perspectivas

Sexta-feira, 4 Dezembro 2009

Mestre Eckhart estava errado

O ser humano nunca teve tantas razões objectivas para ter fé e acreditar em Deus ― e na Sua transcendência ― como tem hoje; e no entanto, parece existir uma tendência da intelectualidade não só para negar os indícios que a ciência nos tem revelado, como para fazer do ateísmo uma religião negativa.

Se for verdade que as leis da Física não se aplicam no domínio da singularidade quântica, é óbvio que estamos em presença de dois “mundos” diferentes: no nosso “mundo”, aplicam-se os axiomas e as leis da Física conhecida; no “mundo” para lá da singularidade, os axiomas e as nossas leis deixam de existir.

Portanto, das duas uma: ou a Física quântica está errada e a matemática é uma treta, ou a própria ciência já constatou a existência de três “realidades” diferentes: a objectiva, que é a nossa e aquela em que nos movemos e que percebemos através dos sentidos, e que inclui o macrocosmos observável pelos telescópios e outros dispositivos de perscrutação do universo; a imanente, que é aquela de que não nos apercebemos através dos sentidos mas que foi possível provar a existência, não só através do formalismo matemático, como através de experiências com dispositivos de medida e de análise do comportamento das partículas elementares longevas (PEL); e a transcendente, que é aquela “realidade” para lá da singularidade, onde todo o universo e as suas leis são simplesmente anuladas, e de que pouco ou nada sabemos.


As realidades “objectiva” e “imanente” são duas “dimensões” ― ou dois tipos de realidade ― que pertencem ao nosso mundo, embora de modos diferentes e sujeitas até a algumas leis diferentes, na medida em que na dimensão imanente, a matéria organiza-se sem uma pré-determinação que resulte de uma lógica de causalidade rigorosa e determinável pela repetição empírica. A realidade transcendente não pode pertencer ao nosso mundo na medida em que tudo o que existe neste se anula e se destrói ― incluindo a luz, que tal como as PEL, não é propriamente matéria ― face à singularidade.

O que falta saber é se a realidade a que aqui chamo de “transcendente” é a realidade do Nirvana búdico ou mesmo a realidade da transcendência do Deus cristão; provavelmente nunca o saberemos ao certo exactamente porque a singularidade está para além da possibilidade da pesquisa humana ― ela é a realidade a que os físicos quânticos chamam de “Mais Além” do espaço-tempo.

Também está demonstrado que o nosso mundo material tem na sua base, digamos assim, um “sistema poroso” constituído por “multi-microscópicos mini-buracos-negros” [a chamada “espuma quântica”], o que significa que tudo o que existe se encontra, em todo o espaço-tempo, directamente face-a-face em relação à singularidade, isto é, em relação à transcendência. E sabemos já que através dessa “porosidade” que se constitui através de uma infinidade de “multi-microscópicos mini-buracos-negros” que subjazem à matéria constituída primordialmente ― e através de diferentes “camadas de realidades” materiais ― pelos PEL que se “materializam” [as PEL transformam-se em partículas de matéria, e portanto, com massa, a partir de simples ondas quânticas sem massa] quando são observadas por uma consciência.

E por último, sabemos que através desses “multi-microscópicos mini-buracos-negros”, as PEL “circulam” ― em forma de onda e sem massa ― de uma forma biunívoca, ou seja, no sentido da singularidade para o nosso mundo [para a dimensão “imanente” e, consequentemente, para a dimensão “objectiva”] e também em sentido oposto, ou seja, da realidade “imanente” e “objectiva”, para a singularidade — dá a ideia de que a criação é contínua e permanente, de que a nossa realidade “objectiva” e “imanente” é constantemente observada por uma “super-consciência”.

