perspectivas

Sábado, 14 Novembro 2009

Martin Heidegger

Filed under: filosofia — O. Braga @ 10:53 am
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Embora eu não defenda a censura e a queima de livros, penso que existem dois autores ― um no século 19 e outro no século 20 ― cujos livros deveriam ser prefaciados por alguém com saber suficiente e eticamente competente, que chamasse a atenção dos leitores incautos sobre o que iriam ler, e dando-lhes indicações sobre o que as ideias impressas podem significar em termos de alienação ideológica. O primeiro, o do século 19, é Nietzsche de quem já aqui falei bastante; e o segundo é, na minha opinião, o mais perigoso pensador do século 20: Martin Heidegger. E porquê?

Martin HeideggerNa sua teoria, Heidegger parte de um princípio absolutamente errado, e a partir do qual todo o desenvolvimento do seu pensamento é contaminado e a realidade que ele apresenta passa a estar retorcida: confunde “imanência” com “transcendência”, ou melhor, chama de “transcendência existencial” à “imanência”. Este erro pode parecer estranho porque já no seu tempo, durante os anos 20 do século passado, a microfísica tinha demonstrado, através do formalismo matemático e até com algumas experiências, que o mundo quântico ― que é o fundamento da possibilidade da existência, em termos materiais que é onde Heidegger se situa e sente bem ― era imanente e não transcendente.
A realidade existencial apresentada por Heidegger é “retorcida”, e não “distorcida”, porque se fosse “distorcida” essa realidade enviesada poderia eventualmente dever-se a uma deficiência de percepção; sendo “retorcida”, o enviesamento ideológico apresentado por Heidegger é propositado e dependeu de uma sua acção directa e intencional.

Martin Heidegger pegou em Husserl e na fenomenologia e “retorceu” ambos. Adoptou a psicanálise de Freud como sendo “científica” ― quando Karl Popper lhe recusou esse estatuto através do princípio da falsificabilidade ― juntando-a com Husserl, Hartmann e Scheler, e adicionando a tudo isso o seu conceito de transcendência existencial para, “retorcendo” toda essa série de conceitos, criar um sistema que serviu de base, nomeadamente, à teoria do marxista e psicanalista francês Jacques Lacan que ainda hoje é o supra-sumo dos marxistas culturais.

Desenvolvimentos posteriores de Martin Heidegger encontram-se na “teoria do discurso” do pedófilo Foucault, no desconstrucionismo do abstruso Derrida, e na definição de “filosofia” como sendo restrita à “imanência”, do defenestrado Deleuze. Um desastre completo.

Heidegger revelou o seu espírito nazi quando escreveu sobre a “existência anónima” ao mesmo tempo que, com um cinismo inqualificável, fez questão de dizer que a sua abordagem à “existência anónima” não implicava nenhum juízo de valor. Seria como se eu dissesse que o meu vizinho é um porco, considerando esta conclusão da minha análise como sendo apenas uma constatação de facto isenta de qualquer juízo de valor.

A “existência anónima” de Martin Heidegger remete o comum dos mortais para o limbo da animalidade e da inferioridade humana, em uma projecção literata do Untermenschen nazi. Em oposição à existência anónima, que Heidegger considera como sendo uma dejecção humana ― um dejecto, isto é, merda ―, ele contrapõe uma espécie de nova versão do super-homem de Nietzsche que é o homem que, para se compreender, adopta como ponto de partida “ele mesmo”, e não o mundo ou os outros homens como faz o “ser inferior” que vive uma “existência anónima”.

Se Nietzsche foi, pelo menos, um literato extraordinário, Martin Heidegger nem sequer tinha o condão nietzscheano de nos prender à leitura. E se existiram essa duas aberrações filosóficas nos dois séculos anteriores, já temos pelo menos uma aberração no século 21: Peter Singer.

Para quem quiser ler um autor existencialista, e apesar de eu não concordar inteiramente com ele, aconselho Jean-Paul Sartre, porque ao menos a leitura tem o interesse da narrativa e de uma lógica que separa a imanência da transcendência, por um lado, e não põe de parte a transcendência como uma possível realidade, por outro ― e sobretudo Sartre consegue sair de uma lógica circular e cultural de uma mística de origem pagã e primitiva. E ainda melhor que Sartre, aconselho Karl Jaspers que é de uma leitura muito agradável.

Bom fim-de-semana (e bons livros).

5 comentários »

  1. recomendo Alan Socal e seu “imposturas intelectuais”, onde ele desmascara boa parte desses lacanistas.

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    Comentar por Shâmtia Ayômide — Domingo, 15 Novembro 2009 @ 5:56 pm | Responder

  2. errata: o nome correto é Alan Sokal

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    Comentar por Shâmtia Ayômide — Domingo, 15 Novembro 2009 @ 5:57 pm | Responder

  3. Há no seguinte link mais alguns pontos sobre Heidegger:
    http://www.dicta.com.br/heidegger-o-filosofo-do-nazismo/

    E para não simplesmente deixar um post apenas com um link e sem nenhum adendo, gostaria de sanar um ponto: nunca li Heidegger, mas li uma comparação entre ele e seu mestre, Husserl, que dizia que, enquanto Husserl saíu da matemática para a filosofia e assim, procede logicamente para chegar a algum ponto, Heidegger saiu da religião e como que propôs uma filosofia messiânica, o que, para esse autor, é uma tremenda bobagem. Essa informaçào procede?

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    Comentar por eduardo — Segunda-feira, 16 Novembro 2009 @ 11:12 am | Responder

  4. Não podemos dizer que Martin Heidegger teria sido o “filósofo do nazismo”, porque as ideias subjacentes ao nazismo são anteriores e escoram-se no idealismo alemão (Hegel, Fichte, etc). Martin Heidegger foi antes influenciado pelas ideias nazis do seu tempo, a ponto de a noção de “consciência” não ter, para Heidegger, um sentido metafisico. A filosofia de Martin Heidegger é imanente ― um exemplo do gnosticismo ― e pior: ele chama de “transcendência” à imanência (este tipo de confusão entre conceitos, muito usual na filosofia, não é inocente).

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    Comentar por O. Braga — Segunda-feira, 16 Novembro 2009 @ 8:18 pm | Responder

  5. Num comentário do blogue referido pelo Eduardo, cujo link está a seguir, existe a seguinte proposição:

    http://www.dicta.com.br/heidegger-o-filosofo-do-nazismo/

    Foi ele que viu que o pensamento filosófico depois dos pré-socráticos foi pensado o ente como ser, um erro filosófico.

    Convém dizer que o “ente” de Martin Heidegger, entendido em termos gerais ― como tudo aquilo que nos rodeia e nos circunscreve ― como em termos particulares ou nominais ― animais, o homem, uma pedra ― corresponde ao conceito de fenómeno de Kant. Martin Heidegger retorce o conceito de Ser Em Si (o Ser absoluto) transformando tudo o que existe em “entes”.

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    Comentar por O. Braga — Segunda-feira, 16 Novembro 2009 @ 11:08 pm | Responder


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