perspectivas

Quarta-feira, 28 Outubro 2009

Valor e juízo (4)

Vou fazer aqui um parêntesis nesta série de postais para voltar ao tema do “Caim” de Saramago, porque parece que ainda há gente que não percebeu o meu ponto-de-vista.

fiO juízo teleológico consiste no acordo entre a natureza e liberdade [Kant] que é percebido imediatamente ― sem interferência da razão ― no juízo estético. Ao juízo estético, Kant chama também de juízo do sentimento. Ambos os juízos (estético e teleológico) fazem parte da categoria definida por Kant como juízo reflexivo em contraponto ao juízo do entendimento ou da razão (ver também o postal anterior sobre este assunto).

O juízo teleológico no Homem tem a ver com o eterno problema de se saber se existe uma causa e uma finalidade para a natureza. Sob o ponto de vista racional ― ou seja, sob o juízo do entendimento ―, este problema não tem solução, porque a realidade objectiva do conceito de “fim” [na natureza] não é demonstrável. Porém, o Homem, que tem a particularidade de possuir uma faculdade cognitiva, não pode conceber a possibilidade das coisas naturais, e especialmente dos seres vivos, se não admitir uma causa que actue em função de fins, e por isso, conceber um ser com inteligência (ou um desenho inteligente) que seja a própria “causa” em função da qual existe um “fim” determinado para a natureza, e que no hiato que se constitui entre a causa e o fim, o Homem actue na sua liberdade.

A esta particularidade da faculdade cognitiva do Homem, Kant chamou de juízo teleológico, e este está sempre presente ― juntamente com o juízo estético ― na avaliação da beleza de um qualquer objecto ― incluindo o livro de Saramago “Caim”.

Tentar erradicar o juízo teleológico da categoria do juízo reflexivo ― que inclui também o juízo estético ― que é característica do Homem, é não só tentar negar a própria relação entre a liberdade e a natureza que caracteriza o Homem, como é também o que José Saramago tem feito em alguns dos livros que escreveu, incluindo o supracitado. Quando analisamos uma alegada obra-de-arte, o nosso juízo reflexivo não se ocupa só com a estética mas também com o sentido teleológico da obra.

Por isso é que eu afirmei aqui ― e reitero ― que Saramago é burro para não dizer que ele actua de má-fé, não só porque tem a ilusão de que pode transformar um ser humano em uma espécie de autómato [Saramago excluído, naturalmente, porque ele se considera qua divino], em que o juízo reflexivo é formatado com o juízo estético mas sem a concorrência do juízo teleológico ― ele erradica o juízo teleológico de alguns dos seus livros ―, como defende implicitamente a arbitrariedade e a subjectividade do gosto (como outros burros, que não só o Saramago, defendem) quando pretende retirar o necessário juízo teleológico do exercício do “gosto”.

No sentido em que o juízo reflexivo é composto não só pela categoria subjectiva do juízo estético, mas também pela categoria objectiva do juízo teleológico, a ideia segundo a qual “os gostos não se discutem” não faz sentido [Kant] porque o juízo teleológico, que é objectivo, condiciona a subjectividade do juízo estético.

O gosto como actividade de uma mente verdadeiramente cultivada só entra em jogo quando a consciência da qualidade está amplamente disseminada, quando as pessoas reconhecem com facilidade aquilo que é verdadeiramente belo. E esse reconhecimento do belo é resultado da acção conjunta do juízo estético e o juízo teleológico ― e isto partindo sempre do princípio de que quem avalia um livro (ou uma obra de arte qualquer) se encontra liberto de interesses privados que tendem sempre a tentar impôr um padrão de belo em função de interesses meramente políticos.

E quando o o juízo teleológico é banido da definição de gosto, a cultura de uma sociedade apresenta sintomas de clara decadência, na medida em que a qualidade é aquilatada parcialmente, e em que poucos são os que permanecem receptivos ao carácter auto-evidente da qualidade em toda a dimensão do juízo reflexivo, isto é, não só estético como teleológico.

3 comentários »

  1. […] de Zimler, corro o risco (eu e muitos) de ser etiquetado de “fundamentalista”. E quando eu apelei para Kant e para a necessidade do juízo teleológico necessário a qualquer obra de arte (neste caso, de um livro) nada mais fiz do que apelar para a […]

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    Pingback por Sobre o texto de Richard Zimler sobre Saramago « A vida custa — Quinta-feira, 29 Outubro 2009 @ 9:38 pm | Responder

  2. Qual é a hipótese de uma permuta de links?
    Entre o Kafe Kultura e a Perspectiva?
    Por favor contacte-me: as1534852@gmail.com

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    Comentar por Mário Nunes — Sexta-feira, 30 Outubro 2009 @ 1:26 am | Responder

  3. @ Mário Nunes

    Já adicionei o “link” à lista e ao meu RSS READER

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    Comentar por O. Braga — Sexta-feira, 30 Outubro 2009 @ 8:44 am | Responder


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