreender o “continente histórico”. Se existe um desígnio histórico (repito: se existe!), este nunca pode ser conhecido (pelo menos, na sua plenitude) pelo ser humano, na medida em que este seria apenas uma parte daquele. É impossível ao conteúdo conhecer o continente.

Esta ideia genuinamente cristã da não-possibilidade de um sentido (significação) da História ― (pelo menos, em um “sentido” passível de ser conhecido pelo Homem) que possa permitir a alegada “previsão científica” do futuro do mundo ― não é incompatível com a Revelação Cristã, porque esta foi realizada através do indivíduo que foi Jesus Cristo.

Segundo Eric Vögelin, a única forma de combater o milenarismo e a mente revolucionária é promovendo o ensino da filosofia tão cedo quanto possível na vida do indivíduo, induzindo-o ao acto de pensar. E exactamente por isso é que a esquerda em geral, e o marxismo em particular, não simpatizam com a filosofia. E por isso vemos que mesmo os professores “revolucionários” [no sentido lato do gnosticismo] universitários de filosofia ― como o Nuno Nabais, entre outros ― defendem publicamente, como eu ouvi numa estação de rádio, que a disciplina de filosofia só deveria ser ensinada nas universidades e ser totalmente banida do ensino secundário. O homem que pensa torna-se perigoso para quem o quer animalizar.

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