perspectivas

Domingo, 25 Outubro 2009

Valor e juízo (2)

Filed under: ética,cultura,educação,filosofia,Sociedade — O. Braga @ 11:22 am
Tags: , ,

Quando olhamos à nossa volta e constatamos os utensílios e objectos que nos rodeiam, verificamos que uma esmagadora maioria desses objectos não provêm directamente da natureza, antes são constituídos por materiais transformados pelo Homem. Assim, o ser humano moderno tem a tendência para se dissociar da natureza propriamente dita, na medida em que separa ideologicamente os utensílios do seu quotidiano da sua proveniência natural. A nível do seu inconsciente, o Homem infere os objectos como sendo fabricados de raiz a partir de matéria de criação humana, como se a matéria que é utilizada na fabricação desses utensílios não fosse extraída da matéria bruta natural. A ideia de mundo artificial adoptada pelo ser humano é uma ilusão criada pelo modernismo, na medida em que a simples transformação da matéria do seu estado natural não retira a origem natural dos objectos e utensílios em causa. O conceito de Lavoisier, segundo o qual “na natureza nada se cria”, não é subliminarmente tido em conta pela sociedade de massas, e o homo faber passou a ter a pretensão de fabricar objectos a que a natureza e os processos naturais seriam totalmente alheios.

vermeer

A cada um dos objectos fabricados pelo Homem a partir da natureza é atribuído um valor que o define como uma mercadoria social. Porém, esse valor é puramente utilitário e não é consequência da valorização independente do objecto em si mesmo. A novidade que nos trouxe a Idade Moderna foi que esse mercantilismo social dos objectos fabricados se estendeu até às obras de arte. A função do sentimento como condição do juízo estético [Kant] praticamente desapareceu do Homem moderno quando os objectos culturais [arte] perderam a sua virtude original que é a de prender a atenção do ser humano para o belo ― e para o sublime ― e de comover. E na medida em que os valores culturais são assim desvalorizados através da venda em saldo dos seus objectos, e tendo em conta a estreita ligação entre os valores culturais e os valores morais, estes entraram também, por assim dizer, em uma liquidação de fim-de-estação. A partir do chamado pós-modernismo, os objectos culturais foram introduzidos em consumo; a arte confunde-se com entretenimento a ponto de até a elite cultural tudo fazer para que essa confusão se enraíze na cultura de massas. Criou-se o mito segundo o qual “os gostos não se discutem”, e a partir deste mito, não só os valores estéticos como os valores éticos e morais deixaram de ser passíveis de uma apreciação valorativa.

Naturalmente que o entretenimento surge do processo da vida quotidiana e é legítimo e mesmo necessário (e sempre existiu); o entretenimento faz parte das nossas vidas e a necessidade de divertimento por parte do ser humano é inegável. O “problema” é que na sociedade de massas já não podemos dissociar, de uma forma clara e evidente, a sociedade do “gosto refinado” sancionada pela política e anterior à idade moderna, e a sociedade dos “outros”; hoje já não existem os “outros” mas antes existe a opinião da multidão. E de tal forma a política foi permeabilizada pelo mercantilismo dos objectos culturais, que as próprias elites políticas e culturais se norteiam pelo mercantilismo do “gosto” definido pela opinião da multidão ― e é neste sentido que a arte se confunde hoje com o entretenimento.

Quando, por exemplo, assistimos há tempos, na RTP 1, a uma série de episódios sobre o personagem do João Semana da obra de Júlio Dinis “As Pupilas do Senhor Reitor”, recriada por Moita Flores ― cuja crítica fiz aqui ―, o que aconteceu foi a típica recuperação de um tema celebrado ― em forma de arte ― pela literatura portuguesa mas que foi adulterado de modo a tornar-se divertido, tendo sido alvo de uma “preparação” a fim de poder ser consumido facilmente. Aconteceu neste caso, como em muitíssimos outros, uma apropriação dos objectos culturais por parte da sociedade de massas ― aquela sociedade onde já não existem os “outros” mas apenas e só a opinião da multidão ― e através do metabolismo do processo vital da sociedade de massas, os objectos culturais são devorados e defecados; a obra de arte, em si mesma, deixa de ter valor quando é consumida e destruída pelo entretenimento que a adultera e a modifica. A série televisiva do João Semana de Moita Flores reduziu a respectiva obra de Júlio Dinis a uma espécie de kitsch para consumo imediato, não se tratando neste caso de uma extensão da cultura às massas (que seria de louvar) na medida em que o espírito da obra original foi adulterado, mas antes tratou-se de um exemplo da destruição da cultura em benefício do entretenimento puro e simples. Se Júlio Dinis sobreviveu parcialmente ao esquecimento da sociedade de massas e à negligência do nosso ensino, não sobreviverá a muitas versões recreativas do tipo realizado por Moita Flores.

Uma das grandes inquietações da sociedade de massas em que muitas vezes a arte e o entretenimento se confundem, é o problema do “gosto”. Poderá o leitor ver aqui em cima uma reprodução de um quadro pintado por Vermeer. Naturalmente que alguns dentre vós dirão que o belo está presente nessa pintura, mas outros dirão apenas que a constatação da beleza nesse quadro é uma mera questão de opinião, isto é, da subjectividade inerente ao “gosto”. Outros dirão que estes quadros expostos nesta galeria reflectem de facto, e na opinião deles, o verdadeiro gosto de quem aprecia a “beleza aderente” [Kant] como sendo o conceito de belo segundo aquilo que a coisa deve ser em termos de perfeição. E o problema da definição do “bom gosto” como um bem universal na sociedade de massas será o objecto do próximo postal.

1 Comentário »

  1. […] O. Braga @ 3:18 pm Tags: estética, gosto, Immanuel Kant, juízo estético, Kant, Moral No último postal, questionei-me sobre se o gosto que existe eventualmente subjacente a um quadro de Vermeer ou de […]

    Gostar

    Pingback por Valor e juízo (3) « perspectivas — Terça-feira, 27 Outubro 2009 @ 5:17 pm | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Create a free website or blog at WordPress.com.

%d bloggers like this: