perspectivas

Domingo, 1 Novembro 2009

Valor e juízo (5)

Filed under: ética,cultura,Sociedade — O. Braga @ 10:13 am
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goyaAtravés do juízo teleológico ― que como vimos anteriormente, e segundo Kant, faz parte da categoria do juízo reflexivo que engloba também o juízo do sentimento ou juízo estético ― que se diferencia do juízo do entendimento ou da razão entendida como actividade não-reflexiva do Homem, dizia que através do juízo teleológico o Homem condiciona a subjectividade do “gosto” qua “juízo estético”. Isto significa que, e ao contrário do que é muitas vezes dito, o “gosto” não é totalmente subjectivo devido exactamente à componente teleológica da condição humana ― e por isso podemos afirmar com razão que “os gostos se discutem”.

Naturalmente que podemos sempre alegar que o juízo teleológico não existe em todos os seres humanos, e mesmo que existisse em todos, aquele poderia não ser exactamente igual em relação a cada um dos seres humanos.

Sendo o Homem um ser com capacidade cognitiva, e dada a sua condição de ser humano racional finito, o juízo teleológico faz parte da sua essência; o ser humano pode não exteriorizar, reprimir ou alienar esse juízo teleológico, mas não pode nunca extingui-lo de si próprio dada a sua própria condição objectiva. Por outro lado, sendo o juízo teleológico um juízo objectivo, ele é universal no sentido em que é comum a todos os seres humanos; o que pode diferir de um ser humano em relação a outro, é a forma como o juízo teleológico é compreendido ou entendido, mas a diferença entre os entendimentos que existe em função de graus de consciência, de cultura e/ou de educação, não alteram em nada a objectividade do juízo teleológico em si mesmo. Essa diferença entre os seres humanos apenas faz com que a expressão racional do juízo teleológico seja diferenciada em função de elementos característicos da individuação.

Para além da influência do juízo teleológico na composição do “gosto” que avalia uma obra de arte, existe a componente decisiva da genialidade do artista que consiste na união harmónica ― segundo a objectividade do juízo teleológico ― entre a imaginação e a razão enquanto entendimento. Através da genialidade, o artista utiliza o entendimento para disciplinar a liberdade sem freio da imaginação ― e é através dessa união harmónica, que é apanágio dos génios, que também se determina o princípio do “gosto” como decorrente de um misto de subjectividade e de objectividade.


Em todo o processo de avaliação de um objecto, existe, portanto, a atribuição de um valor que, como vimos, não é só e totalmente subjectivo e que tem a componente decisiva da genialidade.

O valor que damos a um objecto advém do juízo estético que diz respeito à sensibilidade ― subjectivo, portanto ― mas advém também da inteligência humana porque esta é a fonte da própria sensibilidade. A faculdade cognitiva do Homem, a sua inteligência, e a objectividade do seu juízo teleológico induzem nele o auto-reconhecimento de um espírito ― mesmo que um determinado ser humano se recuse a atribuir a existência do seu espírito (que ele reconhece em si próprio) a uma experiência que transcenda a própria realidade material em que ele se insere. Mesmo o ateu mais empedernido reconhece que tem um “espírito diferente” que o separa essencialmente dos outros animais ditos irracionais.

Neste sentido, “o valor é indissociável do espírito em acto” [Louis Lavelle], e o espírito em acto é exactamente essa combinação entre a subjectividade do sentimento e a objectividade do juízo teleológico do Homem em relação ao reconhecimento da genialidade da obra do artista. No sentido em que o juízo estético é subjectivo, “a sua raiz está no desejo” [Louis Lavelle], mas é um desejo assumido e não-difuso, que com a contribuição da objectividade da razão através do juízo teleológico se transforma em querer.

O valor que atribuímos a um objecto não é o objecto em si porque o valor não pode ser possuído, e por isso é que a obra de arte pertence ao mundo e não à vida dos homens, e neste sentido se distingue do entretenimento. O valor permanece sempre para além do acto de posse, e portanto, de consumo; o valor é procurado mas nunca possuído.

Na origem de todo o valor, está o espírito. No acto de se estabelecer a si próprio, o espírito estabelece o seu próprio valor e concomitantemente estabelece o valor de todas as coisas que com ele têm relação. O valor enquanto espírito em acto não necessita de justificação, por que o valor entendido nesta condição é a condição para a justificação do valor de todos os objectos de que o espírito se apercebe da existência. A única coisa que podemos justificar são os efeitos do espírito em acto, e não o princípio que os justifica que é o espírito em si mesmo e cujo valor não carece de alguma justificação.

O carácter fundamental do valor é a expressão da sua identidade com o espírito, sendo este gerador de si próprio e que só no amor do valor se engendra a si mesmo. Se o espírito é o supremo valor e é, por isso, a fonte de todos os valores, só podemos reconhecer o valor do espírito através dos valores que o espírito produz ― não existe outra forma de valorizar o espírito.

Em suma: o “gosto” depende do juízo estético que é subjectivo e que é o “desejo” assumido através do “querer” ― um desejo que se transforma através da intervenção da objectividade do juízo teleológico. A relação entre o juízo estético e o juízo teleológico constituem e definem os valores que são produto do espírito e que, por sua vez, o definem, e na condição de valores não podem ser possuídos. Podemos possuir um quadro com uma pintura genial, comprá-lo, vendê-lo ou pendurá-lo numa parede para tapar um buraco, mas não podemos nunca possuir o seu valor, porque mesmo sendo essa obra de arte um valor relativo, está relacionado com o valor absoluto de tal maneira que o valor é sempre procurado e jamais possuído: podemos ter a sensação de que possuímos um objecto produto da genialidade humana, mas o seu valor permanece sempre para além da nossa posse.

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