Vejam bem como o ser humano nunca teve tantas razões objectivas para ter fé e acreditar em Deus ― e na Sua transcendência ― como tem hoje; e no entanto, parece existir uma tendência da intelectualidade não só para negar o que a ciência nos tem demonstrado, como para fazer do ateísmo uma religião negativa. Este fenómeno de negação da realidade (ou das realidades) tem a ver com a “doença” do Mestre Eckhart [e dos idealistas alemães em geral], que se resume na confusão milenar que se fez entre a “objectividade”, a “imanência” e a “transcendência”. Ainda hoje, e apesar dos sinais que a ciência nos dá, estamos a pagar bem caro essa brutal confusão conceptual, nomeadamente através das religiões políticas gnósticas que confundem a realidade objectiva da nossa dimensão macroscópica, por um lado, com a dimensão da imanência das PEL ― que é incompatível com a nossa condição existencial metáxica ―, por outro, e com a transcendência da singularidade, por último.


« A doutrina segundo a qual o mundo é formado por objectos cuja existência é independente da consciência [humana] revela estar em desacordo com a mecânica quântica e com os factos estabelecidos através da experiência. »

Bernard D’Espagnat, “The Quantum Theory and Reality”, publicado na Scientific American (Novembro de 1979), página 158

3 comentários »

  1. Eu acho que o conceito de «transcendência» não deve ter nada a ver com nenhuma filosofia de cariz religioso, seja o Budismo, seja o Cristianismo, seja outro. Também me parece que a ciência está limitada quanto à especificação do que será «transcendência» e ainda que essa experiência é subjectiva e única. Acho que qualquer ser humano pode ter experiências de transcendência sem estar vinculado a nada, nem ciência nem fé, bastando-lhe que algo na realidade material em que vive “despolete” essa impressão indefinível que é a transcendência: uma música, uma tela, uma foto, sei lá, aquilo que nos corta as amarras com as limitações quotidianas próprias de seres que vivem condicionados por múltiplos constrangimentos e que, por isso mesmo, sentem necessidade de se evadir deles. Os que têm sensibilidade e imaginação conseguem, mesmo sem saber nada de física, matemática ou religião. Depois, a ciência apresenta-nos modelos de como compreender a realidade em que vivemos, exterior e interior, mas são apenas modelos e como tal em permanente reformulação. Respondem à nossa necessidade de saber, mas nada dizem sobre o que é. A filosofia faz o mesmo: interrroga, se é boa filosofia e dá respostas quando os filósofos decidem propagar as suas opiniões, sempre provisórias e falíveis porque dependem do tempo e circunstâncias que rodeiam o pensador; no entanto, todas as teorias filosóficas e científicas enfermam do problema de exprimirem a visão do mundo daquele que o observa e as nossas experiências interiores ficam sempre interiores, indizíveis e impossíveis de passar a outro ser. Duvido da existência de uma «super-consciência» porque acho que isso mostra até que ponto nós, seres humanos, humanizamos o universo na falta de outro modelo. Porque haverá uma tal «coisa» no universo? Duvido, acho que temos que enfrentar a realidade de que estamos aqui por nós próprios, sem pai nem mãe lá de longe a acenar nos confins de algo que nem sabemos o que é com precisão.

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    Comentar por Isabel Pizarro — Sábado, 5 Dezembro 2009 @ 2:54 am | Responder

  2. @ Isabel

    “Eu acho que o conceito de «transcendência» não deve ter nada a ver com nenhuma filosofia de cariz religioso”

    A filosofia nasceu da religião; o que difere nas diferentes filosofias é o tipo de religião. Até a filosofia de Kant não deixou de expressar a religiosidade do filósofo. É impossível ao ser humano deixar de ser religioso, a não ser que dê um tiro na cabeça.

    “Também me parece que a ciência está limitada quanto à especificação do que será «transcendência» e ainda que essa experiência é subjectiva e única. Acho que qualquer ser humano pode ter experiências de transcendência sem estar vinculado a nada, nem ciência nem fé, bastando-lhe que algo na realidade material em que vive “despolete” essa impressão indefinível que é a transcendência: uma música, uma tela, uma foto, sei lá, aquilo que nos corta as amarras com as limitações quotidianas próprias de seres que vivem condicionados por múltiplos constrangimentos e que, por isso mesmo, sentem necessidade de se evadir deles.”

