perspectivas

Segunda-feira, 14 Dezembro 2009

Leo Strauss, o modernismo e a democracia directa

A “intrusão” da democracia directa na democracia representativa, através de um sistema misto que condicione esta última, tem o condão de restringir a discrecionariedade política dos governantes, responsabilizar os governados, e de criar uma aristocracia natural e não-hereditária.

Uma das características do chamado “neoconservadorismo” ― de onde deriva o termo “neocon” do conservadorismo pós-moderno que foi o esteio das políticas dos Bush pai e filho ―, é o de considerar que é possível combater a revolução jacobina e as suas réplicas contemporâneas com outro tipo de revolução, criando-se um “conservadorismo revolucionário”, o que, na minha opinião, é auto-contraditório. Em Leo Strauss podemos verificar essa tendência.

Neste postal no Mídia sem Máscara podemos ver a expressão do “conservadorismo revolucionário” de Strauss, e é sobre assunto que versa o meu comentário.

Locke [depois dos apócrifos revelados em 1952] assumiu algumas afinidades ideológicas com Hobbes no que diz respeito ao papel da religião [e da metafísica] na sociedade, mas defendeu posições muito diferentes das de Hobbes em relação à organização da sociedade em si mesma. Concordo com a ideia de que a crítica a S. Tomás é exagerada. Não compreendo a crítica de Strauss a Burke senão quando inserida no conceito de “não-revolução” de Burke, com que Strauss não simpatiza na medida em que este defende uma espécie de “acção revolucionária” contra os desenvolvimentos da revolução jacobina. A ideia de Strauss sobre a responsabilidade de Maquiavel em relação à “doença moderna” tem alguma lógica, mas há quem defenda que a raiz do niilismo do modernismo se encontra nos nominalistas católicos franciscanos, e outros atribuem à Reforma luterana a quebra da tradição do pensamento europeu.

Portanto, em termos de mundividência, acho que colocar S. Tomás, Locke e Burke no mesmo rol em que está Hobbes e Rousseau, é um erro de palmatória.

Hegel é “a história que se segue”: transformou a História em uma teofania ― em uma intervenção divina na História ou a História como uma permanente intervenção divina ― e consequentemente, assumiu um determinismo histórico, o que vai contra a tradição cristã do livre-arbítrio do Homem. Hegel em pouco se diferenciou da concepção histórica do grego Crono. Porém, não é possível a existência de um Homem livre (segundo a concepção de Tomás de Aquino, Duns Escoto e outros) em uma História pré-determinada. Eric Voegelin entendeu a contradição entre a concepção de livre-arbítrio subjacente ao cristianismo e a pré-destinação histórica hegeliana do cristianismo como sendo um estádio superior da evolução humana decorrente da dialéctica aplicada às ideias. Hegel, através do Historicismo que lhe seguiu, deu uma contribuição essencial para a decomposição do cristianismo, abrindo espaço para o niilismo moderno que se acentua no tempo contemporâneo ou pós-moderno.

A corrente filosófica do Neomodernismo, incipiente, tem dado alguma contribuição para um “novo renascimento”, desta vez assente nas ideias dos pós-socráticos e na escolástica cristã que seguiu Santo Agostinho. A ideia neomodernista não é a da “revolução contra a revolução” que guia os neocons, mas da “informação contra a revolução”. Porém, o Neomodernismo mantém-se, ainda assim, cativo do modernismo em algumas áreas essenciais.

No que diz respeito à ética e à política assimilada em Epicuro, e ao século XVI considerado como um ponto de viragem epicurista da História (segundo Leo Strauss), esse argumento é mais uma achega para distinguir Locke de Hobbes, e de, indirectamente, não meter Burke no mesmo rol em que se encontra Rousseau. Negar o poder divino dos reis não é a mesma coisa que negar o regime aristocrático nos moldes gregos. Locke negou o poder divino dos reis; Hobbes negou não só o primeiro, como o regime aristocrático no seu todo conforme entendido nos moldes gregos.

Em minha opinião, o futuro do conservadorismo ― aqui entendido como a antítese do epicurismo e do seu desenvolvimento político e ético ― não passa pela democracia representativa segundo Rousseau a que assistimos na maioria dos países ocidentais, mas por uma aristocracia gerada através da democracia directa cada vez mais presente nas sociedades através dos meios tecnológicos já disponível entre nós.

A “intrusão” da democracia directa na democracia representativa, através de um sistema misto que condicione esta última, tem o condão de restringir a discrecionariedade política dos governantes, responsabilizar os governados, e de criar uma aristocracia natural e não-hereditária.
A pura nata da sociedade ― nobreza ― passa a ser eleita, como era eleita a nobreza e o próprio rei era eleito nas chamadas “dietas” entre os visigodos quando ocuparam a península ibérica a seguir ao colapso do Império Romano.

O “governo dos melhores” será o produto de um escrutínio sistemático dos governados em relação aos governantes através da eliminação da ditadura da “vontade geral” de Rousseau que prevalece nas nossas democracias representativas, e que é uma marca insofismável das ideias de Hobbes (e não de Locke) no que respeita à organização política da sociedade. Neste sentido, e através do elemento da democracia directa presente na representatividade democrática, a democracia transforma-se em uma meritocracia. A mentira como meio privilegiado de acção política instituída pelo modernismo passaria a ser olhada com mais parcimónia na política. Será através da “intrusão” da democracia directa no sistema da democracia representativa que a aristocracia assumirá os contornos prevalecentes na Grécia Antiga, uma vez que a sociedade em que a democracia directa se aplica se transformará em uma “pólis geral”.

A aristocracia grega ― assim como a democracia grega ― só era possível na pólis. A impossibilidade da pólis em sociedades mais complexas foi o moto e a desculpa de Rousseau para instituir o conceito de “vontade geral” que concede à classe política o poder da discrecionariedade e da arbitrariedade em política. Os meios tecnológicos de que a sociedade actualmente dispõe apontam o caminho para uma cada vez maior importância da democracia directa, e a aristocracia como “governo dos melhores” nasceria do princípio de que o direito natural clássico se encontra incorporado em cada ser humano ― em uma forma mais desperta ou adormecida conforme os casos. O mesmo se passa com a religiosidade: esta não desapareceu totalmente do Homem moderno não-religioso e secular, porque a total não-religiosidade humana seria a negação da própria condição natural do Homem ― e a condição natural do Homem liga-se ao próprio direito natural.

A subordinação voluntária do governado aos aristocratas só é possível através da democracia directa que erradica o conceito de “vontade geral” de Rousseau, por um lado, e faz com que os melhores assumam o seu papel político com a maior naturalidade e transparência possível. O conservador não pode ter medo da natureza ― e nomeadamente da natureza humana ― , porque se a receia é um revolucionário. Só o revolucionário põe em causa a natureza humana; não a sua e a dos seus correlegionários, mas a dos “outros”.

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