perspectivas

Sábado, 14 Novembro 2009

O “casamento” gay e a estimulação contraditória

O texto de Maria José Nogueira Pinto que publiquei ontem (já tinha publicado um outro texto dela) remete-nos para um processo político intencional de irracionalização das massas através da estimulação contraditória. Escreve Olavo de Carvalho acerca da estimulação contraditória:

« O psicólogo russo Ivan Pavlov ( 1849 – 1936 ) demonstrou que a estimulação contraditória é a maneira mais rápida e eficiente de quebrar as defesas psicológicas de um indivíduo (ou de um punhado deles), reduzindo-o a um estado de credulidade devota no qual ele aceitará como naturais e certos os comandos mais absurdos, as opiniões mais incongruentes. »

lobotomy-in-progressEste processo de massificação política da estimulação contraditória não é de agora; teve o seu início na aplicação política em meados do século XIX (a sua origem ideológica foi identificada por Eric Vögelin no século XII através da profecia dos “três reinos” de Joaquim de Fiore) , atingiu o seu auge com o nazismo e o comunismo e, com a derrota do nazismo, a Europa ocidental parecia ter-se livrado ― pelo menos, parcialmente ― de um sistema de religião-política intramundana que faz da estimulação contraditória um dos principais meios de anexação da individualidade humana. Com a queda do muro de Berlim, os marxistas que viviam a Ocidente ― basta saber que Durão Barroso, que preside à Comissão da União Europeia, militou num partido maoísta ― saíram do armário e têm contribuído activamente para este clima de imposição do absurdo na política que paralisa as consciências mais vulgares.

Por outro lado, a maçonaria portuguesa ― seguindo o exemplo da maçonaria espanhola ― encontra-se em avançado estado de degradação moral, que se acentuou desde que, há pouco mais de uma década, termos todos assistido “à guerra das lojas maçónicas” em Lisboa que chegou ao ponto de vermos uma loja maçónica incendiada alegadamente por membros de uma outra loja rival. Existe, portanto, uma conjunção multilateral de esforços ― que não é necessariamente concertada, e que inclui uma certa plutocracia seriamente comprometida com grupos internacionais como o CFR e Bilderberg ― que tem levado, desde o princípios dos anos 90, a uma aceleração de um processo político-religioso de imposição do absurdo às massas, nomeadamente através da estimulação contraditória, tendo como objectivo a abdicação do pensamento e do raciocínio individual.

A própria construção do leviatão europeu denota essa conjunção múltipla de esforços no sentido de imposição de uma nova religião política intramundana ― e digo “nova” porque a História, em princípio, não se repete. Chamar à União Europeia de “leviatão” não é um excesso formal. A diferença entre o leviatão de Hobbes e o leviatão europeu que se consumou com o tratado de Lisboa, é que enquanto no primeiro existia o soberano absolutista que era o intermediário entre a vontade de Deus e os seus súbditos, no segundo Deus foi decapitado; uma demonstração deste facto está na decisão do tribunal europeu dos direitos humanos que impôs ao povo italiano, contra a vontade de uma esmagadora maioria dos cidadãos, a decapitação do Deus transcendente que pretende impôr, em Sua substituição, uma religião política intramundana. Aliás, a decapitação de Deus vem já dos totalitarismos do início do século XX com excepção do fascismo italiano que se mostrou muito mais espiritualizado do que o nazismo e o comunismo ― o leviatão europeu nada mais está a fazer do que seguir os passos ideológicos desses totalitarismos.

Enquanto que o nazismo invocava o sangue [a raça] e a terra pátria para impôr o absurdo aos seus cidadãos através da estimulação contraditória sistematizada pelo “terceiro reino” preconizado por Joaquim de Fiore, o comunismo invocava a construção do “paraíso na terra” que o mesmo monge tinha prognosticado, e o fascismo italiano consumava o DVX de Fiore (o “500, 5 e 10” de Dante) que se consubstancia no soberano absoluto de um Estado que transformava os seus súbditos em peças de uma engrenagem que serve um fim superior ao indivíduo.

Aquilo que o cristianismo (e as diferentes igrejas cristãs) sempre defendeu, que é o direito da comunhão directa do indivíduo com Deus, foi, em primeiro lugar e através do leviatão de Hobbes, retirado ao súbdito e delegado no soberano absoluto que passou a ser o mediador entre Deus e a “pessoa colectiva” a que passou a pertencer o indivíduo; em segundo lugar, com os totalitarismos do século XX, o soberano absoluto passou a ser, ele próprio, o elemento catalizador de uma religião política sem Deus e que tinha como substância o sentido sagrado do mundo, em que Deus vive no próprio homem através da soberania e em que o Estado (ou leviatão) se transforma na própria igreja.

Na construção do actual leviatão europeu, as características da religião política intramundana dos totalitarismos do século XX mantêm-se, e o próprio leviatão transformou-se simbolicamente no “soberano” de Hobbes e dos totalitarismos do século passado. A diferença essencial é que a estimulação contraditória já não se faz com apelos à guerra ou ao ódio, mas apelando à justiça e ao amor quando se trata, na realidade, de fazer impôr às massas a primazia do instinto sobre a razão através da sistematização jurídica da estimulação contraditória .

É assim que em nome da justiça, 84% dos italianos são totalmente obliterados por uma decisão de um tribunal europeu que considera que o plebiscito não é a vontade objectiva do povo mas antes a expressão de uma subjectividade arbitrária ― e é assim que o referendo irlandês seria repetido as vezes necessárias ― e o próprio povo irlandês percebeu isso ― até que o resultado do plebiscito pudesse confirmar a vontade do soberano (o leviatão) como sendo a vontade objectiva do povo.

É neste puzzle de implementação de uma religião política herdeira dos totalitarismos do passado recente que se encaixa o “casamento” gay e a adopção de crianças progénitas e não progénitas por duplas de gays. Através da estimulação contraditória e dos simbolismos da renovada religião política do leviatão de Hobbes, e em que vão a jogo um conjunto de vontades por vezes até antagónicas, se vai fazendo a injustiça em nome da justiça, a irracionalidade em nome da razão, a obliteração de direitos individuais em nome do interesse supremo da “pessoa colectiva”, a aplicação sistemática do mito que sustente um argumento circulus in demonstrando contra o cristianismo como representante da ecclesia a destruir em nome da construção de uma nova ecclesia intramundana, ao mesmo tempo que se protege o islamismo poligâmico que condena à pena de morte os homossexuais nos seus países de origem.

Vivemos no reino da estimulação contraditória; se Kafka vivesse, mudava o nome do seu livro de “Processo” para “Europa”. A estimulação contraditória remete-nos para a inadequação de um certo pensamento que se pretende, alegadamente, lógico ao real mas que nos faz pensar no episódio de “O Rinoceronte”, de Ionesco, onde, enquanto vários rinocerontes circulam pela cidade, um representante da religião política oficial e única, vem responder às angústias dos habitantes através de silogismos. E quando dois milhões de portugueses estão no limiar da pobreza, a religião política do leviatão quer impôr, contra a opinião da maioria do povo, o “casamento” gay e a adopção de crianças por duplas de gays. Eis um bom exemplo de estimulação contraditória.

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