perspectivas

Quarta-feira, 4 Novembro 2009

Claude Lévi-Strauss

« Tudo o que é universal no Homem, resulta da natureza e caracteriza-se pela espontaneidade; tudo o que é adstrito a uma norma pertence à cultura e apresenta os atributos do relativo e do particular ».

— Claude Lévi-Strauss


claude-levi-strauss

Claude Lévi-Strauss ― juntamente com o inglês Radcliffe-Brown ― foi o primeiro a aplicar o estruturalismo aos organismos vivos ― neste caso ao ser humano através da antropologia cultural e da etnologia. Sobre a vida e obra de Claude Lévi-Strauss, podem ler a versão oficial e politicamente correcta na Wikipédia.

O estruturalismo não é uma doutrina científica, como por exemplo a mecânica quântica ou a teoria de cordas, nem é uma doutrina filosófica, como por exemplo o existencialismo. É antes uma tendência metodológica no sentido em que pretende descobrir e classificar os métodos segundo os quais os sistemas ou estruturas se organizam de forma teleológica, ou seja, no sentido de atingirem os seus próprios fins. Por exemplo, Ferdinand Saussure aplicou o estruturalismo à linguagem, assim como Noam Chomsky.

Em termos gerais, o que o estruturalismo, como tendência metodológica, pretende é tentar estabelecer, se possível, um determinismo absoluto (causa-efeito) ― ou de pelo menos reduzir a um mínimo a casualidade dos fenómenos ― nos campos de investigação ou experiência a que se dedica. E aqui começa o meu “problema” com o estruturalismo.

Claude Lévi-Strauss sustentava que na estrutura das sociedades humanas ― como em todo o tipo de estruturalismo aplicado ― existe o “acaso” e a “ordem”. Por razões que não vêm agora ao caso, eu penso que o “acaso” não existe senão como “desordem” (segundo o conceito de Eric Voegelin) e como sendo uma forma alienada da “ordem”. Porém, Claude Lévi-Strauss tem razão quando sublinha a importância da “ordem” na estruturação da cultura de uma sociedade, na medida em que sem a “ordem”, a cultura não pode desempenhar o seu papel agregador e de garantia de existência da sociedade enquanto grupo social.

É celebre o papel da regra social e da “ordem” que Claude Lévi-Strauss atribuiu à proibição do incesto ― ao tabu do incesto. A proibição do incesto é absolutamente racional porque nela assenta a ordem da família, e portanto, da sociedade: se os filhos casassem com as suas mães, deixava de ser possível a distinção entre gerações; deixaria de se saber quem são os pais, filhos, maridos ― as categorias fundamentais da família e da sociedade ruiriam e qualquer hierarquia como pressuposto da autoridade tornar-se-ia impossível. No sentido de permitir a sobrevivência da sociedade, o grupo social estabeleceu a regra cultural ― o tabu do incesto ― que permitiria à cultura garantir a existência do grupo como grupo, e de substituir a “desordem” ― que Lévi-Strauss chama de “acaso” ― pela “ordem”.

Contudo, Lévi-Strauss não tentou reduzir a sociedade a um modelo sistemático e estrutural que pudesse prever o comportamento da sociedade em função de uma alteração de um dos seus elementos, como seria o fim de um estruturalismo puro. Ele foi (talvez) alvo de má interpretação que tem justificado algumas das engenharias sociais a que temos assistido ultimamente.

Se partirmos do princípio de que o ser humano é um robô ― coisa que Lévi-Strauss não fez porque se distanciou do estruturalismo puro ―, ou seja, a partir do momento em que se lhe aplica o método estruturalista que condiciona a sua liberdade através de um sistema que tenha a pretensão de prever o seu comportamento em sociedade em função de uma alteração nos padrões culturais, caímos no actual absurdo do “casamento” gay ― mas não foi essa a mensagem de Lévi-Strauss quando ele escreveu que “a antropologia não faz outra coisa senão demonstrar a homologia [a correspondência] de estrutura entre o pensamento humano em exercício e o objecto humano a que se aplica” ― a estrutura do pensamento humano corresponde ao próprio objecto humano como portador da “ordem” que garante a sobrevivência do grupo através de uma espécie de metafísica do Ser que inspirou Heidegger.

