perspectivas

Quarta-feira, 16 Dezembro 2009

A igualdade humana como uma deturpação da realidade

Filed under: cultura — O. Braga @ 12:26 pm
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Ao ler este texto no Brussels Journal, ocorreu-me esta passagem do Evangelho segundo S. Mateus:

21 Jesus partiu dali e retirou-se para os arredores de Tiro e Sidónia.
22 E eis que uma cananeia, originária daquela terra, gritava: Senhor, filho de David, tem piedade de mim! A minha filha está cruelmente atormentada por um demónio.
23 Jesus não lhe respondeu palavra alguma. Os seus discípulos vieram a ele e disseram-lhe com insistência: Despede-a, ela persegue-nos com os seus gritos.
24 Jesus respondeu-lhes: Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel.
25 Mas aquela mulher veio prostrar-se diante dele, dizendo: Senhor, ajuda-me!
26 Jesus respondeu-lhe: Não convém deitar aos cães o pão dos filhos.
27 Certamente, Senhor, replicou-lhe ela; mas os cães ao menos comem as migalhas que caem da mesa de seus donos…
28 Disse-lhe, então, Jesus: Ó mulher, grande é tua fé! Seja-te feito como desejas. E na mesma hora sua filha ficou curada.

A cananeia do relato do Evangelho segundo S. Mateus (Cap. 15, 21 – 28) era uma mulher pagã que adorava os Baals ou as Ashtartés, e daí a alusão de Jesus às “ovelhas perdidas da casa de Israel”. Jesus reconheceu e transmitiu-nos um facto muito simples que decorre da pura realidade: os Homens não são todos iguais, porque não nascem todos iguais e porque fazem diferentes usos da vontade individual. Quando a cananeia reconheceu humildemente o facto da sua desigualdade, Jesus cedeu e passou a tratá-la como igual. Portanto, paradoxalmente, só é possível um tratamento relacional que faça a equivalência de um ser humano em relação a outro, através do reconhecimento explícito de que os seres humanos não são iguais.

Por outro lado, Jesus demonstrou-nos claramente que não existem seres humanos predestinados e que não existe um determinismo que se aplique ao Homem ― o Homem é livre de seguir a sua vontade escrutinada pelo seu intelecto. Esta concepção do Homem livre segundo Jesus Cristo espelha-se nas doutrinas da escolástica protagonizadas por S. Agostinho, Tomás de Aquino, Anselmo de Aosta, Duns Escoto, Nicolau de Cusa, etc), em contraponto com as doutrinas da predestinação humana segundo Pascal, da escola de Port-Royal, do Jansenismo, do Calvinismo, etc.

Portanto, o cristianismo diz-nos que os Homens não são todos iguais senão nos direitos básicos que decorrem do próprio direito inalienável à vida. A ideia de que os Homens são todos iguais vingou na sociedade ocidental quando Hobbes concebeu a sociedade segundo um conceito de “gestão de tipo cogumelo”, ou seja: existe um chefe [o soberano], e o resto são todos cogumelos; de vez em quando, o chefe defeca para cima dos cogumelos para ver se estes crescem.

O igualitarismo da raia miúda começou com Hobbes e atingiu o seu esplendor com Rousseau através da teoria do “bom selvagem” ― a ideia de que “o Homem é bom por natureza”, e que é a civilização que o torna mau.

10 Os discípulos aproximaram-se dele, então, para dizer-lhe: Por que lhes falas em parábolas?
11 Respondeu Jesus: Porque a vós é dado compreender os mistérios do Reino dos céus, mas a eles não.

Mateus, 13 ― 10,11

Sendo que, para o cristianismo, os Homens não são todos iguais, é dada a possibilidade de que os Homens se possam equivaler através da vontade de cada um ― através do esforço particular de cada um. Perante a incompreensibilidade imediata da sua mensagem, Jesus falava em parábolas no sentido de sensibilizar aqueles que não O compreenderiam de outro modo. Através das parábolas, Jesus reconhecia a toda a gente, que O ouvia e não O compreenderia de outro modo, a possibilidade de, através da intuição, poderem vir a compreender. Portanto, conclui-se que sendo que os Homens não são iguais por natureza, uma equivalência entre eles pode ser conseguida somente através do esforço de cada um dos seres humanos.

A essência do cristianismo não é igualitarista nem é determinista ― o ser humano é uma possibilidade em constante construção por si próprio. O igualitarismo e o determinismo têm raízes anteriores ao Iluminismo, mas foi através da influência do messianismo judaico na cultura europeia ― com o gnosticismo implícito na ideia da “construção do paraíso na Terra”, e a partir do momento em que as lojas maçónicas europeias e americanas se abriram aos judeus a partir de finais do século XVIII com a criação da “maçonaria especulativa” ― que se criou uma concepção determinística da História ― com Hegel, e depois com Karl Marx, este último judeu ― de um progresso inexorável rumo à “igualdade” entre todos os seres humanos que redundou no actual niilismo: se o Homem é bom por natureza, e se todos os Homens são iguais, não admira que Zapatero tenha estendido os direitos humanos aos macacos: afinal, temos em comum com os chimpanzés cerca de 98% dos genes.

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