perspectivas

Terça-feira, 27 Outubro 2009

Valor e juízo (3)

No último postal, questionei-me sobre se o gosto que existe eventualmente subjacente a um quadro de Vermeer ou de uma fotografia de Monroe como podemos ver mais abaixo, deveria ser considerado em plano de equivalência ― ou mesmo igualdade ― em relação a estes quadros expostos na Fundação de Serralves em 2005/2006, que passo a exibir (clicar para aumentar).

cu1cu2cu3cu4cu5cu6

Naturalmente que para fazer uma análise sobre o “gosto”, temos que nos “despir” de eventuais preconceitos negativos culturais o mais que nos for possível. Se alguns pintores se celebrizaram por reproduzir graficamente partes específicas do corpo humano, e fotógrafos artísticos fizeram o mesmo, porque razão o ânus (ou o vulgo “cu”) não pode ser objecto de obra de arte?! À partida, não existe nada de racional que possa impedir ou limitar o conceito segundo o qual a reprodução gráfica do cu não possa ser considerada como uma obra de arte. E o mesmo se pode dizer, à partida, de imagens pornográficas: porque razão uma imagem pornográfica ― seja fotográfica, seja pintada ― não pode ser considerada como uma obra de arte?

Quando fazemos uma demonstração racional de alguma coisa, em primeiro lugar temos que examinar os princípios de que pretendemos partir [Kant]. E um dos princípios é o de que todas as possibilidades de classificação dos objectos como sendo “obras de arte” são à partida válidas, salvo uma demonstração racional em contrário que deve ser directa, ou seja, não deve ser apagógica [Kant] na medida em que não deve, esta demonstração, basear-se no absurdo do seu contrário. Isto significa que não basta demonstrar que o facto de se considerar que a reprodução gráfica do cu, considerada subjectivamente como uma obra de arte, é um absurdo, para através da constatação desse absurdo se poder legitimar a demonstração do seu contrário ― de que a reprodução gráfica do cu não é necessariamente uma obra de arte.

monroe

O Homem só pode realizar a sua liberdade na natureza ― e continuo a seguir o pensamento de Kant ― e na medida em que o Homem necessita que a natureza não esteja em desacordo com a sua liberdade. Mas o acordo da natureza e a liberdade no Homem é também a exigência e o princípio da vida moral do Homem. Isto significa que a partir do momento em que o Homem e a natureza vivem em desacordo ou em contradição, não só a liberdade é posta em causa como a vida moral não é possível.

Contudo, esse acordo entre a liberdade e a natureza não resulta de um juízo objectivo “porque as exigências da vida moral não constituem os objectos naturais” que apenas estão condicionados pelo juízo racional. O juízo fundado no sentimento (o “gosto”) faz parte do juízo reflexivo em contraposição ao juízo determinante que é aquele definido pela razão ou entendimento.

O juízo estético é aquele que é apreendido pelo sujeito sem o trâmite racional de um conceito, isto é, é apreendido imediatamente e in loco sem interferência da razão. Assim, o juízo estético faz parte do juízo reflexivo como sendo a sua componente subjectiva. A componente objectiva do juízo reflexivo é o juízo teleológico. Enquanto que o juízo estético tem como objecto o prazer e o belo (que são ambos subjectivos), e a faculdade de os julgar de uma forma directa e sem interferência da razão (isto é, o “gosto”), o juízo teleológico, fazendo parte também da categoria do juízo reflexivo, tem por objecto a finalidade da natureza “que exprime o acordo entre a natureza e as exigências da liberdade, ou seja, a vida moral do Homem”. O juízo teleológico é, neste sentido, e embora pertencendo à categoria do juízo reflexivo, é um juízo objectivo.

Trocando por miúdos: quando olhamos para um determinado objecto, seja ele qual for, funciona em nós o juízo reflexivo ― que se distingue do “juízo determinante” que é racional ― que se divide em duas categorias: o juízo estético, e o juízo teleológico. O juízo estético faz a apreensão imediata e não racional do nosso juízo do sentimento (subjectivo) ou gosto, em relação a esse objecto. O juízo teleológico (objectivo) estabelece o acordo entre o objecto em causa e as exigências finalistas da natureza que presidem à liberdade do Homem no sentido da sua vida moral.

Isto significa que quando olhamos para as fotografias dos cus acima ― que foram expostas numa galeria da Fundação de Serralves ― actua em nós o juízo reflexivo (que não é racional), e é composto pelo juízo estético ― o gosto; ou temos uma sensação de prazer ou de desprazer ―, e pelo juízo teleológico ― que pensa o acordo entre a natureza e a liberdade mediante o conceito de fim. O objecto em causa (neste caso, a fotografia do cu de alguém) é apreendida pelo sujeito subjectivamente através do juízo estético, que imediata e subjectivamente estabelece o prazer ou o desprazer, e é apreendida directa e objectivamente através do juízo teleológico, que constitui aquilo que o sujeito entende ser o acordo da natureza com a liberdade como vida do sujeito.

Por isso, e independentemente do juízo estético que é subjectivo, o juízo teleológico objectivo que está presente na apreciação estética de um objecto por parte do sujeito, influi directamente na sua valoração na medida em que o juízo teleológico prescreve uma regra para a consideração subjectiva dos objectos a valorizar esteticamente.

Para além disso, Kant chama à atenção para a diferença entre a obra de génio, que é aquela que é produzida através da união entre a imaginação e a razão ou entendimento, na qual este último determina o princípio do gosto que disciplina a liberdade sem freio da imaginação, e a obra vulgar que praticamente qualquer pessoa pode realizar. A questão é saber se as fotografias acima, para além de serem condicionadas pelo juízo teleológico do sujeito, obedecem à genialidade da sua autoria.

No próximo postal irei falar do valor da obra de arte partindo dos princípios de Louis Lavelle.

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