O mesmo princípio metodológico que levou Lévi-Strauss a caucionar a regra social do tabu do incesto como um princípio de ordem cultural que mantém a sociedade coesa e assegura a sua sobrevivência, esse mesmo princípio sancionatório é aplicável ao “casamento” gay.

Em relação à crítica de Lévi-Strauss ao humanismo cristão, aconselho a leitura do livro do antropólogo Robert Edgerton com o título “Sick Societies: Challenging the Myth of Primitive Harmony” (1992), em que Edgerton põe a nu a hipocrisia paternalista da antropologia moderna que também foi seguida por Lévi-Strauss. Enquanto que a auto-crítica sempre foi uma tradição central da cultura ocidental desde Platão a Kant e Husserl, a antropologia moderna transformou esse legado cultural da auto-crítica em um “auto-ódio” cultural que se transmitiu às elites e que difere radicalmente da introspecção tradicional na cultura europeia anterior à Idade Moderna.

3 comentários »

  1. @ ao leitor Francisco:

    Se Vc não concorda com o texto, diga porquê. Não parta do princípio — próprio e típico da arrogância panasca — de que tem uma autoridade de direito para dizer que “eu não sei nada sobre o assunto”, e sem explicar por quê.

    O seu comentário não será publicado.

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    Comentar por O. Braga — Sexta-feira, 6 Novembro 2009 @ 9:18 pm | Responder

  2. Contudo, Lévi-Strauss não tentou reduzir a sociedade a um modelo sistemático e estrutural que pudesse prever o comportamento da sociedade em função de uma alteração de um dos seus elementos, como seria o fim de um estruturalismo puro. Ele foi (talvez) alvo de má interpretação que tem justificado algumas das engenharias sociais a que temos assistido ultimamente.

    Esse tipo de fenômeno não é novo. É muito comum na história da humanidade, os homens inventarem algo mecânico, um “sistema” e achar no final que o sentido da vida é determinado por este, é o fascínio que obra termina por criar no seu próprio criador.

    Quando inventaram o relógio muitos anos atrás, a moda na época era redigir artigos sobre o corpo humano, tomando um relógio como modelo para fazer analogias. Na atualidade, volta e meia aparece aqueles que acham que o cérebro é quem imita um computador, quando na verdade um computador é uma tentativa quixotesca(mas que ainda sim cumpre eficientemente sua função de armazenar dados) de imitar um cérebro.

    Eu mesmo quando jovem(por isso me espanto quando vejo pensamentos desse tipo vindo de gente mais velha), quando iniciei meus estudos em linguagem de computação, fascinado pela lógica de programação imaginava que o mundo, o pensamento, as relações sociais, tudo era construído em base de “sistemas” análogos a lógica das linguagens de computação. Por incrível que pareça, quando comecei a ler astronomia, percebi o quanto estava doido.

    Na verdade essa megalomania é muito comum, dela se deriva todos os ismos: psicologismo, sociologismo, cronocentrismo, historicismo e afins, todos essas coisas tem um pano de fundo comum que é negar a capacidade de inteligência humana, a “coisificação do homem”.

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    Comentar por Shâmtia Ayômide — Terça-feira, 10 Novembro 2009 @ 12:36 am | Responder

  3. […] francês enquadra a sua teoria no estruturalismo, que como expliquei aqui em relação a Claude Lévi-Strauss, não é uma doutrina científica nem filosófica senão uma tendência metodológica, ou seja, é […]

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    Pingback por Não há paciência para aturar frozôs « A vida custa — Quinta-feira, 12 Novembro 2009 @ 7:44 pm | Responder


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