perspectivas

Quinta-feira, 3 Dezembro 2009

O ambientalismo das “mudanças climáticas antropogénicas” é uma religião gnóstica (2)

Ponto prévio: Convém que fique claro que uma coisa é o monismo religioso do “aquecimento global antropogénico por via do CO2”, e outra coisa é a poluição dos oceanos, o excesso e desperdício que decorre da predação do mundo animal e a desflorestação.


Para o gnosticismo, a integridade e a honestidade da ciência não têm absolutamente nenhum valor senão como instrumento de eliminação da “ordem do ser” que decorre da condição existencial metáxica do ser humano

Num postal anterior referi o facto de que o cristianismo criou as condições para o desenvolvimento da ciência quando reconhece a transcendentalidade de Deus. Sendo Deus transcendente ao universo material, o cristianismo libertou, assim, o espaço necessário à sociedade europeia para a investigação científica. O objecto da investigação científica ― o mundo ― é dessacralizado pelo cristianismo porque não faz parte da essência divina propriamente dita; o Génesis bíblico estabeleceu o mundo como sendo criado ― separado do Criador ― e portanto susceptível de ser investigado pelo Homem. Isto significa que o mundo, segundo o cristianismo, pertence ao vulgar profano e não pertence, por isso, ao sagrado, e a vulgaridade do mundo criou o espaço cultural necessário e suficiente para que a investigação científica pudesse ocorrer de uma forma descomplexada.

No primeiro postal desta série, falei da “metaxia” segundo Platão como condição da existência humana. Eric Voegelin altera sensivelmente a concepção platónica de metaxia que ele define como sendo “a experiência do encontro da consciência humana com a realidade transcendente”. Assim, a metaxia segundo Voegelin é o espaço da consciência onde o Homem participa da realidade transcendente de Deus.

Portanto, para os cristãos, o mundo físico ― o tal mundo criado por Deus ― é objectivo, mesmo quando partimos do princípio quântico da descontinuidade material: segundo o cristianismo, a realidade do macrocosmos é objectiva, assim com as leis da natureza que se aplicam nesse macrocosmos, e o microcosmos quântico pertence a uma realidade imanente com leis e regras próprias e distintas das que existem na objectividade macroscópica em que vive o ser humano a sua existência metáxica.
De igual modo, a transcendência de Deus é para os cristãos algo de concreto e real que decorre da existência metáxica, entendida tanto do ponto de vista platónico como do de Voegelin.

  1. Porém, e em primeiro lugar, para os gnósticos, a natureza objectiva do mundo macrocósmico não existe, na medida em que o mundo é concebido por eles como sendo uma representação ou Ersatz de uma presumida realidade perfeita que se esconde por detrás das aparências sensíveis do mundo ― mas essa “realidade perfeita” não é transcendente, mas imanente, ou seja, ela pertence ao mundo embora escondida dos olhos dos “ignorantes”.
    Em suma, para os gnósticos existe um outro mundo material que é perfeito e isento de mal, e que se esconde por detrás do mundo que apreendemos pelos sentidos e através da razão. Neste sentido ― e segundo a terminologia de Eric Vögelin ― os gnósticos rejeitam liminarmente a “ordem do ser” que decorre da aceitação cristã da realidade objectiva do mundo macroscópico e da condição existencial metáxica do Homem, e acreditam, ao invés, que podem criar uma nova realidade do mundo que decorre da sua consciência subjectiva.
  2. Em segundo lugar, e depois de terem eliminado a condição existencial metáxica inerente à “ordem do ser”, os gnósticos adoptam uma utopia prótea (de “Proteu”, o deus da mitologia grega que mudava de forma) que recusa toda e qualquer lei natural que condicione não só a natureza como o ser humano. Assim, a condição metáxica da “ordem humana do ser” não existe, e em lugar dela passa a existir uma ideia gnóstica de ser humano sem essência própria e que pode e deve ser sujeito a construções sociais, e moldado pela vontade ou pela violência segundo a subjectividade gnóstica. Os movimentos de esquerda, do Positivismo político ao Marxismo, incluindo o feminismo, o gayzismo e o ambientalismo gnóstico, partem do princípio de que a “ordem do ser” não existe e que as leis da natureza são susceptíveis de serem mudadas ou adaptadas segundo uma necessidade de revelação subjectiva do mundo perfeito gnóstico; decorrente dessa necessidade de revelação desse mundo material perfeito e isento de mal, os seres humanos “ignorantes” devem ser forçados ― pela violência, se necessário for ― a aceitar a subjectividade gnóstica da transformação do mundo. Foi esta visão gnóstica da recusa da “ordem do ser” que assassinou mais de 200 milhões de pessoas só no século XX através dos movimentos revolucionários.
  3. Em terceiro lugar, no seu desiderato de encontrar um substituto para a “ordem do ser”, os gnósticos recusam qualquer autoridade e rejeitam qualquer tipo de disciplina, e fazem da subversão ideológica um instrumento de trabalho no sentido de minar a “ordem do ser” e a autoridade objectiva das leis naturais. O gayzismo é uma expressão clarividente desta característica gnóstica. Enquanto que, para o cristianismo, a ciência existe para que a Humanidade possa ir descobrindo a verdade do mundo físico e profano, para os gnósticos a ciência existe para fornecer a necessária justificação para a substituição da “ordem do ser” pela alienação humana segundo a utopia prótea referida no ponto anterior. Neste sentido, e para o gnosticismo, a integridade e a honestidade científica não têm absolutamente nenhum valor senão como instrumento de eliminação da “ordem do ser” decorrente da condição existencial metáxica do ser humano.
  4. Em quarto lugar, os gnósticos não aceitam o mundo tal qual ele é objectivamente, considerando o mundo ― tal qual nos aparece pelos sentidos e pela razão ― como um mundo injusto e deformado. Decorrente desse mundo por eles considerado como “deformado e injusto”, nasce uma estranha e subjectiva utopia através da qual todo e qualquer o tipo de autoridade e de convenções deve ser derrubado, na medida em que qualquer tipo de autoridade e de convenções é ideologicamente identificado e conectado com a “ordem do ser” da condição existencial metáxica que os gnósticos pretendem erradicar da natureza humana.
  5. Por último, uma característica dos gnósticos é a pesporrência, o sentimento de superioridade em relação aos “ignorantes cristãos”, uma sensação de “iluminação” em contraponto à “estupidez das massas”. O Homem-massa é considerado pelos gnósticos como carne para canhão, e esta superioridade auto-atribuída pelos gnósticos extende-se aos cientistas considerados “atrasados mentais” porque teimam em ver na ciência um propósito de investigação objectiva.

Em resumo: quando analisamos o que se passa no poder político contemporâneo e principalmente na Europa, chegamos à conclusão que estamos a ser governados por loucos varridos.

1 Comentário »

  1. […] ler nesta série: parte I, parte II Deixe um […]

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    Pingback por O ambientalismo das “mudanças climáticas antropogénicas” é uma religião gnóstica (3) « perspectivas — Terça-feira, 8 Dezembro 2009 @ 3:04 pm | Responder


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