    A transcendência, por imperativo etimológico, serve para classificar algo que não pertence à nossa realidade nem obedece às nossas leis da Física. Um efeito nunca pode ser superior à causa (ler Aristóteles e Duns Escoto). Aquilo que é humano ou que decorre da actividade humana, nunca deixa de ser humano, e portanto, real e objectivo. A subjectividade humana é uma gota-de-água comparada com as possibilidades potenciadas no nosso universo que é e 1^120 (1 seguido de 120 zeros). Ler aqui ao lado na barra lateral: “O estado da ética”.

    Aquilo que você chama de “transcendência despoletada” não é outra coisa do que a “metaxia” segundo Eric Voegelin, definida por ele como “o espaço da consciência onde o Homem participa da realidade transcendente de Deus”. Porém, uma mente gnóstica pensa ver na condição existencial metáxica do ser humano uma expressão da imanência (panteísmo, milenarismo, etc.) em vez da expressão da transcendência.

    O juízo reflexivo (Kant), que permite despoletar essa “impressão indefinível”, é simultaneamente subjectivo através do sentimento (juízo estético) e objectivo através do juízo teleológico. É este último que transforma aquilo que parece ser subjectivo na sua totalidade em algo de objectivo; é o juízo teleológico que transforma a relatividade humana através da intersubjectividade fenoménica que liga todas as relatividades humanas entre si. Tudo o que é positivo, o belo, o bem, a justiça, é a expressão relativa de um bem maior (ver Anselmo de Aosta e o seu princípio ontológico ― e não “prova ontológica” como dizem alguns). Tudo o que é relativo aponta, do ponto de vista da lógica, para a necessidade de um absoluto.

    Depois, a ciência apresenta-nos modelos de como compreender a realidade em que vivemos, exterior e interior, mas são apenas modelos e como tal em permanente reformulação.

    O facto de um modelo estar em permanente reformulação, não significa que esse modelo seja falso. Um puzzle pode estar incompleto na sua construção, mas as peças que já lá estão colocadas podem estar correctamente colocadas ― segundo a lógica do próprio modelo. O que interessa saber é o grau de credibilidade que esse modelo tem, e para isso o ser humano utiliza a razão e a lógica. O grau de credibilidade pode ir da simples possibilidade à certeza, passando pela verosimilhança e pela probabilidade. O ser humano vive em mundo objectivo com leis da Física que foram comprovadas na sua causalidade ― tanto assim que enviamos sondas espaciais até Plutão. Isto significa que no puzzle da ciência, já existem peças que estão correctamente colocadas e por isso não seria legitimo condenar um modelo só porque não é ainda o puzzle inteiro (a perfeição).

    Respondem à nossa necessidade de saber, mas nada dizem sobre o que é

    Este argumento é de natureza diferente do anterior. A ciência constata factos que derivam de axiomas ou princípios (por exemplo, as leis da Física). A ciência não se interroga sobre as causas desses axiomas, porque logicamente que um axioma não depende de nada ― nada existe a montante do axioma que o condicione, segundo a realidade objectiva de que falei. Quando dizemos que “a soma dos ângulos internos de qualquer triângulo é sempre igual a 180 graus”, trata-se de uma constatação de facto de um axioma que não depende nada ― sempre existiu assim desde o princípio do universo. Portanto, a forma de se saber qual é a “causa dos axiomas” não é através do método científico empírico ou mesmo do formalismo matemático. Contudo, através deste último e da filosofia, o ser humano consegue ter um vislumbre daquilo que só se consegue com a metaxia segundo Eric Voegelin (a fé religiosa).

