perspectivas

Domingo, 13 Dezembro 2009

Até quando teremos uma Direita na Europa?

« At least eight Russo-German families in Salzkotten, Germany, have suffered heavy fines and now their fathers have been sentenced to prison, because they have refused to send their elementary school-age children to mandatory sexual education classes. »

Germany Jails Eight Christian Fathers for Removing Children from Sex-Ed Class

Para o governo alemão de Angela Merkel, que se diz de “direita”, as crianças são propriedade do Estado ― e agora imaginem o que não faria a esquerda alemã contemporânea cada vez mais radical. A “direita” de Angela Merkel parece-me “muito à esquerda” para meu gosto: ou a direita alemã e europeia evoluiu para a esquerda, ou eu sempre fui um radical de direita e nunca me tinha dado conta disso. Parece-me que foi a direita europeia que se esclerosou e perdeu as suas referências da democracia cristã do pós-guerra, e de tal forma que a diferença entre a esquerda e a direita consiste ― ou pode ser resumida ― em uma mera questão da colectivização (ou não) da economia.

A pergunta que eu faço é a seguinte: é possível a uma direita sustentar por muito tempo uma política económica específica [a que evoluiu do liberalismo clássico do século XIX] sem uma filosofia que sirva de suporte a essa política económica?


Os libertários de direita ― os idiotas úteis do neomarxismo gramsciano ― pensam que sim, que é possível que um sistema económico capitalista e a respectiva democracia pluralista sobreviva sem uma filosofia de base. Na verdade, essa filosofia de base vai deixando de existir na Europa por culpa da própria direita que se deixou manietar ideologicamente pela esquerda. Não nos esqueçamos que a lei alemã que proíbe a Escola-em-casa (Home Schooling) é uma lei promulgada por Adolfo Hitler e que ainda hoje se mantém em vigor na Alemanha; trata-se, pois, de uma lei nazi, e por isso, de esquerda. O nazismo é de esquerda.

Enquanto que a esquerda tem raízes ideológicas em Hobbes e principalmente em Rousseau, a direita tem raízes ideológicas em Locke e em Edmund Burke. Portanto, o nazismo que evoluiu a partir da “vontade geral” de Rousseau, é de esquerda, enquanto que o conservadorismo lockeano e tradicionalista segundo Burke, é de direita ― e a única direita que existe.

A “tradição” não é a preferência pelo que é antigo, e só porque é antigo. O indivíduo de direita não se opõe à mudança; parafraseando Edmund Burke: “um Estado sem os meios para alguma mudança é desprovido dos meios necessários à sua conservação”. Isto significa que o conservador ― o único que é de direita ― faz da mudança um meio para conservar a sociedade, tendo em conta a efectiva existência de valores e de uma realidade humanas que são imutáveis e independentes de qualquer sistema político.

A História moderna já nos demonstrou que o “progresso revolucionário” é altamente duvidoso; basta verificarmos o que aconteceu aos países onde se operaram revoluções para facilmente constatarmos a nossa dúvida sobre a eficácia do “progresso revolucionário”. E sendo duvidoso o progresso revolucionário, o respeito pelos laços da sociedade com o seu passado ancestral insere-se em uma posição racional. A direita é racional; a esquerda é utópica.

Outra das características da direita é o respeito pelas tradições religiosas da sociedade; e outra característica da direita é o respeito pela concepção tradicional da família, em que os pais não podem ser substituídos pelo Estado na educação dos filhos, e em que o Estado só pode intervir directamente na educação dos nossos filhos em caso de manifesta e excepcional necessidade.

Portanto, por detrás da economia baseada na iniciativa privada tem que existir uma filosofia de direita, que é aquela que decorre da evolução das ideias desde Locke e Burke, passando por Alexis de Tocqueville, e mais recentemente, de Eric Voegelin e Russell Kirk. Segundo este último, as diferenças sumuladas entre a direita (conservadora) e a esquerda (revolucionária), são dez, a ver:

  1. O conservador acredita que existe uma ordem moral perdurável no tempo;
  2. O conservador adere aos costumes, à convenção e à continuidade;
  3. O conservador acredita na validade do “princípio da prescrição”, isto é, o princípio segundo o qual a ordem das coisas estabelecidas através do uso imemorial é de importância superior;
  4. O conservador é guiado pelo “princípio da prudência” [a frònesis de Sólon];
  5. O conservador dá a importância necessária ao “princípio da variedade”; para o conservador, a duas igualdades que existem é a do Juízo Final e a da igualdade perante a lei;
  6. O conservador tem em conta o “princípio da imperfeição” humana; sendo que o Homem é imperfeito, não é possível uma sociedade perfeita;
  7. O conservador tem a consciência que a liberdade e a propriedade [privada] estão directamente ligadas;
  8. O conservador apoia a comunidade voluntária da mesma forma que condena o colectivismo involuntário. É através da comunidade voluntária que as desigualdades naturais humanas decorrentes do ponto 5 são atenuáveis e corrigidas;
  9. O conservador reconhece a necessidade da limitação do poder político despótico por parte de uma pessoa ou de um grupo, e o controlo restritivo das paixões humanas;
  10. O conservador compreende que, numa sociedade com vigor e com futuro, a mudança e a tradição [a permanência] devem ser reconhecidas e reconciliadas.

Num outro postal poderei desenvolver a ideia destes “dez mandamentos” de Russell Kirk. O que interessa agora é concluir que a direita na Europa ainda subsiste em alguns países mas corre o risco de desaparecer paulatinamente porque perdeu as suas referências culturais e histórico-filosóficas.

4 comentários »

  1. Abandone os preconceitos e esteja atento às novidades que vão sendo publicadas e nos contam outra história diferente da que os revolucionários apregoam.

    Cumprimentos,

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    Comentar por NC — Domingo, 13 Dezembro 2009 @ 8:53 pm | Responder

  2. @ NC:

    Para que eu possa abandonar os meus preconceitos, terá que me dizer onde posso encontrar os preconceitos da “história diferente das que os revolucionários apregoam” — porque existem dois tipos de preconceitos: o negativo (que não admite discussão) e o positivo (que está aberto à discussão). Não é possível a existência de um ser humano sem preconceitos, a não ser no super-homem de Nietzsche.

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    Comentar por O. Braga — Segunda-feira, 14 Dezembro 2009 @ 6:05 am | Responder

  3. Dois livros fundamentais e recentíssimos:

    Em Nome da Pátria de Brandão Ferreira;

    Dominique Venner em O Século de 1914

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    Comentar por NC — Segunda-feira, 14 Dezembro 2009 @ 1:26 pm | Responder

  4. @ NC: resposta em

    http://wp.me/p2jQx-3HH

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    Comentar por O. Braga — Segunda-feira, 14 Dezembro 2009 @ 10:10 pm | Responder


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