    A filosofia faz o mesmo: interroga, se é boa filosofia e dá respostas quando os filósofos decidem propagar as suas opiniões, sempre provisórias e falíveis porque dependem do tempo e circunstâncias que rodeiam o pensador;

    Uma opinião é próxima da certeza ― e não da “verdade”, que é outra coisa ― quando exactamente resiste ao tempo. Aquilo que é provisório, e portanto apenas uma mera possibilidade, com o decorrer dos séculos e dos milénios transforma-se (ou não) em uma probabilidade, se não em certeza. A construção milenar da lógica pode colocar em causa a credibilidade dos silogismos de Aristóteles, mas não pode negar o seu valor na construção da lógica moderna. A definição de “liberdade” de Duns Escoto, ainda hoje e depois de mil anos passados, mantém toda a sua lógica e credibilidade. Não devemos é meter todos os “filósofos” no mesmo saco.

    todas as teorias filosóficas e científicas enfermam do problema de exprimirem a visão do mundo daquele que o observa e as nossas experiências interiores ficam sempre interiores, indizíveis e impossíveis de passar a outro ser.

    Naturalmente que vivemos em uma realidade de relações de sujeito-objecto ― e não tanto o que se passa na realidade da imanência quântica, onde o determinismo não é lei. Nem mesmo a imanência do formalismo matemático, que cria uma linguagem que é inexprimível pela nossa linguagem corrente e inacessível ao senso-comum, foge à sua condição de “efeito” do Homem. E por isso é que eu escrevi no postal que pouco ou nada sabemos da singularidade quântica onde o nosso mundo se anula e as leis da Física deixam de ser aplicáveis.

    A interioridade humana pertence à consciência individual que se liga a todas as consciências através da “intersubjectividade metáxica”, ou seja, aquilo que nos une a todos através da Metaxia. O facto de nós sentirmos de forma diferente a existência da Verdade, não significa que essa diferença de sentimentos determine a inexistência dessa Verdade. O simples facto de nós nos perguntarmos se “a Verdade existe?” revela que a Verdade, seja ela qual for, existe ― embora não exista uma certeza ou um consenso sobre essa Verdade.

    Duvido da existência de uma «super-consciência» porque acho que isso mostra até que ponto nós, seres humanos, humanizamos o universo na falta de outro modelo. Porque haverá uma tal «coisa» no universo?

    Experiências científicas (empirismo puro!) com partículas elementares longevas (as PEL: protões, fotões, neutrões, electrões, etc) demonstram que a função ondulatória quântica (as ondas quânticas que não têm massa, e por isso não podem ser consideradas como sendo matéria) se transforma em partículas (e portanto em matéria, porque passam a ter massa) depois de observadas pela consciência humana.

    Este facto nunca você viu mencionado num telejornal, porque ele traz consigo uma ameaça ideológica ao establishment correcto. Se as PEL, enquanto ondas, se transformam em matéria quando ao observadas por uma consciência humana, a pura lógica ordena que todo o universo material tenha sido ― ou seja constantemente ― observado por uma consciência que não é humana. Do que se trata aqui não é de “realismo filosófico”, mas da extrapolação da prioridade da consciência humana para uma consciência universal a que chamei de “super-consciência”.

    Por outro lado, você parte do princípio de que a consciência é deste mundo da realidade objectiva (epifenomenologia de Huxley e do darwinismo) como um simples produto do cérebro humano e nada mais do que isso ― e que portanto, a consciência não existe como a condição metáxica de ligação entre o nosso mundo objectivo, a imanência e a transcendência.

    Se a consciência é um epifenómeno da matéria, como pode a consciência assim entendida “transformar” a função ondulatória quântica (PEL) em partículas (matéria) somente através da observação da função ondulatória quântica?! Como é que pode um efeito determinar o comportamento de uma causa?!! Trata-se de pura lógica e respeito por ela.

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    Comentar por O. Braga — Sábado, 5 Dezembro 2009 @ 3:50 pm | Responder

  3. @ Isabel

    Fiquei feliz por saber que em Portugal ainda há gente que se interessa por estas matérias. Nem tudo está perdido.

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    Comentar por O. Braga — Sábado, 5 Dezembro 2009 @ 4:04 pm | Responder


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